quarta-feira, maio 23, 2007

Mudar o mundo



A primeira recordação que tenho da escrita data da terceira classe, já lá vão – meu Deus! – quase trinta anos. Não era um miúdo tímido, mas reservado o suficiente para preferir passar horas agarrado aos livros e às revistas de banda desenhada, ao invés de esfolar as sapatilhas no campo de terra batida, a dar pontapés na bola. Agora vejo o Cristiano Ronaldo na televisão e penso se terá sido uma boa opção, mas foram boas horas, sentado no sofá, deitado no chão, estendido na cama, a ler até os cotovelos doerem, a devorar palavras como se não houvesse amanhã. Creio ser daí que me nasceu esta vontade incontrolável de regurgitar textos infindos: ainda estou a deitar cá para fora todos os milhões de palavras que fui digerindo ao longo da vida. Sem dores nas canelas e sem um tostão no bolso.

Esta bulimia literária não é doença recente; desde que descobri os sonhos que se escondem na palavra escrita, que tento dar-lhes forma no papel, e não foram poucas as vezes que me debati e suei, a espernear interiormente, nas tentativas de esculpir uma amostra de ideia, um conceito pungente, em algo que possa ser lançado ao mundo, aos berros como um recém nascido zangado que não recebe atenção. Mudar o mundo? Não. Só quero fazer um pouco de barulho.

Na terceira classe a professora mandou-nos escrever uma redacção sobre o último dia de aulas. Estávamos no início do Verão, e os dias aqueciam, soalheiros, a prever incêndios e mergulhos no rio Paiva. Dos campos ao redor da vila levantava-se o cheiro da natureza que sente o ar que começa a abafar de calor, e os zumbidos da bicharada eram chamamentos que nos punham a todos, prisioneiros na frescura austera da escola primária, irrequietos nos assentos, a ansiar pela vida ao ar livre debaixo de um céu sem nuvens.

Escrever redacções era a minha actividade favorita, na idade da inocência, em contraponto directo ao desagrado que sentia por tudo o que estivesse envolvido com números e contas. Assim, aplicava-me particularmente e compensava as desgraças matemáticas com louvores escolares que celebravam as vitórias do português. Naquele dia escrevi um texto elaborado (pelo menos achava que sim) sobre o meu último dia de aulas, exactamente no momento em que vejo as minhas notas afixadas no quadro de cortiça, e saio a correr da escola, acompanhado do meu inseparável sidekick, o cão Farrusco, que nunca existiu a não ser na minha cabeça e naquela folha do caderno que, a existir, deve estar bem amarelecida e com tinta a desbotar. O Farrusco era um animal prodigiosamente interessante, aparte o facto de ser um produto da imaginação juvenil, pois compreendia tudo o que lhe dizia, tal e qual o Tim dos Cinco.

Enfim. O motivo pelo qual nunca esqueci esta redacção em particular – não foi a primeira ou a última – deve-se a uma frase que rabisquei cuidadosamente na folha, com o orgulho do escritor consagrado, onde comentava com o Farrusco que agora é que era, com o começo das férias já podíamos brincar aos piratas no rio, e fazer um monte de coisas divertidas. Um monte de coisas divertidas. O Farrusco respondia com o latido é-verdade-tens-toda-a-razão-do-que-é-que-estamos-à-espera?, enquanto galgava as ruas empedradas da vila em passada acelerada, ao meu lado.

Um monte de coisas divertidas. Quando o caderno voltou da caneta inquisidora da professora, mulher pequena vestida de negro que ocultava um coração frio sob a aparência de Vóvó Donalda, as palavras “monte de” traziam um grosso risco vermelho a todo o comprimento, e por cima, como se tivessem morrido e lhes pairasse a alma acima do corpo, estava a substituta “muitas”, acompanhada do comentário que não se faziam montes de coisas, mas sim muitas coisas. Que me lembre, também foi nesse momento que senti pela primeira vez a pontada amarga da injustiça, a ferroar o coração com a marca da indignação: Um monte? Claro que era um monte! Se o personagem da história era eu, é lógico que falasse “um monte” e não “muitas”, então se eu dizia “um monte” um monte de vezes, ora que merda. Riscar a minha expressão cuidadosamente colocada e fiel ao espírito da personagem, colocando em seu lugar uma substituta de quinta categoria, sem qualquer respeito ou capacidade de compreensão da intenção do autor, era um flagrante atentado à liberdade criativa, uma tentativa brutal de agrilhoar a minha voz, de moldar as minhas palavras aos modelos impostos pela sociedade.

Não o exprimi em tantas palavras, mas a verdade e que fiquei mesmo chateado, e agora nem sei se o facto de ser um defensor pétreo da liberdade sob qualquer forma de expressão artística não se deve a esse traço vermelho que manchou uma página imaculada. Seria ridículo se assim fosse, heh, ou talvez não. De mais a mais a redacção ainda trazia uns rabisquitos encarnados, fruto do excesso de vírgulas. Sempre foram o meu fraco, as vírgulas.

Deixemos o Farrusco para trás, a correr com um rapazinho franzino que só pensa em empunhar uma espada e descobrir tesouros enterrados, e avancemos mais ou menos dez anos. Nessa altura estava no Brasil, e de pirata sanguinário passei a adolescente inseguro, eternamente fascinado com as formas femininas que esticavam e repuxavam t-shirts de algodão e calças jeans de corte piroso (lembrem-se, eram os anos oitenta). Fiz lá o décimo primeiro e décimo segundo anos do secundário (os equivalentes do ensino português, o nome era diferente), só com aulas de manhã; antes de apanhar o ônibus para casa passava sempre na Biblioteca de Suzano (estado de São Paulo) e trazia um ou dois livros que me acompanhavam nas tardes tropicais. Ainda tenho um cartão dessa biblioteca, e sorrio sempre que vejo as datas que a funcionária ia registando: todos os dias entregava livros, e todos os dias trazia livros. Nas primeiras vezes era olhado com alguma desconfiança, e quase conseguia ver os mecanismos a rodarem atrás dos olhos inquiridores (mas o que é que ele faz com os livros? Será algum fetiche?).

Quando fiz dezoito anos recebi uma máquina de escrever dos meus pais, a pedido, e não imaginam a satisfação que senti quando destravei pela primeira vez as patilhas da caixa em formato de mala de viagem, de cor verde-hospital, e fiz deslizar cuidadosamente o animal metálico de teclas reluzentes para o mundo. Foi o prazer de quem encontra um destino.

Passei horas debruçado no martelar das teclas, a escutar o som característico, tão agradável, tec tec tec, das palavras a nascerem. Os computadores e teclados são muito bonitos e práticos, e sem dúvida que a tecla backspace é uma bênção que brotou de uma nascente do céu, mas também perdemos o encanto daquele tec tec tec, o ideal romântico dos escritores em quartos escuros, com uma garrafa de gin ao lado e uma mulher nua adormecida na cama, a fazerem barulho por entre as golfadas de fumo do cigarro esquecido no cinzeiro transbordante. A fazerem barulho? Não. A mudarem o mundo.

