terça-feira, março 27, 2007

O mentiroso sincero



Uma das vantagens de escrever, para além do óbvio reconhecimento social e financeiro, servido em doses generosas à medida das palavras de sabedoria do escriba (excepto quando este faz questão de iniciar textos com comentários sarcásticos à arte), é a masturbação do ego. E refiro a desvalorizada técnica do onanismo num sentido espiritual, ou psicológico, na medida em que o próprio acto de criar vidas e conjunturas para as mesmas atinge proporção de acto divino, de Deus que faz nascer e depois dispõe conforme a Sua soberana vontade. Daí a auto-massagem aos órgãos sensoriais do artista, o sentido de poder sobre os desvarios de personagens submissas ao que por bem nos ocorra colocar-lhes pelo caminho.

Efectivamente, o escritor é Deus quando finalmente se decide a levantar os glúteos do sofá, e honrar o mundo expectante com mais uma leva de palavras. O mundo ou ele mesmo, que isso de escrever é tarefa de malta iludida, pretensiosa, vaidosa, e pouco autocrítica com aquilo que despeja para um processador de texto enjoado com tantas metáforas e descrições toscas. Valha-nos ao menos o sarcasmo sincero que nasce do pressionar das teclas, pois que é frequente as letras tomarem rumo diverso da vontade do autor, e quando este se decide a iniciar uma história de forma sublime – ou assim o pensa, pelo menos – encarregam-se de trazer a verdade à superfície, num assomo depreciativo do talento presumido que infla a psique do egocêntrico. O escritor pode mentir, mas as palavras raramente o fazem.

Mesmo quando nos disponibilizamos a descrever aquilo que vemos, as pessoas que observamos, não deixamos de nos arrogar desígnios divinos sobre o destino desses indivíduos, que doravante passam a personagens, pois estão reduzidas ao entendimento que fazemos delas, e às deduções que calculamos para o que são, e o que queremos que pensem. Não importa se o quadro onde as localizamos é o mesmo onde as vimos, ou conhecemos; das mãos de um mentiroso saem as maiores barbaridades, e só podemos tomar como verdade o primeiro fotograma do filme que se vai desenrolar pelos punhos do autor: a partir daí, tudo o que vemos está sujeito ao que o escritor quer dizer de si mesmo, e não daquele ou daquela que observamos. São mentiras, ainda que bem entrelaçadas em padrões credíveis. Quiçá verdades, de quem escreveu e de quem lê, quem o saberá?

Contemplemos, por exemplo, a seguinte imagem: estamos num café, e já passa da meia-noite. O local está ambientado à meia-luz, e tem aspecto moderno mas confortável, talvez devido ao facto do edifício ter sido restaurado recentemente. É um prédio antigo, de arquitectura art-deco, na verdade trata-se de um teatro, e o local em questão é o café à exploração da administração. Rodeado por uma aura sossegada de cultura, o espaço é frequentado por populaça jovem ligada às artes, mesmo que apenas na sensibilidade. Não é povo ruidoso, portanto, pelo que o estabelecimento é silencioso como uma biblioteca com música contemporânea obscura e não intrusiva a ecoar das colunas estrategicamente distribuídas pelas paredes brancas, despidas.

Entra agora a mão divina do encarregado da descrição, e não me apetece acreditar que existe algures um café de paredes nuas, num teatro art-deco; façamos uma pausa para olhar o balcão minimalista em madeira e pedir um café à empregada, et voilá, o espaço transfigurou-se quando voltamos a passear a vista pelas mesas: as paredes estão cobertas de posters antigos emoldurados, a anunciar as peças de teatro que por lá passaram, desde os idos anos cinquenta, quando o edifício abriu ao público. Foi ideia de um administrativo que já pertence à mobília da casa, a de desenterrar da cave malcheirosa os posters de produções já esquecidas para decorar as paredes interiores, após a restauração. Bastou uma sugestão à nova direcção, e eis que surgiram as máscaras de papel para o desgraçado que foi vasculhar no meio do pó de décadas, e para as molduras vermelhas que agora repousam nas paredes.

Rodeada pelos rostos a preto e branco de actores que só os eruditos conhecem, está Márcia, sentada numa das mesas que não recebe luz directa dos poucos candeeiros acesos. Mesmo ao centro da sala, acabou de pedir um café e um copo de água, que agora saboreia, o café, entenda-se, a água será para depois. A mesa tem uma vela rasa barata, de loja chinesa, que ninguém acendeu. Márcia beberrica o café devagar, e quando estende a mão para o isqueiro acende primeiro a vela, e só depois o cigarro. O seu rosto está agora iluminado por um amarelo bruxuleante, e podemos ver que é bonita. Não excessivamente bonita, e ela tem noção disso, pois que se preocupa sempre em sair à rua bem maquilhada, com todos os produtos químicos não abrasivos correctamente aplicados e alinhados no rosto pequeno, arredondado, a esconder o não tão bonito, e a realçar o mais ou menos bonito.

