sexta-feira, junho 30, 2006

Leituras V

"Pode abordar o acto de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou mesmo desespero - com a sensação de que nunca poderá transpor para a página o que lhe vai na cabeça e no coração. Pode aproximar-se dele com os punhos fechados e os olhos semicerrados, pronto a partir tudo e a registar os nomes. Pode aproximar-se dele porque quer que uma rapariga se case consigo ou porque quer mudar o mundo. Aborde-o de qualquer maneira excepto irreflectidamente. Permita-me que o diga outra vez: não se aproxime irreflectidamente da página em branco.

Não lhe estou a pedir que o faça de maneira reverente ou incondicional; não lhe estou a pedir que seja politicamente correcto ou que ponha de lado o sentido de humor (Deus queira que o tenha). Não se trata de um concurso de popularidade nem das Olimpíadas da moral, e não é a igreja. Mas trata-se do acto de escrever, gaita, e não de lavar o carro ou de pintar os olhos. Se consegue levá-lo a sério, podemos conversar. Se não for capaz ou não estiver disposto, é altura de fechar o livro e de fazer qualquer outra coisa.

Lavar o carro, talvez."

Stephen King, Escrever, Temas e Debates Editora, Lisboa, 2001, página 96.

quarta-feira, junho 28, 2006

O porquê das coisas: Rosto

Sandman, ilustração de Gene Colan (cores invertidas)

“Beyond, outside my Dreamworld there is infinite dust, infinite dark. And the Dreamworld is infinite although it is bounded on every side. The way to the center is a slow spiral. One passes the houses of mystery and secrets... old way stations on the frontiers of nightmare. From there one charts a course nightward until one reaches the Gates of Horn and Ivory. I carved them myself, when the world was younger, and order was needed. I hasten to the Gates.

The dreams that pass through the gates of Ivory are lies, figments and deceptions. The other admits the truth. No one guards the horned gate anymore. I remember the way of old. Once through it I can see my castle. Through it I will be able to see... my home...”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes - Imperfect Hosts

O Sandman sempre fez parte do folclore, desde tempos imemoriais, presente em inúmeros contos infantis contados de forma a iludir as crianças para irem para a cama. Tradicionalmente, o Sandman espalha um pouco de areia nos olhos das crianças, para que estas adormeçam e tenham sonhos felizes; as remelas que todos temos, pela manhã, são os resquícios dessa areia mágica que abriu as portas do sonho.

É uma ideia bela. Demasiado bela para não ser aproveitada, e realmente foi. Tanto em livros, como em bandas desenhadas, sempre existiram histórias do Sandman. Na Detective Comics, o Sandman era um herói de ideais ingénuos próprios da década de 40, que combatia o crime com uma arma de gás que adormecia os malfeitores; em 1970 o personagem foi alvo de uma revitalização, mais adequada aos tempos de então, e passou a ser um super herói de fato justo amarelo e vermelho, que protegia as crianças quando estas se aventuravam nos reinos do pesadelo.


Em 1988, um jovem autor de nome Neil Gaiman, que até à data havia apenas escrito duas novelas gráficas (nome popularmente dado a histórias independentes em banda desenhada que se afastam dos cânones normais de publicação, e que primam por uma maior qualidade gráfica), propôs à DC Comics a publicação de uma revista mensal, com o Sandman como personagem principal. A ideia foi aceite, mas ninguém sabia bem o que iria sair dali.

O “Sandman” teve uma publicação mensal ininterrupta de 75 revistas, desde 1988 a 1996, e pelo caminho tornou-se um verdadeiro fenómeno de massas, tendo revolucionado por completo o género. Até à data, as revistas de banda desenhada eram consideradas como entretenimento superficial para crianças e adolescentes, estreladas por heróis de corpo quadrado em fatos de spandex, e heroínas de seios voluptuosos e curvas perfeitas, em trajes minúsculos.

“ROSE: Say, whoever you are. Do you know what Freud said about dreams of flying? It means you're really dreaming about having sex.

MORPHEUS: Indeed? Tell me, then, what does it mean when you dream about having sex?”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. II The Dolls House - Into The Night

O “Sandman” destacou-se justamente por ser uma das poucas revistas que existia totalmente fora desse universo, e apresentou uma série de histórias destinadas a um público maduro, abordando assuntos adultos e controversos, prenhe de uma qualidade de escrita considerada literária, e assumindo com justiça um lugar de destaque no pódio das grandes obras literárias do século XX. Os prémios que recebeu durante a sua publicação foram demasiados para serem enumerados, mas há pelo menos um que posso indicar, e que demonstra cabalmente a qualidade da obra: A história “A Midsummer’s Night Dream”, onde William Shakespeare apresenta a peça com o mesmo nome, pela primeira vez, ao Sandman e a uma delegação das Fadas, ganhou o prémio World Fantasy Award, em 1991, para Best Short Fiction, e o ultraje foi tamanho que no ano seguinte as regras do concurso foram alteradas, para que nunca mais uma história em banda desenhada pudesse concorrer contra histórias em prosa.

O personagem principal é o Sandman, ou Dream, senhor do reino dos sonhos (Lord of The Dreaming), que não mais é do que uma personificação antropomórfica imortal dos sonhos. A sua família é composta de mais seis personagens, chamados “The Endless”, e cada um deles assume também uma representação de algum aspecto da realidade (Delirium, Despair, Destruction, Desire, Destiny e Death), e é conhecido por vários nomes (Morpheus, Oneiros, Lord Shaper, Dream).

“Never a possession, always the possessor, with skin as pale as smoke, and eyes tawny and sharp as yellow wine: Desire is everything you have ever wanted. Whoever you are. Whatever you are.

Everything.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IV Season of Mists – Episode 0

Não é uma personagem simpática, a princípio, este Sandman. No primeiro volume de histórias (Preludes & Nocturnes), é aprisionado, e forçado a passar 70 anos dentro de uma bolha de vidro, enquanto no mundo grassa a “Doença do Sono”. Quando se liberta, há algo que mudou em si, apesar dele não se aperceber, e é nas histórias seguintes que vamos ver o que o Sandman era antes do seu cativeiro, e no que se tornou depois. Eventualmente, essa série de mudanças levará a um fim trágico, mas isso é outra história.

Entrei em contacto com estas revistas no longínquo ano de 1989, era eu um adolescente borbulhento, no Brasil. Foi o meu grande amigo, Renato, que não vejo desde 1991 (mas que ainda é um grande amigo), que me emprestou os primeiros volumes, que eu devorei como uma debulhadora a funcionar a todo o vapor, em seara de trigo. “Isto é diferente”, lembro-me de dizer a mim próprio. Infelizmente (e felizmente, por uma série de outros motivos) depois voltei para Portugal, e nunca mais tive acesso às suas histórias, até ao belo ano de 1998, numa visita à Livraria Inglesa, no Porto. Comprei os 12 volumes originais, que reuniam a compilação de todas as revistas, e fiquei fã. Quando comecei a explorar estes mundos virtuais, de salas de chat e conversas com desconhecidos, foi o nick que adoptei, porque me identifico com a ideia geral por detrás das histórias, com a poesia submersa nas palavras de Neil Gaiman, e porque sou um sonhador inconformado, desperto ocasionalmente.