O primeiro texto que escrevi na máquina era uma imitação insossa dos romances policiais que não me cansava de ler: contava a história de um policia à paisana que vai a um bar de aspecto sujo e decadente, e descobre que o serial killer, ao estilo do Jack o Estripador, que anda a deixar um rastro de sangue na cidade, escolhe as ruas alfabeticamente para cometer os seus assassinatos. Depois de sair do bar, que tive o cuidado de descrever exaustivamente em todos os ínfimos pormenores, o polícia dirige-se à rua onde deduziu que ocorreria o próximo crime, e acaba deitado numa poça do próprio sangue, emboscado pelo facínora. Afinal era o próximo da lista, reparem no delicado entretecer de pistas até à surpresa final. Ai ai, que amador…

Depois escrevi nada mais nada menos do que quatro livros. Sim, quatro, qual é o espanto? O primeiro nasceu de uma inspiração momentânea: estava quase a adormecer e tive de agarrar no papel e caneta, e passar a noite toda acordado: tratava-se da história de Sardasan no formato de poemas curtos, um ser/rapaz/animal/qualquer coisa, que vive numa pedra no meio de um lago e um dia recebe a visita de um bicho inidentificável, que o informa da existência do Amor e da Felicidade. O nome Sardasan apareceu-me num sonho, e o personagem embarca numa jornada interior e exterior, onde conhece variados animais falantes, até encontrar por fim o Amor e a Felicidade. Não se riam, que esse tipo de romantismo lamechas ainda cá anda, mais ou menos camuflado, embora já não tenha a desculpa dos meus dezassete anos para o justificar. O título era “Não conheço aqueles que se lembram da Felicidade” (também apareceu num sonho).

Os dois livros seguintes foram as sequelas da história de Sardasan, e pela primeira vez tive o mérito (?) de me dizerem que demonstrei o que era o verdadeiro amor (a segunda foi recentemente). Foi o meu amigo Fernando Yujiro Sumiya, que, juntamente com o meu grande amigo Renato Matsui Pisciotta, eram as cobaias sofredoras a quem eu submetia as minhas barbáries literárias. Não os vejo há mais de quinze anos, e tenho saudades deles.

O quarto livro foi um projecto mais ambicioso: uma história em prosa, com capítulos e tudo, na melhor tradição da literatura de ficção científica. Dois soldados inimigos são colocados num planeta deserto por uma raça de alienígenas, para lutarem até à morte, recaindo sobre eles o destino da humanidade. Fantástico, na verdade, e é mesmo uma pena que fosse uma cópia descarada (mas não plágio) de uma história que tinha lido há pouco tempo nas Selecções do Readers Digest.

Escrevi outros contos posteriormente, e lamento ter perdido todas as cópias que tinha dessas tentativas pueris de me lançar na escrita. O Renato ficou com algumas páginas, e de tempos a tempos lá o chateio para digitalizar e me mandar, mas até agora as minhas surtidas ainda não tiveram efeito naquela mente perversa. É pena, gostava mesmo de me submerger na nostalgia de ler textos que já não recordo ter escrito.

Quando vim para Portugal trouxe a máquina de escrever, e o último conto que registei nas teclas musicais foi a história futurista de umas pessoas que vivem num pântano repleto de rãs, depois da hecatombe humana, sobrevivendo a custo, escondidos das máquinas que são os novos senhores do mundo. Depois fui para o Exército, e passaram-se anos – pontuados por textos ocasionais – até encontrar a Internet, os fóruns, e as palavras, novamente. Se calhar nunca as perdi, e se fossem seres vivos, as palavras, imagino todos aqueles anos em que estiveram semi-adormecidas, talvez pacientemente emboscadas nos recessos do subconsciente, à espera da oportunidade de atacar, de viver outra vez.

Dos fóruns passei para os blogs, algum tempo depois da moda que acometeu tudo quanto é internauta com algo (ou nada) para dizer, que nunca fui pessoa de embarcar à primeira nos desvarios da humanidade. Passada que foi a explosão inicial, resolvi-me a criar este espaço, sem expectativas de audiência, sem sonhos de glória e fama e fortuna. Pelo menos nisso sou realista, ora bolas. E espanto-me com as pessoas que já conheci, com aquilo que já disse, com o barulho que já fiz, e como mudei o mundo, o meu mundo, com as minhas palavras.

Como é possível, passado um ano, que ainda exista este monstro que constantemente me atormenta com pedidos de posts, esta coisa que faz um ano hoje, e ainda berra como recém-nascido que quer mamar um biberão de palavras, todos os dias. Faço-o passar tanta fome, eu sei, mas quando me decidi a criar o Passengers foi com o acordo prévio de que seria atípico dos milhares de blogs actualizados diariamente com parágrafos isolados, imagens, filmes, reflexões momentâneas certeiras ou mordazes, pequenos episódios do dia a dia. Não, meus amigos e amigas, aqui escreve-se ao quilo, com a eficácia de um comprimido para dormir, e por vezes com a inépcia de um macaco que escreve à máquina na esperança de criar um Shakespeare.

Passou um ano, e ainda cá estou, e passaram-se muitos anos, e ainda cá estou. Pirata sem perna de pau, adolescente frustrado que sonha com o seu nome em capas de papel couché, soldado cavaleiro aprumado que sonha longe da parada, civil apaixonado com dores nas costas que se estica para o mundo através de um monitor, temos todos ainda muito mais para contar, pelo que pedimos que verifiquem se ainda têm o vosso bilhete na mão, e se encostem nos assentos. A viagem vai continuar.

Montes de coisas para contar. Este macaco tem montes de coisas para contar, ainda. Montes. Montes. Montes.


PS – Aproveito para dar os parabéns à Patrícia, que vive dentro do fogo também há exactamente um ano. O espaço dela é feito de luz e intimidade, ao contrário do meu, que mascara e ilude nas sombras, por entre as verdades ocasionais. Que continues por muitos (montes de) anos, nesta tarefa de macacos, e que a tua convicção, força, e amor, se mantenham inabaláveis.

segunda-feira, abril 16, 2007

Leituras XI



“Penso que é tempo de termos uma pequena conversa. Estão confortavelmente sentados? Vou começar, então…

Calculo que estejam a perguntar-se porque motivo foram chamados aqui, esta tarde. Bem, como vêem, não estou inteiramente satisfeito com a vossa performance ultimamente. Receio que o vosso trabalho esteja a piorar e…

…e, bem, receio que estejamos a pensar seriamente em dispensá-los.

Oh, eu sei, eu sei, vocês já estão na empresa há muito tempo. Quasedeixem-me pensar. Quase dez mil anos! Palavra de honra, o tempo voa, não acham? Parece que foi ontem… recordo-me perfeitamente do dia em que começaram as vossas funções, a balançarem-se das árvores, inexperientes e nervosos, um osso apertado nos punhos encrespados…

Por onde começamos, senhor?’ vocês perguntaram, submissos.

Percorremos juntos um longo caminho, não é verdade? E sim, sim, estão correctos, em todos estes dias não faltaram uma única vez. Muito bem, meus bons e fiéis servos. Por favor não pensem que me esqueci do vosso extraordinário serviço, e de todas as inestimáveis contribuições que deram à empresa… o fogo, a roda, agricultura… é uma lista impressionante, meus caros. Uma lista deveras impressionante, não me interpretem mal.