Tem os olhos tristes, a Márcia, e não é só porque se sente triste neste momento: meio descaídos para fora, castanhos, amendoados, dão-lhe uma aura de dor subtil, a espreitar por entre as pestanas negras, longas de rímel. Quando se pinta ficam com um ar doce, de pessoa abandonada, e despertam ternura em quem olha; está pintada hoje, traz um azul suave a transmutar a melancolia em sacarose. Os lábios apertados ganharam ar de beijos sensuais com o vermelho gloss que reflecte as chamas da vela. Está triste mas não parece: é só porque a vemos assim que achamos a tristeza onde ela realmente existe.

A Márcia acaba o café e não toca no copo de água, enquanto espera pelo amante. Poderia ser namorado, mas é amante, tanto por estar apaixonada por ele, como por a criatura tomar ares distantes de visita ocasional, de quem não quer namorar, só amantizar. É amante porque é amado, mas não parece querer amar, ou pelo menos assim lhe parece. A nós também.

Durante doze anos teve tudo o que poderia desejar de alguém, excepto aquilo que não tinha e que desejava, claro, porque no fundo andamos todos de coração insatisfeito a pedir ao destino coisas diferentes e aumentadas daquilo que já temos. Chamava-se Daniel, e doze anos é muito tempo, ora bolas, destas relações só se podem esperar grandes amores ou grandes recordações. Márcia teve os amores durante bastante tempo, e quando estes se findaram, ficou com as recordações. Agora está triste e já não sabe se estas memórias ainda são amores, ou vice-versa, que os assuntos do coração são demasiado complicados para serem livremente expressos e compreendidos, só com frases rebuscadas e paradoxais é que podemos alcançar um pequeno sentido do que na verdade sentimos.

Neste momento Márcia pondera se não terá cometido um erro quando deixou naturalmente de amar Daniel, tão naturalmente como uma despedida em que o barco se desprende muito devagar do cais, e durante longo tempo os braços no ar, na embarcação e em terra, acenam saudades mútuas. Não sabe se errou quando deixou de amar aos poucos, tão lentamente que só se apercebeu do vazio quando ele já era maior do que o coração, e não sabe se errou ainda mais quando se permitiu amar novamente, neste caso Pedro. O mal dos erros é que dificilmente nos apercebemos deles, antes de cairmos na armadilha: só quando a asneira foi cumprida e consumada é que a compreensão se instala. A compreensão do erro é uma tartaruga a competir com uma lebre, nunca chega primeiro à linha de vitória.

Pedro tem uma vantagem óbvia a seu favor, uma máscara que Daniel já tinha perdido há muito: é um sedutor nato, um conquistador. Não que tenha precisado de muito esforço: a vulnerabilidade e medo da solidão de Márcia fizeram a maior parte do trabalho, quantas vezes conspiramos contra nós, e a nosso favor. Mas teve alguns méritos, reconheça-se, e soube atacar a presa com as armas certas, pelos flancos mais frágeis. O problema foi quando a caçada terminou, e eis o motivo pelo qual Márcia mascara a tristeza debaixo de camadas de pó: quer voltar a ser vulnerável e a ter medo de estar sozinha. Está apaixonada.

Nestas últimas semanas já aturou mais do que permitiu a Daniel, em doze anos, e não percebe como é que uma mulher forte e determinada, disposta a não aturar merda nenhuma de merda de homem nenhum, se transmutou nesta coisa feminina tão submissa. Não submissa nas atitudes, que o local é certo para representações, e Márcia sabe que vai ser dura quando ele chegar. Submissa no coração, porque sabe que não consegue, e por muito que queira mandar todos os homens para a puta que os pariu, com Pedro no primeiro lugar da fila, não vai conseguir, vai ser iludida outra vez pelas palavras dele, vai deixar e querer ser iludida. Até acabar nua na escuridão a pensar que cometeu um erro, a desejar apagar tudo e ao mesmo tempo continuar a errar.