“DESTRUCTION: I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend. I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments.

Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust.

But I can pretend.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. VII Brief Lives – Chapter 8

Foram as histórias do Sandman que despertaram em mim o desejo de começar a escrever as minhas próprias histórias: como pequenas teclas que emitem sonoras vibrações, houve partes de mim que vibraram com insistência, enquanto lia (e leio), e me fizeram pensar “Isto é muito bom, e eu quero tentar fazer algo assim. Mesmo que não consiga, como provavelmente não conseguirei. Mas quero tentar”. O “Sandman” nunca foi algo destinado a ter o sucesso que teve, e deveria realmente ter sido uma pequena série de histórias obscuras, destinadas a afundarem-se no nevoento esquecimento.

Neil Gaiman apenas sabia que era aquilo que queria escrever, independentemente de quaisquer estudos de mercado ou estratégias de marketing ou literaturas destinadas a atingir a máxima rentabilidade financeira. Ele queria escrever aquelas histórias, de um mundo trágico rodeado de personagens de contos de fada, mitológicos, fantasiosos, que reflectia exactamente o mundo interior em que todos vivemos, fora das quatro paredes que construímos para nos protegermos. E escreveu.

Consigo identificar-me plenamente com esse sentimento: não estou aqui para tentar ser rico a escrever spin offs de romances históricos de fundo religioso, ou amontoados lamechas de palavras comercialmente românticas que apelam ao piegas que há em todos nós. Posso escrever isso se quiser, e talvez o faça, eventualmente, mas agora não; sei que tenho uma escrita por vezes maçuda, e que talvez a maioria das minhas histórias não despertem grande apelo comercial, posto que não têm muita acção, nem bombas e murros portentosos; são mais revoluções interiores. Mas é isso que quero fazer, e realmente é pelo prazer que o faço, mesmo sendo um tanto ou quanto realista, e sonhando inocentemente um dia conseguir tornar-me algo parecido com um escritor a tempo inteiro. Na verdade, nem é pelo dinheiro, é só porque detesto acordar cedo. :) E isso, camaradas, é sermos nós mesmos.

“AMELIA: A woman shouldn't have to sleep her life away. Women aren't about dreaming. We're about the real world. Even your grandma woke before she died. Women are about waking, Rose.

As mothers we wake them from nothingness to existence. As maidens we wake them to the joys and miseries of adulthood, wake them to the worlds of lust and responsibility. And when their time's up, it's always us has to wash them for the last time, and we lay them out for the wake.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Six

Curiosamente, também foi o “Sandman” o responsável pela entrada maciça de leitoras femininas no universo da banda desenhada, mundo até há algum tempo exclusivo dos homens; é a força com que os personagens são retratados, a realidade com que vemos as mulheres daquele mundo, no que dizem, pensam, e fazem. O modo como interagem entre si, ainda que nas situações potencialmente absurdas em que por vezes se vêem enredados (as).

As histórias permitem que nos percamos e passemos alguns minutos bem passados, mas também servem como fonte de reflexão, e podem inclusive engrenar novas perspectivas de ver o mundo. Ou, pelo menos, uma sonhadora e poética maneira realista de ver o mundo em que vivemos.

“MORPHEUS: It has always been the prerogative of children and half-wits to point out that the emperor has no clothes. But the half-wit remains a half-wit, and the emperor remains an emperor.”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Eight

Foi com alguma perplexidade que alguém um dia observou que os leitores do “Sandman” transcendem um pouco o que é normal no meio, na medida em que desenvolvem uma vontade latente de ser algo mais do que um mero espectador: querem também ser os encenadores dos seus próprios sonhos (na arte de contar histórias). Não fico surpreendido, pois sou um perfeito exemplo disso, e considerando que foi deste desejo que nasceu este blog, nada mais apropriado do que beber directamente da fonte, e criar algo que reflicta um pouco esse espírito: sonhar e contar, contar e sonhar. Sonhar, e fazer sonhar.

“CHORONZON: I am a dire world, prey-stalking, lethal prowler.

MORPHEUS: I am a hunter, horse-mounted, wolf-stabbing.

CHORONZON: I am a horsefly, horse-stinging, hunter-throwing.

MORPHEUS: I am a spider, fly-consuming, eight legged.

CHORONZON: I am a snake, spider-devouring, posion-toothed.

MORPHEUS: I am an ox, snake-crushing, heavy footed.

CHORONZON: I am an anthrax, butcher, bacterium, warm-life destroying.

MORPHEUS: I am a world, space-floating, life nurturing.

CHORONZON: I am a nova, all-exploding... planet-cremating.

MORPHEUS: I am the Universe -- all things encompassing, all life embracing.

CHORONZON: I am Anti-Life, the Beast of Judgement. I am the dark at the end of everything. The end of universes, gods, worlds... of everything. Sss. And what will you be then, Dreamlord?

MORPHEUS: I am hope.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes – A Hope In Hell

Boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, junho 26, 2006

O porquê das coisas: Voz


Após inúmeros e insistentes pedidos (na verdade foi só um, e bastante polido) por parte de uma gentil leitora, vou explicar os motivos por detrás deste blog. Não serão os motivos pelos quais escrevo e criei o blog, uma vez que estes já foram extensivamente respondidos, mas antes um esclarecimento sobre o nome que este modesto escriba adoptou (acto que por si só revela uma ignominiosa soberba), e outras curiosidades que tais.

Primeiro, a voz do Sandman. "Passengers" é o título de uma das suas histórias, e que contém a minha citação favorita de toda a série (que podem ler parcialmente logo abaixo do título do blog). Convém no entanto dizer que o Sandman é o equivalente do nosso "João Pestana", personagem que borrifa os olhos dos humanos com areia, para que estes adormeçam e sonhem. Nos livros de Neil Gaiman, o Sandman é Morpheus, o Senhor dos Sonhos, e utiliza os sonhos das pessoas, para viajar pelo mundo, sendo que a citação completa refere justamente uma destas viagens (em que ele busca a cidade de Mayhew, à procura de uma jóia - big story - don't ask - read the book):
"I am a passenger. I am moving through your dreams. I am riding in your dreams.
I ride on dragonback from Manhattan, the dragon is made of rivetted iron and smells of cotton candy. I travel briefly by bus: in the back the dreamer copulates desperately, not noticing his autonomous passenger. I sit at the front and talk to the driver.
Approaching the state of Delaware, the dreamer is a small dog, dreaming impatiently of a past life, long forgotten when he sailed tall ships across uncharted. The salt spray of the ocean stings my face.
I am moving through dreams, pulling toward Mayhew, feeling for the jewel. Through your dreams, my sleeping children, you had a passenger, and you never knew."
Há qualquer coisa nesta citação que me arrepia... a pura poesia interior, a forma como as imagens se casam perfeitamente com as palavras (neste caso no livro, em B.D.), e como as palavras aguentam bem sem as imagens. A ideia de deslocação, passagem de um ponto/estado/local/sentimento para outro é algo que ressoa forte em mim, porque pode ser (como muitas outras coisas, mas esta particularmente) uma poética metáfora para a vivência.
Haverá algo que defina tão bem a miséria e glória humanas como a esplanação do percurso de uma vida, assente nos risos e lágrimas que vamos coleccionando pelo caminho?
Eis portanto que nasce o texto "Passengers", e muito posteriormente a ideia do blog, sujeito a uma multiplicidade de temas, e com uma série de constrições e libertações, mas, principalmente, dedicado aos sonhos, e não apenas aqueles que vivemos nas horas mortas da noite.
Todos os sonhos, até aqueles que já esquecemos.
Continuamos amanhã. Boa noite, e bons sonhos.

quinta-feira, junho 22, 2006

Teaser (escrituras inacabadas)

"De madrugada, o beijo caiu na cidade.