Mas… bem… para ser sincero, também tivemos os nossos problemas. Não vale a pena tentar esconder isso. Sabem de onde penso que nascem estes problemas? Eu digo-vos… é da vossa básica falta de vontade de prosseguirem com a empresa. Vocês não parecem ter desejo algum de encarar qualquer tipo de verdadeira responsabilidade, ou de serem os vossos próprios patrões. Deus sabe que já vos deram oportunidades suficientes. Já vos oferecemos promoções por mais do que uma vez, e a cada uma delas vocês acabam por recusar. ‘Não conseguíamos fazer o trabalho, chefe’ choramingaram, ‘Nós sabemos qual é o nosso lugar.’

Para ser sincero, não estão realmente a tentar, pois não?

Sucede que vocês estão paralisados há demasiado tempo, e já se começa a notar no serviço. E se me permitem acrescentar, no vosso comportamento em geral. As disputas constantes no piso da fábrica não escaparam à nossa atenção. Nem as erupções de desordem no pessoal da cantina. E depois, claro, há… hmmm, bem, eu realmente não queria trazer isto ao de cima mas tenho ouvido alguns rumores perturbadores sobre a vossa vida pessoal. Não, não importa quem me contou. Pelo que percebi, são incapazes de se darem com os vossos conjugues. Ouvi dizer que discutem, que gritam. Actos violentos foram mencionados. Estou informado por fontes seguras que vocês sempre magoam aqueles que amam. Aqueles que nunca deveriam magoar.

E em relação às crianças? São sempre as crianças que sofrem, como vocês bem sabem. Pobres pequenos. O que é que eles podem fazer?

E não vale a pena colocarem as culpas da quebra nos padrões do serviço na má gestão, embora a gestão seja péssima. De facto, não vamos estar com rodeios: a gestão é terrível. Tivemos uma série de corruptos, fraudes, mentirosos, e lunáticos a tomarem uma série de decisões catastróficas. Isto é simples facto.

Mas quem os elegeu?

Foram vocês. Vocês que nomearam estas pessoas. Vocês que lhes deram o poder para tomarem as decisões no vosso lugar. Embora admita que qualquer um possa cometer um erro ocasionalmente, continuar a cometer os mesmos erros século após século não me parece nada menos do que deliberado. Vocês encorajaram estes maldosos incompetentes que transformaram a vossa vida e trabalho numa ruína. Vocês aceitaram sem questionar as suas ordens desprovidas de sentido. Vocês poderiam tê-los parado. Tudo o que precisavam de dizer era ‘Não’.

Vocês não têm espinha. Vocês não têm orgulho.

Vocês deixaram de ser uma mais valia para a empresa.”

Alan Moore, V For Vendetta, Vertigo, 2005. Ilustrações de David Lloyd.

Esta é uma tradução amadora do fantástico texto de Alan Moore, que pode ser lido na íntegra e na sua versão original aqui. Para informações adicionais sobre este excelente livro em banda desenhada, visitem este site.

Infelizmente, emprestei a minha cópia a um amigo, e não quero estar a escrever de memória, mas pretendo um dia destes escrever um post próprio sobre esta obra (e outras, de Alan Moore). Até lá, se tiverem oportunidade, leiam o livro. Nunca mais vão encarar a banda desenhada da mesma forma.

terça-feira, março 27, 2007

O mentiroso sincero



Uma das vantagens de escrever, para além do óbvio reconhecimento social e financeiro, servido em doses generosas à medida das palavras de sabedoria do escriba (excepto quando este faz questão de iniciar textos com comentários sarcásticos à arte), é a masturbação do ego. E refiro a desvalorizada técnica do onanismo num sentido espiritual, ou psicológico, na medida em que o próprio acto de criar vidas e conjunturas para as mesmas atinge proporção de acto divino, de Deus que faz nascer e depois dispõe conforme a Sua soberana vontade. Daí a auto-massagem aos órgãos sensoriais do artista, o sentido de poder sobre os desvarios de personagens submissas ao que por bem nos ocorra colocar-lhes pelo caminho.

Efectivamente, o escritor é Deus quando finalmente se decide a levantar os glúteos do sofá, e honrar o mundo expectante com mais uma leva de palavras. O mundo ou ele mesmo, que isso de escrever é tarefa de malta iludida, pretensiosa, vaidosa, e pouco autocrítica com aquilo que despeja para um processador de texto enjoado com tantas metáforas e descrições toscas. Valha-nos ao menos o sarcasmo sincero que nasce do pressionar das teclas, pois que é frequente as letras tomarem rumo diverso da vontade do autor, e quando este se decide a iniciar uma história de forma sublime – ou assim o pensa, pelo menos – encarregam-se de trazer a verdade à superfície, num assomo depreciativo do talento presumido que infla a psique do egocêntrico. O escritor pode mentir, mas as palavras raramente o fazem.

Mesmo quando nos disponibilizamos a descrever aquilo que vemos, as pessoas que observamos, não deixamos de nos arrogar desígnios divinos sobre o destino desses indivíduos, que doravante passam a personagens, pois estão reduzidas ao entendimento que fazemos delas, e às deduções que calculamos para o que são, e o que queremos que pensem. Não importa se o quadro onde as localizamos é o mesmo onde as vimos, ou conhecemos; das mãos de um mentiroso saem as maiores barbaridades, e só podemos tomar como verdade o primeiro fotograma do filme que se vai desenrolar pelos punhos do autor: a partir daí, tudo o que vemos está sujeito ao que o escritor quer dizer de si mesmo, e não daquele ou daquela que observamos. São mentiras, ainda que bem entrelaçadas em padrões credíveis. Quiçá verdades, de quem escreveu e de quem lê, quem o saberá?

Contemplemos, por exemplo, a seguinte imagem: estamos num café, e já passa da meia-noite. O local está ambientado à meia-luz, e tem aspecto moderno mas confortável, talvez devido ao facto do edifício ter sido restaurado recentemente. É um prédio antigo, de arquitectura art-deco, na verdade trata-se de um teatro, e o local em questão é o café à exploração da administração. Rodeado por uma aura sossegada de cultura, o espaço é frequentado por populaça jovem ligada às artes, mesmo que apenas na sensibilidade. Não é povo ruidoso, portanto, pelo que o estabelecimento é silencioso como uma biblioteca com música contemporânea obscura e não intrusiva a ecoar das colunas estrategicamente distribuídas pelas paredes brancas, despidas.

Entra agora a mão divina do encarregado da descrição, e não me apetece acreditar que existe algures um café de paredes nuas, num teatro art-deco; façamos uma pausa para olhar o balcão minimalista em madeira e pedir um café à empregada, et voilá, o espaço transfigurou-se quando voltamos a passear a vista pelas mesas: as paredes estão cobertas de posters antigos emoldurados, a anunciar as peças de teatro que por lá passaram, desde os idos anos cinquenta, quando o edifício abriu ao público. Foi ideia de um administrativo que já pertence à mobília da casa, a de desenterrar da cave malcheirosa os posters de produções já esquecidas para decorar as paredes interiores, após a restauração. Bastou uma sugestão à nova direcção, e eis que surgiram as máscaras de papel para o desgraçado que foi vasculhar no meio do pó de décadas, e para as molduras vermelhas que agora repousam nas paredes.