No fundo o problema é dos homens, por muito ou pouco filhos da puta que sejam; enquanto não conseguem o que querem, e todas as mulheres sabem o que os homens querem, são tudo aquilo que as mulheres querem. Às vezes até depois. No fundo no fundo, o que os homens são é mentirosos sinceros. Podem querer abanar a cama por algumas horas – quando se tem sorte – ou por uma vida inteira, mas os métodos são os mesmos: iludir, fazer acreditar, despertar os sonhos e apresentarem-se como a concretização dos mesmos. E estão tão iludidos pelo desejo que até se convencem da verdade nas mentiras que elaboram, digam agora como poderá uma mulher resistir à sinceridade de um homem que mente até para ele próprio?

A sala está na penumbra, e Pedro acabou de chegar. Parado na entrada, à procura, o rosto ilumina-se num sorriso quando a vê, quase que apaga todas aquelas semanas em que não atendeu as suas chamadas, ignorou as suas mensagens, e foi passar fins de semana fora sem aviso, explicação, ou cavaco. Diz-lhe adeus como se estivesse a sair, mas é na direcção dela que caminha, ainda a sorrir, e Márcia sente a garganta seca. Estende a mão e agarra no copo de água, que leva aos lábios. Por um momento os seus olhos perdem a tristeza com que nasceram, parece que brilham, mas deve ser o efeito da luz da vela quase gasta. O gloss vermelho dá a sensação de se estar quase a contrair num sorriso recíproco, mas deve ser a penumbra que nos prega partidas. Estamos num teatro, afinal, e tudo é uma representação. Uma mentira sincera.

Imagem: Robbie Jack ~ Peça "Much Ado About Nothing"

domingo, março 11, 2007

Cinefilias IV (O Labirinto do Fauno)



“Conta-se que há muito, muito tempo, a filha do rei do mundo subterrâneo sentiu um desejo irresistível de abandonar o seu reino de sombras e escuridão, e conhecer o mundo de luz, à superfície. Apesar da vigilância atenta dos servos do reino, conseguiu escapar, e fugir pela escadaria que desembocava na abertura ao mundo exterior. Lá em cima, a luz do sol irremediavelmente apagou as suas recordações de herdeira do reino, e tornou-a mortiça e frágil como os humanos, acabando a princesa eventualmente por morrer, esquecida do seu passado e das suas origens. Diz a lenda que o rei e a rainha ainda aguardam o retorno da sua filha, em outro corpo, quem sabe?, para reclamar o seu lugar como princesa herdeira do trono subterrâneo.”

Começa desta forma o filme do realizador mexicano Guillermo del Toro (mais ou menos, esta sinopse inicial foi escrita com base no que recordo, pois não consegui encontrar uma transcrição literal), e permitam-me que avance desde já com a informação que há algum tempo que não via um filme assim, que me enchesse por completo as medidas (desde “Little Miss Sunshine”), e ao qual não conseguisse apontar rigorosamente nenhuma falha. É frequente sentir-me assim perante algumas particulares obras, que depois não sobrevivem a uma segunda leitura ou visionamento (como “O código da Vinci” que adorei quando li a primeira vez, e que achei mediano e mal escrito na maioria das passagens, à segunda leitura); este apontar de perfeição deve-se ao deslumbre inicial quando sou confrontado com algo que me entusiasma particularmente, e que me deixa incapaz de notar as falhas mais ou menos óbvias. Pode ser que assim suceda com “O Labirinto do Fauno”, mas caramba, vai continuar a ser um dos favoritos. Sem dúvida.

Depois da introdução fantasiosa, somos apresentados à pequena Ofélia, uma rapariga fascinada com histórias de contos de fada, que viaja numa comitiva militar com a sua mãe, em estado de gravidez avançada, para ter com o seu padrasto, o capitão Vidal, um militar destacado para um posto militar rural no interior de Espanha, no período da guerra civil espanhola. A meio da viagem Ofélia encontra uma pedra com um olho esculpido, que encaixa numa estátua de aspecto antigo e pagão na margem da estrada. Este acto faz com que um insecto de aspecto estranho (maravilhosamente criado por computador) saia da boca da estátua, e a siga até ao posto militar, localizado no meio da floresta, num velho moinho.

O padrasto de Ofélia é um homem frio e calculista, que as recebe de uma maneira formal e distante, e naquela noite Ofélia é visitada pelo insecto, que assume a forma de uma fada, e a convence a segui-la até ao labirinto próximo do moinho, e a descer pelo poço que se encontra ao centro. Lá em baixo, Ofélia conhece o Fauno, que lhe diz que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo, e que terá de cumprir três tarefas, para ocupar novamente o seu lugar a lado dos verdadeiros pais.