Posteriormente, aventaram-se todas as possibilidades lógicas e mirabolantes para o sucedido, mas a verdade é que toda a história, em si, foi bastante estranha, e não menos estranha terá sido a forma como terminou.

No início, porque toda a estranheza começa com a altercação populista da normalidade, o som do falatório atravessou ruas, de janela em janela, porta para porta, espalhou-se pelo ar como ondas rádio de alta frequência, em clima de perplexidade geral, e aterrou nas páginas dos jornais locais, primeiro em notícias de tom jocoso, depois em editoriais irados de ignorância, por fim em crónicas onde o medo palmava o pulso às palavras. Levantou voo novamente – desta vez em verdadeiras ondas rádio –, pelo éter, notícias de hora a hora intercaladas por anúncios singelos a estabelecimentos regionais, a galgar montes e planícies, mais rapidamente que o azoado dos pássaros, até ganhar dimensão tridimensional com notícias de fecho dos telejornais nacionais, entre nascimentos de ursos no jardim zoológico e festas em instituições de caridade, inevitavelmente transmitidas por pivots de sorriso ao canto da boca.

Na cidade, levantaram-se as mais alteradas e dissonantes vozes, para explicar o sucedido: uns, amnésicos do seu próprio tempo, iraram-se contra o que consideraram ser uma – mais uma – leviandade da juventude, outros revoltaram-se contra as autoridades municipais pela alteração patrimonial, que julgaram ter sido feita à revelia da população. As beatas levaram as mãos ao céu pintado no tecto da igreja românica, onde querubins de aspecto rosado e bem tratado pairavam por detrás da pintura a escamar, e clamaram às hostes terrenas e celestiais o seu ultraje pela orgíaca destruição da virtude.
Indubitavelmente, os lunáticos das conspirações associaram o inusitado fenómeno às recentes aparições de luzes de origem desconhecida, nos campos mais afastados da muralha que circundava a cidade, e os fanáticos da regionalização invectivaram as massas à revolta, apregoando ser este mais um exemplo do poder arbitrário do governo centralista, que considera as cidades do interior tão pouco ou menos importantes, que nem são tidas nem achadas no que concerne à colocação, escolha, e alteração dos monumentos, vulgo mobiliário urbano."
Sandman, O Beijo, Porto, 2006, ainda inacabado, e a precisar de umas (valentes) polidelas, antes de ver a noite deste blog, mas de qualquer forma hoje estou cansado, e apetecia-me mesmo escrever qualquer coisa, mas a cama seduz-me com encantos que a escrita não tem, pelo que não quis ir sonhar antes de vos deixar este teaser, na vã esperança que se ofereçam para me depositar uns trocados na conta bancária, de maneira a que eu não precise de trabalhar durante o dia, e possa dedicar toda a minha atenção ao raio do conto, e terminá-lo, por fim. :-) (Não, isto não foi um pedido despudorado, foi uma piada. Está bem, não teve graça, sue me.

terça-feira, junho 20, 2006

I see your face before me


Afaga-me. Passa-me as mãos pelo rosto, descobre os meus altos e baixos, quero ter-te no escuro, cegos ambos, a ver-me através dos teus dedos. Não acendas a luz, não é preciso, amor, nunca precisei de te ver com clareza para saber de cor o desenho do teu corpo, e sempre encontrei o meu tesouro nos teus segredos, sempre soube como eras, de que formas és feita. Não acendas a luz. Afaga-me com ternura, devagar, sabes que este amor só o podes viver em slow motion, e ao contrário dos teus dias, quero que as noites sejam feitas de vagar, quero que me descubras até me saberes de cor, de olhos fechados.

Lembras-te das Pontes de Madison County? Nunca entendeste que aquela história é a nossa história, que a dança ao som da música do Johnny Hartman é a nossa dança, e que vivemos todos os dias sem saber o que esperar, sem saber que partimos para regiões desconhecidas. Acalenta-me, diz-me que toda a nossa vida vai ser um romance impossível como o dos filmes, e que te vou perder tantas vezes como te vou reaver, porque não acredito em amores seguros, tenho que saber o que é estar sem ti, e deixar que a dor me acaricie o peito, para melhor te saborear na noite seguinte.

Toco-te com dedos interrogativos, na cegueira do negrume, e vejo a tua face, e sei que és o meu único sonho, não há nada mais do que a tua face nos meus dedos, e nada mais do que o meu sonho nesta cama. Estamos os dois no meio dos lençóis suados, e só consigo ouvir a tua respiração entrecortada, se fosse surdo nem saberia que estás aqui, parece que sonho, que estou sozinho a lutar para não acordar, a imaginar uma pessoa que não existe. Já sonhei tantas vezes contigo, nem imaginas o que é isso, ter-te ao meu lado e ser surdo e cego, não te ouvir a respirar, agora que já aqui estás, deixa-me voltar a ser só, para ler o teu rosto no toque dos dedos, e acordar do sonho de solidão.

Não acendas a luz, e não me perguntes nada. O dia já tem demasiados porquês, quero que a noite seja uma pergunta sem resposta, um desconhecimento dos sentimentos, a incógnita do carinho. Entra-me como eu entro em ti, penetra-me com o medo do explorador incauto, como eu adentro o teu intimo húmido, sem mapa, não digas nada e não acendas a luz, toca-me e olha-me nos olhos cegos, afaga-me.

Fecha os olhos, afaga-me.

A Bomba

Tive a honra de ser mencionado de forma elogiosa pelo bombista Flávio, no seu espaço, pelo que venho aqui retribuir a cortesia, pois que o homem merece.

Um blog "sobre filmes, livros e todas as outras coisas" pode não parecer nada de especial à primeira vista, mas acreditem, este é mesmo uma BOMBA, assim mesmo, em negrito e maiúsculas, a adivinhar a detonação. É um espaço de opiniões lúcidas, bem fundamentadas, longe de hermetismos analíticos que impregnam tantas críticas que lemos, actualmente. Não paguem para ler opiniões destas, não gastem trocos suados na "Premiére", ignorem as secções cinéfilas e literárias dos jornais e revistas, está aqui tudo o que queriam ouvir. E é grátis.
Lembrem-se: é explosivo, mas é de qualidade, e grátis. Tudo o que queriam ouvir, em detonações controladas.

segunda-feira, junho 19, 2006

Leituras IV

"(...) Vidal trazia num bolso o carimbo de borracha com o número de registo que legalizava a organização sindical e um atado de fichas de filiação em branco. Noutro bolso guardava um recorte tirado de Ecrán, uma revista de cinema.