Rodeada pelos rostos a preto e branco de actores que só os eruditos conhecem, está Márcia, sentada numa das mesas que não recebe luz directa dos poucos candeeiros acesos. Mesmo ao centro da sala, acabou de pedir um café e um copo de água, que agora saboreia, o café, entenda-se, a água será para depois. A mesa tem uma vela rasa barata, de loja chinesa, que ninguém acendeu. Márcia beberrica o café devagar, e quando estende a mão para o isqueiro acende primeiro a vela, e só depois o cigarro. O seu rosto está agora iluminado por um amarelo bruxuleante, e podemos ver que é bonita. Não excessivamente bonita, e ela tem noção disso, pois que se preocupa sempre em sair à rua bem maquilhada, com todos os produtos químicos não abrasivos correctamente aplicados e alinhados no rosto pequeno, arredondado, a esconder o não tão bonito, e a realçar o mais ou menos bonito.

Tem os olhos tristes, a Márcia, e não é só porque se sente triste neste momento: meio descaídos para fora, castanhos, amendoados, dão-lhe uma aura de dor subtil, a espreitar por entre as pestanas negras, longas de rímel. Quando se pinta ficam com um ar doce, de pessoa abandonada, e despertam ternura em quem olha; está pintada hoje, traz um azul suave a transmutar a melancolia em sacarose. Os lábios apertados ganharam ar de beijos sensuais com o vermelho gloss que reflecte as chamas da vela. Está triste mas não parece: é só porque a vemos assim que achamos a tristeza onde ela realmente existe.

A Márcia acaba o café e não toca no copo de água, enquanto espera pelo amante. Poderia ser namorado, mas é amante, tanto por estar apaixonada por ele, como por a criatura tomar ares distantes de visita ocasional, de quem não quer namorar, só amantizar. É amante porque é amado, mas não parece querer amar, ou pelo menos assim lhe parece. A nós também.

Durante doze anos teve tudo o que poderia desejar de alguém, excepto aquilo que não tinha e que desejava, claro, porque no fundo andamos todos de coração insatisfeito a pedir ao destino coisas diferentes e aumentadas daquilo que já temos. Chamava-se Daniel, e doze anos é muito tempo, ora bolas, destas relações só se podem esperar grandes amores ou grandes recordações. Márcia teve os amores durante bastante tempo, e quando estes se findaram, ficou com as recordações. Agora está triste e já não sabe se estas memórias ainda são amores, ou vice-versa, que os assuntos do coração são demasiado complicados para serem livremente expressos e compreendidos, só com frases rebuscadas e paradoxais é que podemos alcançar um pequeno sentido do que na verdade sentimos.

Neste momento Márcia pondera se não terá cometido um erro quando deixou naturalmente de amar Daniel, tão naturalmente como uma despedida em que o barco se desprende muito devagar do cais, e durante longo tempo os braços no ar, na embarcação e em terra, acenam saudades mútuas. Não sabe se errou quando deixou de amar aos poucos, tão lentamente que só se apercebeu do vazio quando ele já era maior do que o coração, e não sabe se errou ainda mais quando se permitiu amar novamente, neste caso Pedro. O mal dos erros é que dificilmente nos apercebemos deles, antes de cairmos na armadilha: só quando a asneira foi cumprida e consumada é que a compreensão se instala. A compreensão do erro é uma tartaruga a competir com uma lebre, nunca chega primeiro à linha de vitória.

Pedro tem uma vantagem óbvia a seu favor, uma máscara que Daniel já tinha perdido há muito: é um sedutor nato, um conquistador. Não que tenha precisado de muito esforço: a vulnerabilidade e medo da solidão de Márcia fizeram a maior parte do trabalho, quantas vezes conspiramos contra nós, e a nosso favor. Mas teve alguns méritos, reconheça-se, e soube atacar a presa com as armas certas, pelos flancos mais frágeis. O problema foi quando a caçada terminou, e eis o motivo pelo qual Márcia mascara a tristeza debaixo de camadas de pó: quer voltar a ser vulnerável e a ter medo de estar sozinha. Está apaixonada.

Nestas últimas semanas já aturou mais do que permitiu a Daniel, em doze anos, e não percebe como é que uma mulher forte e determinada, disposta a não aturar merda nenhuma de merda de homem nenhum, se transmutou nesta coisa feminina tão submissa. Não submissa nas atitudes, que o local é certo para representações, e Márcia sabe que vai ser dura quando ele chegar. Submissa no coração, porque sabe que não consegue, e por muito que queira mandar todos os homens para a puta que os pariu, com Pedro no primeiro lugar da fila, não vai conseguir, vai ser iludida outra vez pelas palavras dele, vai deixar e querer ser iludida. Até acabar nua na escuridão a pensar que cometeu um erro, a desejar apagar tudo e ao mesmo tempo continuar a errar.

No fundo o problema é dos homens, por muito ou pouco filhos da puta que sejam; enquanto não conseguem o que querem, e todas as mulheres sabem o que os homens querem, são tudo aquilo que as mulheres querem. Às vezes até depois. No fundo no fundo, o que os homens são é mentirosos sinceros. Podem querer abanar a cama por algumas horas – quando se tem sorte – ou por uma vida inteira, mas os métodos são os mesmos: iludir, fazer acreditar, despertar os sonhos e apresentarem-se como a concretização dos mesmos. E estão tão iludidos pelo desejo que até se convencem da verdade nas mentiras que elaboram, digam agora como poderá uma mulher resistir à sinceridade de um homem que mente até para ele próprio?

A sala está na penumbra, e Pedro acabou de chegar. Parado na entrada, à procura, o rosto ilumina-se num sorriso quando a vê, quase que apaga todas aquelas semanas em que não atendeu as suas chamadas, ignorou as suas mensagens, e foi passar fins de semana fora sem aviso, explicação, ou cavaco. Diz-lhe adeus como se estivesse a sair, mas é na direcção dela que caminha, ainda a sorrir, e Márcia sente a garganta seca. Estende a mão e agarra no copo de água, que leva aos lábios. Por um momento os seus olhos perdem a tristeza com que nasceram, parece que brilham, mas deve ser o efeito da luz da vela quase gasta. O gloss vermelho dá a sensação de se estar quase a contrair num sorriso recíproco, mas deve ser a penumbra que nos prega partidas. Estamos num teatro, afinal, e tudo é uma representação. Uma mentira sincera.

Imagem: Robbie Jack ~ Peça "Much Ado About Nothing"

domingo, março 11, 2007

Cinefilias IV (O Labirinto do Fauno)



“Conta-se que há muito, muito tempo, a filha do rei do mundo subterrâneo sentiu um desejo irresistível de abandonar o seu reino de sombras e escuridão, e conhecer o mundo de luz, à superfície. Apesar da vigilância atenta dos servos do reino, conseguiu escapar, e fugir pela escadaria que desembocava na abertura ao mundo exterior. Lá em cima, a luz do sol irremediavelmente apagou as suas recordações de herdeira do reino, e tornou-a mortiça e frágil como os humanos, acabando a princesa eventualmente por morrer, esquecida do seu passado e das suas origens. Diz a lenda que o rei e a rainha ainda aguardam o retorno da sua filha, em outro corpo, quem sabe?, para reclamar o seu lugar como princesa herdeira do trono subterrâneo.”