Dito desta maneira, poder-se-á pensar que “O Labirinto do Fauno” é um filme fantasioso e imaginativo, completamente deslocado do mundo onde vivemos. Até certo ponto, é verdade, pois nunca temos a certeza de que o que Ofélia vê (e nós), seja real, podendo até assumir que tudo aquilo não passa do delírio de uma criança que leu demasiados livros (como se isso fosse possível). O génio do realizador consiste em colocar todo este ambiente mágico num momento particularmente negro e cruel da história de Espanha, desenvolvendo praticamente duas histórias diferenciadas, embora com paralelismos aqui e ali.

Assim, de um lado temos as provas que Ofélia tem de encarar, com fantásticas criaturas e monstros absolutamente tenebrosos (a sério, há pelo menos um que é de arrepiar a espinha – o da foto acima), e por outro temos a luta que o Capitão Vidal empreende contra os rebeldes escondidos na floresta, e como este personagem se revela um monstro absolutamente maior e mais apavorante do que qualquer criatura do reino da fantasia. Não estou a brincar, este homem é assustador, a forma como assassina sem remorsos, tortura sem piedade, e o desprezo total que vota a todos os que o rodeiam (perante os problemas de gravidez da esposa não hesita em dizer ao médico para não se preocupar com a vida dela, se necessário, mas que salve o filho a todo custo), conseguem ser ainda mais arrepiantes.

Numa altura em que a maioria dos filmes produzidos pela máquina de Hollywood parecem ter sido feitos apenas e somente com base em fórmulas predefinidas de marketing, destinadas a arrancar o máximo de dinheiro possível das audiências no primeiro fim-de-semana de estreia, constato que cada vez mais encontramos ideias frescas e originais em cineastas que cresceram e aprenderam à margem dessa cultura de lucro fácil, ainda que tenham sido influenciados positivamente por ela. Grande parte dos realizadores de Hollywood, actualmente, sofrem de uma gritante falta de ideias, preferindo repetir fórmulas de sucesso à exaustão (e fazer remakes inúteis de filmes estrangeiros). Em cima disto, há a pressão das bilheteiras imposta pelos produtores, que preferem estrear filmes com a classificação mínima, por forma a maximizar a audiência potencial. Esta atitude compromete a visão de quem escreveu e de quem realizou os filmes, e se estas regras fossem aplicadas a “O Labirinto do Fauno”, o filme não seria metade da obra prima que é.

Vejamos, por exemplo, a cena onde Ofélia tem que entrar na sala do monstro da foto acima. Só de olhar para a aparência dele, percebemos que dali não pode sair nada de bom, mas para melhor ilustrar a ameaça que pende sobre a protagonista, Guillermo del Toro não se coibiu de, em primeiro lugar, mostrar-nos a decoração da sala, carregada de painéis onde o monstro aparece em variadas cenas macabras, a torturar e a comer bebés e crianças. Depois a câmara foca-se num canto da sala, onde existe uma pilha enorme de sapatos de crianças, as vítimas da besta. Agora imaginem os produtores de Los Angeles a ver isto, e a pensarem na classificação que o filme vai ter, e nos milhares de clientes com idades abaixo dos 13 anos que não vão poder entrar nas salas para ver o filme; quase consigo ouvir os cortes de tesoura a que o filme poderia ter sido submetido, fossem outros os financiamentos, e outro o realizador. Desenhos de bebés a serem esquartejados e devorados? Snip snip, não, não podemos chocar os espectadores, ora bolas, senão como poderíamos concretizar o cinematográfico objectivo mundial de transformar as multidões de indivíduos pensantes na massa amorfa capaz de pagar para engolir tudo aquilo que lhe enfiamos pelas goelas?

Ofélia é uma criança solitária, inserida num mundo terrível de violência e atrocidades sem par, povoado de monstros que poderiam ter existido (e que na verdade existem, neste mundo em que vivemos), portanto não é de estranhar que encontre escape nas fantasias dos contos de fada, mesmo que sejam contos de fada sombrios, como aliás todos os contos de fadas são (pelo menos antes da trituradora da Disney). Com um aspecto visual verdadeiramente impressionante, e perfeito em todos os detalhes, este filme representa um escape ideal para as nossas preocupações do dia a dia (ainda que durante a duração da película), e, no que me toca, vai ser sempre um dos favoritos. É um sonho fantástico, salpicado aqui e ali por elementos de pesadelo, que termina de uma forma ambígua, cabendo ao espectador decidir o que realmente aconteceu. Imperdível.

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