- Sabe quem é? - perguntou-me, mostrando-me a formosa e enigmática mulher.

- Greta Garbo - respondi eu.

- Ela protege-me. Sou ateu, mas é sempre bom ter alguém a quem a gente se encomende - garantiu Vidal."

Luis Sepúlveda, As rosas de Atacama, Porto, Edições Asa, 2001, página 72.

sábado, junho 17, 2006

O futebol não é tudo


Foi nos momentos imediatamente a seguir à derrota de Portugal com a Grécia. Tinha prometido que nunca mais, jurei mesmo, ao deus cristão, aos restantes do panteão celestial, nunca mais vou deixar que estas coisas me afectem desta maneira, não pode ser, o futebol não é tudo na vida de um homem, nem sequer é 10% daquilo que constitui o ror de coisas importantes. Logo eu, que nunca liguei assim tanto a estas coisas, como vejo outros fazerem, logo eu que sorrio quando o Sporting ganha, e encolho os ombros quando perde. O futebol não é tudo. Não é mais que um filho, um beijo, um sorriso, uma amizade, um amor.

Depois arrastei-me sorumbaticamente para o canto mais escuro que encontrei, e, sozinho, pesado, mandei embora o “monstro” para os recessos do subconsciente, enterrei-o sobre camadas de preocupações e existências. O futebol não é tudo, lembra-te das guerras e da fome no mundo, deixa lá isso.

Mas não aprendo. Nunca aprendo. Vejo hoje o jogo contra o Irão, e porra, logo contra um país que quis recuar no tempo, que ameaça toda a gente, maltrata as mulheres, e restantes cidadãos em geral. Logo um país que no passado foi o expoente no que dizia respeito às artes, à orgulhosa história, e agora parece um daqueles brutos no recreio da escola, de pau na mão, a querer bater em todos. E a mim, só me apetece dizer que somos países irmãos, quero sentar-me numa esplanada com um iraniano e conversar longamente sobre como o jogo foi bom, eu com a minha cerveja e ele com o que quiser beber. Quero encontrar uma iraniana à saída do estádio, e trocar a minha bandeira pelo “chador”, erguer bem alto o que é a liberdade, seja em mãos levantada, seja sobre a fronte pousada.

Dá-me para estas coisas, o futebol. Vivo no oposto do ódio ao adversário, existo num mundo redondo que não é o mesmo daqueles que destilam a raiva nos caprichos da bola. Tantos toques elegantes, movimentos coordenados, sinto-me esmagado perante as fintas de génio, os remates mortíferos, as defesas que deveriam ter sido golos, foscas só podia ter sido golo, mas não foram. São bailados as coreografias que se fazem, valha-me Deus que não percebo nada disto, e sofro como nunca sofri, nem me atrevo a chorar, não consigo rir, atravesso os 90 minutos agarrado às mãos, pequeno como os mais pequenos, a enlouquecer porque o jogo ainda não acabou.

Nunca aprendo. Queria ser como os intelectuais que vituperam contra o fanatismo do gosto pelo futebol, e nem percebem que também são fanáticos, do prazer do não-futebol. O máximo que consigo é desenvolver uma serenidade distraída, o alheamento disfarçado, enquanto a febre não entra em ebulição. Depois sento-me, a observar os preparativos, a festa das bancadas, e peço uma cerveja, companhia inseparável dos minutos que não passam. E digo a mim mesmo que, se perdermos este jogo, nunca mais. Garanto-vos que nunca mais, é a última vez.

E agora, algo completamente diferente

Títulos possíveis do 24 Horas de 16 de Junho de 2006:

1.
DEVES TER COMPRADO ACÇÕES DO JORNAL PARA APARECERES TANTAS VEZES
ou
DEVES NAMORAR COM UM JORNALISTA PARA ESTARES SEMPRE NA CAPA

em vez de:

"TRIBUNAL TIROU CASA E CARROS AO EX-FUNCIONÁRIO DE HERMAN"
Página 1 - Desconhecido

2.
POIS. CHANTAGEM NO JORNAL NÃO CONTA POIS NÃO?

em vez de:

"MERCHE GOSTAVA QUE RONALDO LHE DEDICASSE UM GOLO
Merche Romero admite que gostava que Cristiano Ronaldo lhe dedicasse um golo, mas garante que nunca lhe pediu. «Tinha que ser ele [a decidir], não peço nada a ninguém(...)»"

Página 3 - João Mira Godinho

3.
JÁ ESTAMOS A ENCOMENDAR AS FAIXAS DE CAMPEÕES
ou
AINDA BEM QUE OS OUTROS SÃO DE OUTRAS RELIGIÕES
ou
SE NOSSA SENHORA NÃO FOSSE PORTUGUESA NÃO NOS SAFÁVAMOS

em vez de:

"Madaíl foi a Fátima rezar por um bom mundial
«PEDI AJUDA A NOSSA SENHORA»"
Página 3 - Desconhecido

4.
NADA DE NOVO NO FRONT

em vez de:

"A DESAGRADÁVEL SURPRESA DO JULGAMENTO NO TRIBUNAL SUPERIOR"
Página 15 - Dr. Barros Figueiredo

5.
COM ELA, EU QUERIA MAIS 10

em vez de:

"ANGELINA JOLIE E PITT QUEREM MAIS UM FILHO"
Página 37 - Desconhecido

6.
TÃO NOVINHOS E JÁ ESTÃO NA OPOSIÇÃO

em vez de:

"BEBÉS PATRIOTAS NÃO QUERIAM NASCER EM ESPANHA
Os três bebés que desde a tarde de quarta-feira estão para nascer no Hospital Materno-Infantil de Badajoz não estão pelos ajustes e até parece que recusam a vir ao mundo em Espanha.(...)"
Página 45 - Luis Maneta

7.
MAS NÃO FALAM DA VIDA PRIVADA. É UM ASSUNTO PESSOAL NÃO REMUNERADO, SABES?

em vez de:

"JUNTOS NO AMOR E NA PUBLICIDADE
Patrícia Candoso e João Catarré (...) para dar credibilidade a um banco, vão aparecer na TV a dar um grande beijo.(...)"