Começa desta forma o filme do realizador mexicano Guillermo del Toro (mais ou menos, esta sinopse inicial foi escrita com base no que recordo, pois não consegui encontrar uma transcrição literal), e permitam-me que avance desde já com a informação que há algum tempo que não via um filme assim, que me enchesse por completo as medidas (desde “Little Miss Sunshine”), e ao qual não conseguisse apontar rigorosamente nenhuma falha. É frequente sentir-me assim perante algumas particulares obras, que depois não sobrevivem a uma segunda leitura ou visionamento (como “O código da Vinci” que adorei quando li a primeira vez, e que achei mediano e mal escrito na maioria das passagens, à segunda leitura); este apontar de perfeição deve-se ao deslumbre inicial quando sou confrontado com algo que me entusiasma particularmente, e que me deixa incapaz de notar as falhas mais ou menos óbvias. Pode ser que assim suceda com “O Labirinto do Fauno”, mas caramba, vai continuar a ser um dos favoritos. Sem dúvida.

Depois da introdução fantasiosa, somos apresentados à pequena Ofélia, uma rapariga fascinada com histórias de contos de fada, que viaja numa comitiva militar com a sua mãe, em estado de gravidez avançada, para ter com o seu padrasto, o capitão Vidal, um militar destacado para um posto militar rural no interior de Espanha, no período da guerra civil espanhola. A meio da viagem Ofélia encontra uma pedra com um olho esculpido, que encaixa numa estátua de aspecto antigo e pagão na margem da estrada. Este acto faz com que um insecto de aspecto estranho (maravilhosamente criado por computador) saia da boca da estátua, e a siga até ao posto militar, localizado no meio da floresta, num velho moinho.

O padrasto de Ofélia é um homem frio e calculista, que as recebe de uma maneira formal e distante, e naquela noite Ofélia é visitada pelo insecto, que assume a forma de uma fada, e a convence a segui-la até ao labirinto próximo do moinho, e a descer pelo poço que se encontra ao centro. Lá em baixo, Ofélia conhece o Fauno, que lhe diz que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo, e que terá de cumprir três tarefas, para ocupar novamente o seu lugar a lado dos verdadeiros pais.

Dito desta maneira, poder-se-á pensar que “O Labirinto do Fauno” é um filme fantasioso e imaginativo, completamente deslocado do mundo onde vivemos. Até certo ponto, é verdade, pois nunca temos a certeza de que o que Ofélia vê (e nós), seja real, podendo até assumir que tudo aquilo não passa do delírio de uma criança que leu demasiados livros (como se isso fosse possível). O génio do realizador consiste em colocar todo este ambiente mágico num momento particularmente negro e cruel da história de Espanha, desenvolvendo praticamente duas histórias diferenciadas, embora com paralelismos aqui e ali.

Assim, de um lado temos as provas que Ofélia tem de encarar, com fantásticas criaturas e monstros absolutamente tenebrosos (a sério, há pelo menos um que é de arrepiar a espinha – o da foto acima), e por outro temos a luta que o Capitão Vidal empreende contra os rebeldes escondidos na floresta, e como este personagem se revela um monstro absolutamente maior e mais apavorante do que qualquer criatura do reino da fantasia. Não estou a brincar, este homem é assustador, a forma como assassina sem remorsos, tortura sem piedade, e o desprezo total que vota a todos os que o rodeiam (perante os problemas de gravidez da esposa não hesita em dizer ao médico para não se preocupar com a vida dela, se necessário, mas que salve o filho a todo custo), conseguem ser ainda mais arrepiantes.

Numa altura em que a maioria dos filmes produzidos pela máquina de Hollywood parecem ter sido feitos apenas e somente com base em fórmulas predefinidas de marketing, destinadas a arrancar o máximo de dinheiro possível das audiências no primeiro fim-de-semana de estreia, constato que cada vez mais encontramos ideias frescas e originais em cineastas que cresceram e aprenderam à margem dessa cultura de lucro fácil, ainda que tenham sido influenciados positivamente por ela. Grande parte dos realizadores de Hollywood, actualmente, sofrem de uma gritante falta de ideias, preferindo repetir fórmulas de sucesso à exaustão (e fazer remakes inúteis de filmes estrangeiros). Em cima disto, há a pressão das bilheteiras imposta pelos produtores, que preferem estrear filmes com a classificação mínima, por forma a maximizar a audiência potencial. Esta atitude compromete a visão de quem escreveu e de quem realizou os filmes, e se estas regras fossem aplicadas a “O Labirinto do Fauno”, o filme não seria metade da obra prima que é.

Vejamos, por exemplo, a cena onde Ofélia tem que entrar na sala do monstro da foto acima. Só de olhar para a aparência dele, percebemos que dali não pode sair nada de bom, mas para melhor ilustrar a ameaça que pende sobre a protagonista, Guillermo del Toro não se coibiu de, em primeiro lugar, mostrar-nos a decoração da sala, carregada de painéis onde o monstro aparece em variadas cenas macabras, a torturar e a comer bebés e crianças. Depois a câmara foca-se num canto da sala, onde existe uma pilha enorme de sapatos de crianças, as vítimas da besta. Agora imaginem os produtores de Los Angeles a ver isto, e a pensarem na classificação que o filme vai ter, e nos milhares de clientes com idades abaixo dos 13 anos que não vão poder entrar nas salas para ver o filme; quase consigo ouvir os cortes de tesoura a que o filme poderia ter sido submetido, fossem outros os financiamentos, e outro o realizador. Desenhos de bebés a serem esquartejados e devorados? Snip snip, não, não podemos chocar os espectadores, ora bolas, senão como poderíamos concretizar o cinematográfico objectivo mundial de transformar as multidões de indivíduos pensantes na massa amorfa capaz de pagar para engolir tudo aquilo que lhe enfiamos pelas goelas?

Ofélia é uma criança solitária, inserida num mundo terrível de violência e atrocidades sem par, povoado de monstros que poderiam ter existido (e que na verdade existem, neste mundo em que vivemos), portanto não é de estranhar que encontre escape nas fantasias dos contos de fada, mesmo que sejam contos de fada sombrios, como aliás todos os contos de fadas são (pelo menos antes da trituradora da Disney). Com um aspecto visual verdadeiramente impressionante, e perfeito em todos os detalhes, este filme representa um escape ideal para as nossas preocupações do dia a dia (ainda que durante a duração da película), e, no que me toca, vai ser sempre um dos favoritos. É um sonho fantástico, salpicado aqui e ali por elementos de pesadelo, que termina de uma forma ambígua, cabendo ao espectador decidir o que realmente aconteceu. Imperdível.

Precisa de uma segunda opinião?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Sem certezas



Preparei há minutos um café bem forte, que vai ser uma ajuda inestimável à insónia que tem preenchido as minhas noites, ultimamente, e fui para a marquise, chávena numa mão, cigarro na outra, observar as tonterias dos gatos vadios no quintal da casa desocupada em frente. Há mais de uma semana que não estou contigo e sinto-me só, tão só que gostava de ser um gato vadio e não fazer mais na vida do que caçar e brincar no escuro de um quintal promovido a selva.