Página 49 - Susete Henriques

8.
O QUE EU AQUI ESCREVIA SE ESTE NÃO FOSSE UM BLOG DECENTE

em vez de:

"ESTOU TODA MOÍDA
«(...) Vocês não imaginam o que isto é», confidenciou ontem Sílvia Alberto, de forma fugaz, ao 24horas, entre os passos do Tango que está a ensaiar(...)"
Página 50 - Andreia Valente

9.
E EU NOS BLOGS A PASSAR FOME

em vez de:

"FÁTIMA LOPES VIRA ESCRITORA
«Amar depois de Amar-te» é o título do primeiro livro de Fátima Lopes(...)"
Página 52 - Belas & Perigosas Cláudia Borges, Emily Brown, Orsi Fehér (será? pfffff)

A taça vai para:

10.
APONTAR O ÓBVIO É TÃO ORIGINAL
ou
NÃO PARECE, MAS TAMBÉM TEMOS CÉREBROS
ou
O TALENTO SALTA SEMPRE UMA GERAÇÃO

"Gostamos todos tanto de animais! Eles sem dúvida que são os nossos melhores amigos, não têm é o poder de falar..."
Página 54 - Gémeas Sara e Tristana Esteves Cardoso (filhas de Miguel Esteves Cardoso)

sexta-feira, junho 16, 2006

O Blog

O Blog é um monstro. Com fome. Um kraken de dentes cariados – como livros aguçados, empilhados nas estantes –, e boca escancarada, a salivar sobre o pressionar das teclas, a cobiçar sopas de letras, a degustar, por antecipação, descrições e metáforas ainda não escritas.

O Blog não tem paciência para actividades paralelas. Não se compadece com momentos de lazer, menospreza saídas à noite, rosna perante temporadas longe do teclado, é um chicote permanentemente erguido, em tom de ameaça e urgência, sobre a cabeça do autor. O Blog não quer saber dos programas que passam na televisão, dos livros que se acumulam na mesinha de cabeceira, dos filmes que se prostituem por bilhetes, das músicas que arranham a alma, das peças de teatro que definham no deserto de ideias, das pessoas interessantes nos bares, dos locais atmosféricos nas pessoas interessantes. O Blog gargalha quando confrontado com argumentos de pesquisa de material fresco, e enquanto ri, tem uma das mãos, coberta de bolhas purulentas, a acariciar o chicote pendente em ritmo masturbatório.

O Blog é o bloqueio de escritor ao contrário. É o desespero por torrentes de palavras. É os olhos que vemos acesos na escuridão, por entre as árvores, o decalque dos medos que arrepiam os sonhos da infância, as garras que aguardam pacientemente debaixo da cama
(dentro dos armários),
as línguas viscosas das algas que nos lambem debaixo de água, os leprosos beijos de bactérias invisíveis. O Blog é o kalkito do terror de não ter nada a dizer.

O Blog despreza toda e qualquer vida pessoal, só existe para ele mesmo, apenas se preocupa com o alimento que consome, e com a periodicidade com que é saciado. É um perseguidor incansável/implacável, sempre a relembrar o acossado dos posts que ainda deve – da dívida acumulada com juros agiotas –, que nunca poderá saldar as contas. Nunca, ronca o Blog, enquanto o autor se passeia longe do monitor, nunca pagarás, mas alimenta-me, não se acaba o teu trabalho, estou com fome, volta para o teclado, alimenta-me. Alimenta-me. Alimenta-me. Alimenta-me.

Ainda mal o post foi publicado e já a aventesma o mordeu, mastigou, trucidou, saboreou, trucidamastigaesmagaesfarelacorróidevorou. O autor carrega no botão de “publicar”, e já o animal está a bater na mesa, sôfrego, o estômago a borbulhar de ácidos biliosos, a reclamar mais, mais posts, mais palavras, mais ideias, mais reflexões, mais fome.

Mais fome. Com as palmas das mãos suadas e escorregadias. O Blog é um monstro faminto. Com a pele esverdeada da ressaca viciada. Esfaimado. Com os lábios molhados de baba. Esganado. Com o olhar febril diante da próxima dose. Raivoso. Como um espelho que reflecte um rosto de olhos inchados e pele curtida, pela manhã. Emboscado. Como dentes impacientes perante a panela fumegante.

Quero mais.

quinta-feira, junho 15, 2006

A Valsa do Adeus

Existe um livro, que eu nunca li, e nem sequer conheço de relance a história, mas que ficou na memória por causa de um simples conjunto de palavras que formavam o título - palavras impressionantemente belas e simples - que nunca mais esqueci: A Valsa do Adeus. Milan Kundera sempre se destacou por livros belos apresentados com títulos belos, e este não poderia ser excepção.

Apesar de, como já disse, não saber do que trata o livro, tenho uma ideia muito própria sobre o que poderá ser a Valsa do Adeus, e é também uma ideia poética e bela, como o título. Para mim, a Valsa do Adeus é aquele ultimo momento em que nos despedimos de alguém, ou de algo, um momento que tanto pode ser instantâneo como prolongado, onde é executado e sentido de forma consciente ou inconsciente, o derradeiro Adeus. Pode ser uma troca de olhares entre duas pessoas, uma dentro de um comboio em andamento e a outra na estação, pode ser o ultimo abraço antes da partida, pode até ser um prolongado olhar carregado de tristeza e saudade pousado em um avião que levanta voo. Ou uma ultima dança, quem sabe uma valsa, em um quarto anónimo de um hotel anónimo, ao som de uma melodia antiga trauteada com amor por alguém que está abraçado a quem ama.

A Valsa do Adeus pode ser qualquer coisa, mas o que a torna tão marcante é o significado que encerra em si mesma: o de Despedida, permanente ou temporária, sempre dilacerante e plena de mágoa e dor. Não é a situação em si que a define, mas o modo como esta é sentida pelos seus intervenientes, e todo o sentimento que acarreta no seu âmago.

Neste mundo tão frio e duro, tão cheio de essência de realidade impiedosa, não existem muitas coisas de que verdadeiramente possamos nos despedir com uma Valsa do Adeus. Claro que passamos o tempo numa perpétua insatisfação, numa eterna procura de algo que possa preencher as nossas vidas, que permita uma construção sólida e estável, assente em bons pilares, daquilo que queremos para nós mesmos, e a maior parte das vezes encontramos essa satisfação em coisas pequenas, de somenos importância, mas que mesmo assim são tudo a que nos podemos agarrar.

E logicamente nos convencemos que temos tudo o que queremos, ou pelo menos aquilo que queremos mais, sem nos apercebermos que o que na verdade fazemos é procurar e procurar, sem parar, porque aquilo que possuímos nos satisfaz agora, mas não irá nos satisfazer depois do agora. E é fácil dizermos adeus a certas coisas que temos, porque o espaço que elas ocuparam está a ser preenchido por outras quase iguais, sem sequer nos darmos conta de quão fútil e desprovida de sentido é esta constante busca insatisfeita daquilo que não temos.

Contudo, existem momentos chave na vida em que passamos pela estranha situação de encontrar algo, por fim, que de uma forma brutal, e talvez até egoísta, vem preencher muitos espaços antes ocupados por todas essas coisas fúteis, e até preencher espaços vazios que desconhecíamos ter dentro de nós. Se olhássemos com atenção, iríamos notar que o que temos agora realmente consegue nos dar de uma forma definitiva aquilo que há muito tempo buscávamos e esperávamos desesperançadamente. Que ao possuirmos aquilo, ganhamos perspectiva e visão, encontramos um caminho diferente repleto de alegrias e dores que vêm carregadas com o próprio material de que a vida é feita. Não uma vida fútil, pretensiosa, feita de satisfação inconstante, mas sim uma vida que não é desperdiçada com esforços para alcançar aquilo que não vale a pena alcançar, uma vida que sempre desconfiámos existir, mas que nunca nos permitimos sonhar viver a fundo, para não sofrer uma desilusão grande demais caso não existisse.

Bem... sonhar sempre sonhamos, mesmo que não o admitamos para nós mesmos. È no entanto um sonho ténue e difuso, presente em muito do que fazemos, mas quase sempre ignorado, como se não estivesse lá.

Lamentavelmente, por vezes estamos já tão acostumados a esse jogo hedonista de encontrar, satisfazer e procurar, que acabamos a agir da mesma maneira com isso que apareceu à nossa frente. Não é que procuremos algo de novo, mas é a atitude assumida perante aquilo que deveria ser o bastante – que na verdade É o bastante –, uma atitude de querer mais, sempre algo mais.

O que me leva a falar de atitude. Não sei se é assim que as coisas se passam com todas as pessoas, e possivelmente aquilo que digo é apenas o modo como encaro tudo, ou como penso encarar, e cada um de nós guarda dentro de si o seu próprio mundo e a sua própria visão, pessoal e intransmissível, desse mundo. Se cada ser humano alberga um mundo dentro de si, então também a visão que aplica sobre ele é exclusiva, e talvez seja isso a única coisa que podemos verdadeiramente chamar de nosso.

Dentro da minha própria visão, é assim que vejo a mim mesmo e aos outros: sombras que se movem entre sombras à procura de muitas coisas ao mesmo tempo, mas sempre com algo inescrutável ao fundo, como se houvesse uma cortina de névoa que nos impede de ver claramente, de fixar o olhar. Sabes o que é?

É a única coisa que realmente queremos, escondida tão profundamente que por vezes passamos por ela e não percebemos que está lá.

Toda a satisfação que obtemos de tudo o resto não passa de migalhas na mesa de um banquete que terminou, de pequenas doses de prazer que avidamente buscamos, a desejar que fosse o suficiente para sermos felizes, mas totalmente conscientes que o que temos não é nada.

Nada.

Nada.

Mais tarde ou mais cedo achamos algo que é Tudo. Pessoas sensatas acarinham o que têm e agem de forma a que daí possam nascer frutos mais duradouros. Pessoas insensatas agem como se não fosse o bastante ou suficientemente importante, e pensam que se podem dar ao luxo de desperdiçar aquilo que encontraram.

E pessoas que não são sensatas ou insensatas, ao se aperceberem do que acabaram de perder, ou estão em vias de perder, abrem os olhos para uma realidade até há pouco ignorada ostensivamente e tentam recuperar aquilo que está por um fio, conscientes por fim de que nada vem sem esforço, e de que por vezes uma mudança de perspectiva de vida se torna imperiosa. Porque passamos tanto tempo agarrados à nossa própria visão do mundo, como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira que flutua no mar bravio, uma visão que sabemos ser mesquinha e errada, mas que achamos tão difícil abandonar, até que essa visão condiciona de tal forma os nossos actos e palavras que acabamos por perder aquilo que sempre ansiamos ter.

É assim tão difícil largar por terra essa maneira de pensar e agir que sempre nos serviu? Não. Não é. Na realidade, é tão difícil quanto ao náufrago que agarra a tábua abrir os braços e deixar que as ondas tonitruantes o levem a bom ou mau porto. Basta nos libertarmos.

Mas nesse momento de simplicidade, quanta complicação por vezes vemos.

Tanta, tanta complicação…

É esta a minha Valsa do Adeus. Um amontoado de palavras ordenadas sobre uma folha branca que na realidade não existe, uma tentativa fraca de colocar sentimentos e sensações e ideias e confusões de uma forma compreensível, mais para mim do que para qualquer outra pessoa. É este o momento em que me despeço daquilo que não tenho, e em que renego aquilo que nunca vou parar de procurar – nunca nunca nunca – até encontrar, e que pensei ter. Agora.

Mas não tinha. Ainda não.

Estou de partida para oceanos mais calmos. Em jeito de despedida. Já icei as minhas velas, tenho a âncora pendurada no casco, e as ondas chamam-me com outras canções. Não procurámos ambos isto? Não foi algo que desejávamos? Paciência. A banda está a tocar, e a música vem carregada de despedida, de lenços brancos a acenar, de lágrimas que vão estar para sempre suspensas naquele sítio para onde as lágrimas vão, quando caem para dentro de nós.

É assim esta vida. Feita de pequenas melodias, e de valsas que calam fundo, e que querem dizer Adeus, e Obrigado. Por muito que doa ou tenha doído, teremos sempre novos mares para singrar, e portos seguros para acostar, quando as tempestades nos levantam no ar e brincam connosco, como se fossemos papagaios que crianças tentam domar em colinas ventosas.

Está a acabar a valsa para ti, amor. Ainda amor. E em breve lembrança, melancolia, nostalgia, sonho do que poderia ter sido e não foi. Antes da última nota ter sido tocada, vais ter que me deixar sair do aconchego dos teus braços, e não quero que me acompanhes à porta. Fica onde estás, observa-me a sair, e sopra-me um último beijo antes de eu desaparecer. Não foi assim tão mau como isso, afinal, e os momentos doces serão sempre momentos doces, mesmo que existam na memória, e não no dia a dia, como eu desejei em alturas mais felizes.

É esta a minha Valsa do Adeus. Cada um tem a sua de tempos a tempos, mas esta é só minha e tua.

Sempre.

terça-feira, junho 13, 2006

Leituras III

"(...)Beijei-lhe a mão como da primeira vez, mas então aconteceu algo que eu não esperava, ela manteve a minha mão agarrada e levou-a aos lábios. Nunca na minha vida uma mulher me tinha feito isto, senti-o como um choque na alma, um estremecimento do coração, e ainda agora, madrugada já, decorridas tantas horas, enquanto acabo de passar ao caderno os acontecimentos deste dia, olho a minha mão direita e encontro-a diferente, embora não seja capaz de dizer em que consiste a diferença, deve ser coisa de dentro, não de fora.(...)"

domingo, junho 11, 2006

Corações apagados

Tens o rosto da cidade, banhada pelo azul luarento, e vejo-te em todas as esquinas, onde o lixo se acumula como sarro nos vincos do corpo. Os teus dedos são os prédios espetados na vertical, a acusarem as estrelas, e tens os olhos em cada janela que brilha e tremula no horizonte assimétrico, tanta gente a acender e a apagar o que vive, afinal és tu que me piscas o olhar cheia de malícia.

A tua voz é o eco de cada escape ruidoso nas ruas desertas, cada ambulância que arranca gritos das paredes, cada vozear de seres humanos à distância, juro-te que não estão realmente ali, só as suas vozes chegam até nós. Pertencem a outros tempos, outras dimensões, são chamamentos de pessoas que viraram pó, e aguardam por nós. Nós pó.