Não entendo como é possível que sejam trivialidades banais do dia a dia o motivo último para que estejamos separados, mas compreendo que por detrás destas trivialidades existam factores mais profundos e cortantes, que criam rupturas e cisões onde de outro modo existiria um saudável amor completo de rotinas. Só não me encaixa como é que umas coisas levaram às outras, e agora, por causa de banalidades, tenhamos chegado aqui.

É o que mais falta me faz, as rotinas de estar contigo como sempre estivemos, nestes passados três anos. Por esta hora estava a preparar-me para ir a tua casa, invariavelmente atrasado, e também esta rotina era reconfortante, saber que o meu atraso tinha-te a ti, no fim. Agora tenho todo o tempo do mundo, e não, não estou atrasado para nada, mas também só me restam as idiotices da televisão, observadas a partir da minha cama, ou este computador, esta cadeira que me arrebenta as costas e não diminui em nada a dor de não estar no sofá enroscado em ti. Este cigarro e esta janela debruçada sobre o mundo que passa debaixo de mim.

Queria ligar-te, mas não posso. Liguei demasiadas vezes, fui ao teu encontro demasiadas vezes, e preciso de saber que também és capaz de engolir o orgulho, abdicar de um pouco para estar comigo. Quero que queiras estar ao meu lado, sem a certeza de que vou ao teu encontro onde quer que estejas, seja como for que a nossa relação esteja. Porque vou, e isso é uma certeza tão certa como a de que te amo, como nunca amei ninguém. Sabe Deus que estou disposto a toda e qualquer humilhação para te ter nos meus braços. Só não posso é viver sem saber se és capaz do mesmo.

Já me conheces, adivinhaste decerto que entre o amor e eu há uma relação de extremos. Sou louco o suficiente para largar tudo o que tenho e tudo o que sou, em teu nome, mas sensato o suficiente para não querer menos de ti. Desde que te vi sentada na cadeira da aula de inglês, desde que me apaixonei sem qualquer esperança de um sentimento correspondente da tua parte, desde que desisti de ti. Desde que te dei o primeiro beijo no meio da confusão, do fumo e do barulho do Triplex, e em cada segundo de todos os minutos de todas as horas de todos os dias destes últimos três anos, que sinto em mim algo que me avassala e me altera por completo cá dentro, pelo que não posso ser egoísta a ponto de não exigir sentimento menor dentro de ti. Seria injusto, estás a ver, não podemos construir um amor assente apenas numa pessoa, e eu não posso suportar toda a carga disto, não posso ser o único com vontade de largar tudo e correr para ti, como já fiz tantas vezes. Temos que nos esforçar ambos.

Mas também te conheço bem, e sei que não vais fazer isto. Pelo que talvez seguirmos caminhos diferentes, como me disseste, seja a melhor coisa a fazer. Se não queres deixar o teu caminho nem por um instante, para me acompanhares no meu - acompanhares-me apenas, sem palpites ou direcções, só confiança de que sei para onde vamos - que posso mais eu dizer ou fazer senão deixar-me estar parado, a ver-te partir? Que mais?

Só queria que não custasse tanto, e que não pairasse esta certeza de que foste o meu último amor, aquele que passamos a vida inteira a recordar, a lamentar que tenha nascido, e que tenha morrido. Queria ser um gato que brinca no escuro e não pensa em amores ou caminhos separados, queria que não houvessem mais certezas. De nada e de coisa alguma.

Imagem: Jim Zuckerman

domingo, fevereiro 11, 2007

Inside The Fire



“Como não percebo patavina disto, pensei "what the hell”, e se eu tentasse?". E tentei.”
Quarta-feira, Maio 24, 2006


Diz-nos a Patrícia, no seu blog, que é uma “mulher sonhadora (até à ingenuidade), que cresceu cedo demais”, e é bem verdade que os seus escritos deixam transparecer um certo encanto primordial de menina que descobre o mundo em cada olhar, mas também uma sensatez e força que só algumas mulheres parecem ter, e que se vislumbra não raro nas suas opiniões e nos comentários pessoais que deixam adivinhar, aqui e ali, pedaços da sua vida, e do seu universo.

A Patrícia tem os cabelos cor de fogo na fotografia que recebe os visitantes do blog, e não me refiro àquele fogo loiro que arde rápido e consome em segundos, mas sim ao fogo vermelho de combustão lenta, ondulante e sensual, que vai queimando devagar em torrentes de calor. E há um não sei quê de misterioso no rosto em perfil de uma mulher – bonita, por sinal – emoldurado em ondas de vermelho escuro, pousado num ramo, na enigmática contemplação de algo que se encontra fora do enquadramento da fotografia. É uma imagem de várias leituras, com diversos entendimentos, e que espelha de uma forma particularmente visual aquilo que podemos encontrar nos seus textos: intimidade incompleta.


“Sorrio e rio. Imenso. Com a mesma força com que solto lágrimas de fogo. Emoções ao rubro, sempre. E vale a pena.”
Terça-feira, Junho 27, 2006


É o que mais me agrada na Patrícia: é capaz de se expor de uma forma tão provocadoramente ingénua ao passante comum, e de revelar tanto do que lhe atravessa a alma, mas com o sempiterno cuidado de nos fazer perceber – sem palavras – que nada do que vemos e lemos se pode traduzir numa imagem definida e enquadrada. Como a fotografia que nos acolhe, há sempre algo que faz parte da imagem, mas está fora do alcance da objectiva. Num mundo em que cada vez mais as pessoas se fecham sobre si, isoladas em pequenos cubículos de intimidade ensaiada, a Patrícia vem quebrar as barreiras do self-containment e agracia-nos com pequenas fotografias incompletas da alma, retratos de retalhos da personalidade que não revelam mais do que o que as palavras encerram, mas permitem teorizar e imaginar o que desponta para além do teclado.


“Dou por mim a pensar que as pessoas já só teorizam sobre o Amor, já só o pensam em abstracto. Objectivamente, vêem-no em filmes, lêem-no em poemas, ouvem-no em músicas. Ainda o conseguem sentir? Algum dia conseguiram?”
Domingo, Maio 28, 2006


Não me recordo exactamente o que me trouxe ao seu blog, mas sei que foi numa daquelas noites em que decidi fazer zapping pelo universo bloguístico, pouco tempo depois de ter criado o meu próprio blog. Houve algo nos posts que me chamou a atenção, e desde essa altura que encontro sempre qualquer coisa nova naquilo que lhe leio, e vou construindo a imagem que tenho dela, embora nunca chegue verdadeiramente a saber para onde olha, que é o mesmo que dizer que há muito que fica por descobrir.

Já percebi, no entanto, que há muito em comum entre nós: seja pelas opiniões que partilhamos, pelo romantismo de que padecemos, pela paixão e compaixão pelos animais que defendemos, pelo gosto que temos em ler-nos, ou pelas curiosas coincidências que vamos descobrindo ao redor.