As ondas do rio sujo, que banha as margens e rasga a cidade como cicatriz aberta, são as curvas do teu corpo, ondulantes e oleosas, quando te debruças para cima de mim, te espalhas sobre as minhas mãos, e me arrancas respirações, esfomeada. Quase diria que me queres privar do ar que me sustém. Matas-me aos poucos com tanta fome, tanto ardor nesses lábios, sinto-me repasto de quem não sabe o que é saciedade.

Encontro-te nas pedras do chão, nos tijolos pintados a grafitti, das paredes. Vejo-te só em cada rosto que passa debaixo dos candeeiros amarelos, e quando a escuridão tomar conta de tudo, ainda te vou reconhecer nas ruínas do que sobrar, nos prédios de alvenaria partida, vidros estilhaçados, passadeiras gastas, sinais caídos, fios tombados, semáforos desligados, árvores mortas, jardins secos, esgotos entupidos, outdoors vandalizados, posters desbotados, montras empoeiradas, muros escancarados, e em todos os

...

corações apagados.

Haiku incompleto

O que escrevo?

Lê-me, e depois

diz-me tu.

*

sábado, junho 10, 2006

Adamastores Literários



Hoje tive a oportunidade de conhecer Sérgio Lorré, autor de “A Cruz de Génio”, num almoço de espetadas, num restaurante da Zona Industrial do Porto (não vou fazer publicidade à casa porque a achei demasiado fria e impessoal, em contraste com o sorriso quente da menina que nos atendeu, e porque não me recordo do nome do raio do restaurante, só sei que fica perto da Garrafeira do Tio Pepe).

Foi um encontro interessante, porque estou actualmente a preparar uma série de textos para colocar em livro - muitos deles (ou todos) serão publicados aqui, antes do abate das árvores para a impressão -, e tinha uma série de questões sobre o que é este mundo dos autores publicados, mas ninguém para me poder fornecer as respostas. Por outro lado, também nunca conheci um autor, alguém que conseguiu transpor essa difícil barreira de ter os seus escritos em livrarias, disponíveis com uma capa bonitinha, o preço na contra capa, e a comissão no bolso. E só por isso valeu a pena.

Já tinha uma ideia das dificuldades que os novos autores sentem, em Portugal (e possivelmente em todo o mundo), para conseguir entrar no mercado. No livro “Escrever” de Stephen King, este fala de como ultrapassou obstáculos à primeira vista intransponíveis, e de como a pilha de cartas de recusa se foi avolumando, no seu escritório, até chegar ao ponto em que começou mesmo a duvidar do seu talento e capacidades, e a acreditar que nunca seria publicado. Até que, num golpe de sorte e perseverança (onde a sua mulher desempenhou um importante papel), conseguiu a publicação de “Carrie”, e… bem, o resto é história, agora tem mais dinheiro que Cresus.

Calculo que todos aqueles que tentam a sua sorte, quando mandam manuscritos para editoras, têm como principal objectivo ver, em primeiro lugar, os seus escritos sob a forma de livro. A cheirar a cola e papel novo, que fantástica visão; pelo menos é esse o meu desejo, não sonho com vendas astronómicas, edições sucessivas, traduções para línguas estrangeiras, prémios literários, adaptações para cinema, e contas bancárias recheadas. Por enquanto.

Depois vem o concretizar dos restantes sonhos (ver parágrafo acima), e prometo que vou continuar a escrever, quando estiver no meu iate, em Marbella. Mas isso é depois.

Antes de tudo, quero ser publicado, ou pelo menos tentar, e resolver esta cisma que é não saber se realmente tenho algum talento de jeito para escrever, se consigo captar a imaginação das pessoas, de forma a que estas estejam dispostas a pagar para me ler; e que depois emprestem os meus livros, ofereçam (é tão bonito o acto de oferecer um livro – é como dar um mundo a alguém) àqueles que amam, leiam várias vezes e a cada nova leitura descubram coisas novas. Quero o pacote completo, mas primeiro quero saber se vale a pena, porque tenho uma consciência ecológica, e não gostaria de ver umas quantas árvores derrubadas apenas para satisfazer os meus desejos egoístas e egocêntricos de ver o meu nome estampado numa capa em papel couché brilhante.

Passo muito tempo em livrarias, sempre que posso, e vejo tanto lixo actualmente a ser publicado, que até arrepia. E é vendável, algo que me assusta ainda mais. Têm exposição estes autores desajeitados que só conseguem ganhar algum dinheiro porque os seus nomes são conhecidos de outras áreas, porque aparecem na televisão, na rádio, eu sei lá. Entram para os tops com uma rapidez proporcional ao investimento de marketing feito pelas editoras, e desaparecem nas estantes das casas com igual velocidade, à medida que são lidos (uma vez, apenas), e percepcionados pelo que são: autores medíocres, independentemente do talento que tenham para as suas outras ocupações, que tentaram e conseguiram sacar mais uns trocados de um povo que vive para o imediatismo e para as modas do momento.

Postarei sobre este assunto mais tarde, porque é pertinente. O que quero falar, antes de me perder em intermináveis monólogos, é de como gostei de ter conhecido Sérgio Lorré, e como fiquei agradado com o facto de este me ter elucidado sobre algumas realidades.

Segundo este, existe actualmente um boom de novos escritores (entenda-se como pessoas que querem publicar as suas primeiras obras), possivelmente fruto da explosão de blogs um pouco por todo o lado – é natural que as pessoas queiram transpor esta barreira, depois da publicação virtual, e do reconhecimento publico –, e as grandes editoras deste país recebem um numero impressionante de manuscritos para avaliação. No exemplo concreto que referiu, a editora mantém uma sala nos seus escritórios, onde se acumulam pilhas e mais pilhas de manuscritos a aguardar uma primeira leitura – na diagonal, para tentar captar alguns sinais que indiquem vendabilidade, e mais profunda, caso a história desperte o interesse – com um espaço igualmente impressionante, onde estão afixadas as terríveis palavras – para um anónimo autor não publicado, pelo menos – “Para devolver”. Brrr.

Depois temos as tais “modas do momento”. Actualmente, parece que 90% daquilo que sai das editoras são fotocópias do “Código Da Vinci”, ou sucedâneos. Eu até gostei do livro (falarei sobre isso mais tarde também), mas poupem-me os neurónios, pelo amor de Deus: o décimo livro onde são revelados todos os mistérios do Código Da Vinci? Sátiras humorísticas ao Código Da Vinci? Um livro de perguntas quiz sobre o Código Da Vinci? O Código D’Avintes? O Roteiro do Código Da Vinci? A revelação dos segredos do próximo livro de Dan Brown? Porra. Se ainda não foi escrito, como é que ele sabe já os segredos? É o secretário pessoal do autor, ou conseguiu acesso ao seu computador?