“Na minha vida, tudo parece acontecer com a celeridade e o impacto de uma rajada de vento. Aprendi a viver assim, a receber tudo o que surge com a ingenuidade da tábula rasa.”
Segunda-feira, Junho 19, 2006


E se coincidências não existem, como ambos parecemos acreditar, o que dizer do facto de os nossos blogs terem nascido no mesmo dia, separados por cerca de 12 horas, perfeitamente delineando a fronteira entre a luz e a escuridão que nos separa? Eu mantenho-me no fundo negro e mando mensagens criptografadas ao mundo, sob a forma de textos com pretensões literárias, e a Patrícia revela-se no fogo que incandesce, e abre o espírito em palavras que decifram o puzzle feminino da sua pessoa mas não deixam ver para além de onde a luz termina, e começa a noite.

É daí que nasce esta empatia que sinto por ela: como se, de alguma forma, duas pessoas que nunca se encontraram se possam conhecer através dos estranhos acasos que o destino vai desenhando, para cada um de nós. E não precisando de ver a Patrícia, ou de falar com ela cara a cara, sinto que está ali alguém que me compreende, ou poderia compreender. Alguém que me lê, e sabe exactamente o que está a ler, mesmo que essa compreensão nasça a partir do que ela sonha entender das minhas palavras, da mesma forma como eu adivinho o ponto para onde ela olha, com o queixo apoiado no ramo, de todas as vezes que a visito.

É para ela que olha (mulher menina que sonha com ingenuidade). E para nós.

Visitem-na.


“Mas aqui não cabe uma vida.”
Terça-feira, Outubro 24, 2006

Imagem: Hugo Logg


terça-feira, janeiro 30, 2007

Leituras X


Demented Angel by Annette Fournet


“Tom deixou cair o saco das compras no regaço da mulher roliça. Clay nem reparara que o amigo pegara nele. A seguir tirou a Bíblia a Alice, pegou numa das mãos enfeitadas de anéis da mulher e enfiou-a nela com um gesto brusco. Começou a afastar-se, mas voltou para trás.

- Tom, já chega – insistiu Clay.

Tom não deu mostras de o ter ouvido. Inclinou-se para a mulher sentada no chão, e apoiou as mãos nos joelhos; aos olhos de Clay, a gordinha de óculos a olhar para cima e o homenzinho de óculos dobrado para a frente pareciam figuras de uma paródia às primeiras ilustrações dos romances de Charles Dickens.

- Um conselho, irmã – disse Tom. – A polícia já não vos protegerá como fez quando a senhora e as suas amigas hipócritas e beatas se manifestaram contra os centros de planeamento familiar ou a Clínica Emily Cathcart em Waltham…

- Aquela fábrica de abortos! – retorquiu-lhe ela, com desprezo, erguendo depois a Bíblia como para suster um golpe.

Tom não lhe bateu, no entanto sorria ameaçadoramente.

- Nada sei acerca da Taça da Insanidade, mas olhe que esta noite andam aí muitos malucos. Quer que eu seja claro? Os leões fugiram das jaulas e a senhora ainda pode vir a descobrir que eles primeiro comem os cristãos desbocados. O seu direito de expressão foi cancelado às três da tarde. Fica avisada. – Olhou de Alice para Clay, e este reparou que o lábio superior lhe tremia ao de leve. – Vamos?

- Vamos – concordou Clay.

- Caramba – exclamou Alice ao retomarem o caminho do desvio para a Salem Street, deixando os «Grandes Descontos nas Bebidas de Mister Big» para trás. – Foi criado com alguma destas pessoas?

- A minha mãe e ambas as irmãs – respondeu Tom. – Igreja do Meu Deus Redentor. Tomaram Jesus como seu salvador e a Igreja tomou-as como suas idiotas.

- Onde está a sua mãe? – quis saber Clay.

Tom olhou-o de relance.

- No céu. A não ser que também a tenham enganado nessa. O que eu acho que os estupores fizeram de certeza.”

Stephen King, Cell A Chamada da Morte, Bertrand Editora, 2006, páginas 74 e 75

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O Acordo



Estive lá no outro dia, sabes? Depois da bifurcação ao lado da casa que pertenceu ao agricultor que viveu a vida inteira com um pé na aldeia e o outro no mundo, mas morreu só,

e agora é a casa que morre só, vazia e empoeirada

passando o castanheiro centenário, retorcido, e descendo o caminho de terra batida, aquele que revela, por entre as árvores, o telhado roto do velho moinho abandonado, quando começamos a ouvir o murmurejar da cachoeira acima do zumbido dos insectos, e o roçagar do vento que sacode os ramos nas copas das árvores.

Depois, ao fundo, salta-se o muro rasteiro que em tempos foi fronteira de território proibido, e atravessa-se o descampado, com cuidado para não enterrarmos os pés nas covas das toupeiras, lembras-te? Ainda lá estão as covas, e a mesma cautela a caminhar, para não se torcer o pé. E passamos pela sebe natural de silvas, tão alta e arrogante como dantes, onde arranhei um dia os braços e rasguei a camisa que depois beijaste, como se os teus beijos fossem remendos e conseguissem sarar as cicatrizes do pano.

Ainda lá está o salgueiro choramingas, como lhe chamavas, porque os ramos compridos a penderem sobre o rio te pareciam fios de lágrimas suspensos no ar e no tempo. Ainda te recordas do tronco triste, marcado por sulcos e rugas de gente velha, inclinado para a água, os ramos esticados como braços? O mesmo tronco onde cravei as nossas siglas com a minha navalha de descascar maçãs,

p + s = Amor

que coisa tão pirosa me havia de dar para fazer, mas tu sorriste perante o vandalismo, e eu confiei no teu sorriso porque sempre me bateste aos pontos a matemática, e não fizeste reparos à equação impossível que tinha acabado de eternizar, à custa de lascas espetadas nos dedos. Demorei tanto tempo a escrever o nosso amor simples, e tu sorriste por uns segundos, era tudo o que me bastava, então.

O rio ainda corre devagar, tão devagar que parece feito de águas paradas, e ainda vivem os alfaiates à sombra do salgueiro chorão, a cortarem a superfície sem descanso, tão impossíveis de apanhar como dantes. E eu sentei-me na pedra grande e chorei como o salgueiro, porque também as nossas vidas correram, correram, correram, mas a minha parece nunca ter saído deste sítio, da sombra destes ramos que caem sem nunca alcançarem o rio, da memória dos teus seios expostos às minhas mãos esganadas, das tardes feitas de gemidos e suspiros, os corpos a cheirarem a verde de tanto rolarem pelo chão.

Quando jurámos que nos haveríamos de amar enquanto o salgueiro pranteasse sobre o espelho da corrente, nem nos passou pela cabeça a tolice do que dizíamos, tão tontos como os nomes rasgados na casca da árvore. Tu prometias-me os teus seios e eu acreditava, tal era a febre que sentia a varar-me o corpo, e eu anunciava que era teu, a começar pelas mãos desbravadoras, a acabar no cabelo despenteado e coberto de folhas, todo nu e todo teu, para sempre, debaixo do salgueiro chorão.

Muitos anos depois, muitos corpos suados em camas desfeitas depois, lembrei-me de ti e julguei ter faltado à promessa que te fiz, sem roupa, sem mentiras. Agora que me sento aqui, nesta pedra, e apoio o corpo numa árvore que já nos esqueceu,

mas ainda lá está a equação

e ouço mais uma vez a azáfama das libelinhas e das cigarras, enquanto as lágrimas secam e a dor foge para dentro do peito, outra vez, acho que não, afinal não, cada vez me convenço mais que as promessas feitas quando somos novos e nos refastelamos nus, por entre as ervas, são as que contam.

Ouço um restolhar atrás de mim e viro-me, em sobressalto, quase acredito que és tu, a cumprir o acordo que fizemos há tanto tempo, afinal vens consumar a tua parte do contrato. Mas não, é apenas o vento que sacode as folhas e levanta grãos de poeira no ar. Sou como o agricultor andarilho que morreu a olhar para as cinzas da lareira apagada: tenho um pé no mundo e outro debaixo do salgueiro que chora, chora, ao pé de ti.

Se calhar ainda não nos esqueceu.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Ramadão (por Neil Gaiman) ~ Post Script


There were paths through the palace that none but Haroun Al Raschid knew; and this was because those who had drawn up the plans, and those who had built the paths, had all long since gone to their final reward: for it is seldom healthy to know the secrets of a king.”

A história “Cerements”, publicada no número 55 da revista Sandman e editada posteriormente na colectânea “Worlds End” fala-nos de uma cidade apropriadamente chamada Necropolis, onde todos os seus habitantes se dedicam à arte do enterro dos mortos, conhecendo e estudando incontáveis formas de realizar este acto tão profundamente simbólico e catársico.

Esta história é contada por um dos alunos da escola mortuária (à falta de melhor termo), que é obrigado a prestar assistência num enterro aéreo* onde, como parte da cerimónia, os participantes devem comer e contar histórias. Uma das histórias, contada por um dos assistentes, relata o seu encontro com um estranho viajante que lhe contou a história da fundação da cidade, sobre as cinzas da Necrópolis que existia anteriormente e que foi destruída graças ao desleixo e soberba dos seus habitantes.

Outra história, contada pelo mestre da execução do enterro aéreo*, relata a sua própria vivência de aprendiz, com a mestra madame Veltis, que um dia lhe contou a história de como ficou com a mão direita paralisada – rígida e roxa – depois de perder-se mas catacumbas da cidade, quando ela própria era uma aprendiz.

Atente-se ao imbricado preciosismo com que Gaiman constrói esta narrativa: uma história contada por uma mulher, que por sua vez é um personagem numa história contada por um homem, que é também um personagem na história contada por um jovem aprendiz, sendo igualmente um personagem na história que Neil Gaiman nos está a contar. Fabuloso. Esta abordagem em camadas, tipo “cebola” ou “matrioska” é uma técnica recorrente no estilo deste autor que se assume, mais que tudo, como um contador de histórias.

Em “Ramadão” podemos encontrar esta técnica de histórias dentro da história, principalmente na passagem do mercado, quando os personagens passeiam descontraidamente e são abordados pelos mercadores, cada um deles com histórias para contar. E, naturalmente, na própria narrativa como um todo: quando lemos a passagem inicial (“In the name of Allah, the compassionate, the all-merciful, I tell my tale. For there is no God but Allah, and Mohammed is his Profet”) percebemos que o que se vai passar a seguir está a ser contado por alguém, na senda das tradições antigas, mas assumimos que a frase inicial é apenas uma forma rebuscada do próprio autor nos apresentar ao relato de Haroun Al-Raschid, califa de Bagdad. Só no fim percebemos que na verdade é uma história contada por um mendigo a uma criança, na Bagdad dos dias actuais.

Ramadão” foi publicado por alturas da primeira guerra do golfo, e tornou-se o número com mais sucesso da série, como já mencionei. Lendo a história no seu formato original (e não na pobre versão que apresentei), é fácil perceber porquê: para além de lidar com temas de fantasia misturados com personagens e locais reais, Neil Gaiman mergulha fundo no universo mágico das mil e uma noites, e confere a toda a narrativa o ritmo próprio de um sonho, ao mesmo tempo que nos fornece uma explicação plausível (sendo que plausibilidade é aqui apresentada de uma forma bastante relativa) para o declínio de Bagdad; na verdade, é maravilhoso acreditar que esta Bagdad que vemos agora, tão terrivelmente massacrada pelo ódio e ganância dos seres humanos, é apenas um resquício sujo da verdadeira Bagdad, resplandecente e idílica, que vive nos sonhos, e vai durar eternamente.

Foi difícil trazer este sonho de Neil Gaiman para o formato de texto corrido, e receio bem que o meu trabalho fique muito aquém do esperado, se comparado com o original. Mas procurei ao máximo manter-me fiel ao estilo do autor, e posso dizer que foi um trabalho de amor e respeito. Espero que as ilustrações que fui colocando agucem o apetite para a leitura da obra original, mesmo porque a compilação “Fables and Reflections” é toda ela constituída por estas pequenas histórias, sem nenhum fio narrativo superior, e pode servir como excelente elemento de apresentação ao universo do Sandman. E garanto que depois de lerem tudo, não vão descansar enquanto não adquirirem os restantes volumes.

Como prometido, aqui está o texto completo de "Ramadão", em formato PDF, para quem quiser ler de uma assentada (ou não, sempre são 26 páginas), com imagens e um tratamento gráfico mais elaborado:

Ramadão (por Neil Gaiman) em alta resolução (5 mb)

Ramadão (por Neil Gaiman) em baixa resolução (1,5 mb)

Julgo que clicando em qualquer dos links abrir-se-á o documento directamente na janela do browser, pelo que se quiserem guardá-lo no computador, o ideal será clicar com o botão direito no link pretendido, e escolher a opção "Guardar destino como..."). O ficheiro de alta resolução tem imagens com melhor qualidade, pelo que será preferível para opções de impressão.

Nota: Se quiserem imprimir o texto, recomendo que o façam a partir da página 3, até à página 25. É que as páginas 1 e 26 têm o fundo preto, e são passíveis de gastar todo o tinteiro da cor equivalente. Pelo menos sempre se poupa tinta.

A partir de agora encerra-se o capítulo “O porquê das coisas”, e passarei aos textos de produção própria, com as indispensáveis passagens favoritas dos livros que ando a ler actualmente a servirem de intervalo retemperador. Tenho sentido muita falta da escrita ultimamente, mas também tenho chegado tão cansado a casa que nem forças consigo reunir para me sentar no computador. Mas prometo continuar a publicar, com a mesma irregularidade de sempre.

Boa noite, e bons sonhos

PS – *Existem cinco métodos aprovados de disposição dos corpos: 1 - Enterro terreno ou internamento (variantes: encaixotado, enfaixado ou nú; embalsamado ou similar; deitado, sentado ou de pé; campa, sepulcro, tumba ou mausoléu); 2 – Consumição pelo fogo (variantes: vestido, encaixotado, pira, barco ou navio; existem diferentes procedimentos a ser adoptados para a disposição das cinzas); 3 – Mumificação (variantes: salmoura, banhos minerais, desidratação, betumação, etc); 4 – Enterro aquático (variantes: alimento a animais aquáticos ou peixes; disposição em rio sagrado ou mar, encaixotado, ensacado com pedras, desmembramento); 5 - Enterro aéreo (variantes: desmembramento e similar; ingestão por aves necrófagas; disposição completa ou parcial).