(suspiro)

Em suma, até podemos ser os melhores escritores do mundo, mas haveremos que cumprir certos propósitos e objectivos, que ultrapassam as meras questões técnicas e de talento, e se inserem mais numa lógica de mercado, sujeita a fases, a gostos da audiência, e a comerciabilidade. Não podemos ser ingénuos, naturalmente, a escrita é e sempre vai ser um negócio, mas não é apenas, e apenas um negócio, e não pode ser encarada unicamente como tal.

Se conseguirmos a publicação, temos que passar por outros calvários, nomeadamente a exposição do livro, e o tempo/dinheiro que as editoras estão dispostas a empregar, para vender. Todas as grandes editoras têm, hoje em dia, 4 ou 5 autores de topo, que são os que a suportam. O resto é palha. Serve apenas porque os tais 4, 5 autores não podem lançar um livro novo todos os meses, porque as editoras necessitam de publicar material novo com frequência, e porque – who knows – talvez descubram o novo Dan Brown, ou a nova J. K. Rowling, e lhes saia o jackpot. Claro que, subjacente a estes argumentos, também deverá existir a vontade cultural de lançar coisas novas para o mercado, baseando-se em critérios de qualidade literárias, mesmo que não seja tão vendável. Acredito sinceramente nisto, pelo menos, e talvez esteja a ser ingénuo.

Se temos a sorte de ser escolhidos por uma grande editora, com força no mercado, podemos contar com alguma exposição, quanto mais não seja nas prateleiras da Fnac ou Bertrand, que são espaços comprados exactamente da mesma forma como nos supermercados. Neste caso, teremos eventualmente a sorte de ver o nosso livro umas semanas, com a capa sugestivamente exposta aos passantes, antes de ser enterrado no cemitério dos outros livros órfãos de dono, em posição vertical e apenas com a lombada visível. Este processo pode durar uma semana, se for uma primeira obra.

Se formos publicados por uma editora pequena e obscura, que naturalmente dá mais hipóteses a novos autores, então mais vale prepararmo-nos para sermos igualmente obscuros, e desfrutarmos apenas do prazer de referir socialmente que “eu tenho um livro publicado, já leu?”, como sugestiva frase de engate. Gosto de pensar que se formos realmente bons, acabaremos por vingar, mas certamente que existem muitas obras-primas, de pequenas editoras, a acumular pó em livrarias. Pior será quando temos que comparticipar os custos da edição, o que também é uma prática comum.

Depois há a continuidade. O Sérgio Lorré tem a primeira edição tecnicamente esgotada, na medida em que se formos à Fnac, o livro existe, mas apenas em catálogo. Isso acontece porque o nome dele não é prioritário, quando chega a altura de reabastecer o stock, mesmo que os cinquenta exemplares que foram recebidos originalmente já tenham sido vendidos, e mais depressa que chicotes num festival sado-masoquista. Ele tentou aumentar as vendas através de uma promoção de oferta de um copo e uma garrafa de vinho, com o rótulo igual à capa, e recomendo que aproveitem e adquiram essa edição limitada, pois que se pode tornar num item valioso, se ele alcançar o astronómico sucesso.

Fui agraciado com uma cópia de “A Cruz de Génio” (com direito a esperançosa dedicatória personalizada), oferta que muito me sensibilizou, mas não a vou recomendar, apesar da simpatia do autor, uma vez que ainda não a li. Farei uma análise crítica à obra, posteriormente, e dessa forma aproveito para inaugurar uma nova série de posts dedicados à literatura e cinema.

Em breve, e com a máxima irregularidade possível, como sempre.

domingo, junho 04, 2006

Atoardas de amor

Hoje.

Estás debruçada na janela do restaurante, a ver o fogo de artifício. Atravessam os céus estrelas multicores, é um bailado de constelações, em cascata caótica pelo horizonte, e os rostos pasmados mudam de cor a cada deflagração. A acompanhar esta coreografia celestial feita por mãos humanas, ouvem-se atoardas assombrosas de petardos explosivos, que apertam os corações desprevenidos, fosse eu um ex-combatente das guerras cruéis e certamente me encolheria num fragor de medo, no temor aterrorizado daqueles que viram o céu rebentar fragmentos de morte sobre as suas cabeças.

Em vez disso, encosto-me calmamente para trás, e levo o copo aos lábios. Olho a pele nua dos teus ombros, marcada por sinais que não beijei tantas vezes quantas gostaria, e apetece-me dizer que te amo, que tudo vale a pena só porque existes. Mas mantenho-me calado, pois ainda há pouco te toquei as costas, desviei a tua atenção do espectáculo, e sussurrei-te torrentes de amor ao ouvido; não é socialmente apropriada a repetição da ternura, pensarias decerto que era o vinho a falar, nem te ias lembrar da bebedeira em que me trazes submerso, desde o primeiro dia.

Opto, portanto, por terminar de beber, pousar o copo com cuidado, e, antes de pasmar perante o fogo que estoura com o firmamento, soprar um “amo-te” mudo, para as tuas costas. Depois esqueço-me do que fiz, do que disse, e do que pensei.

Sei bem que ele vai encontrar o teu caminho.

sexta-feira, junho 02, 2006

As regras da boa vizinhança

O meu quarto dá directamente para a varanda das traseiras do prédio, coberta em estilo de marquise, onde fica a máquina de lavar e o estendal. Durante o dia, os prédios em volta fervilham de actividade, e posso apreciar os vizinhos, atarefados nas suas ocupações familiares. No terceiro andar em frente vive um casal de idade, e a única ocupação da senhora, ao que parece, é estender a roupa, pois que todos os dias é um ir e vir de vestuário, pendura, despendura, deixa a secar, e retira para passar a ferro. Não sei se realmente passa a ferro, talvez entregue as camisas ao marido todas amarrotadas, quando se zangam. Mas nunca ouvi ruídos de discussão, do lado de cá.

No segundo andar habita um casal com filhos, que se mudou recentemente, e costumo observar, disfarçadamente, quando a esposa prepara o jantar, e os filhos brincam no chão da cozinha, com carrinhos e bonecos-merchandising dos desenhos animados de hoje em dia, que tão pouco me dizem, e que acredito sinceramente nunca despertarão quaisquer sentimentos nostálgicos quando eles crescerem. Passados tantos anos, é com uma mistura de deslumbramento e carinho que recordo os desenhos animados dos meus tempos de infância, e como saía da escola a correr, para não perder sequer o genérico inicial (algo que se manteve: até hoje, quando vejo na televisão algo que gosto, tem que ser desde o principio, e sem desviar os olhos por um momento).

No primeiro andar vive um homem de certa idade, e uma rapariga nova, que nunca descortinei serem pai e filha, ou casados/namorados; o meu colega de quarto disse-me que por várias vezes ela veio para a varanda em roupa interior, com o homem em casa, mas nunca confirmei, e de qualquer forma agora já existe desinibição suficiente para um pai ver a filha em trajes menores, ou talvez não, sei lá, posso estar a ser demasiado liberal.

A mesa onde tenho este computador é demasiado baixa, ou talvez o problema seja a cadeira onde me sento para escrever, muito alta; se fico mais de uma hora aqui sentado, a prestar atenção ao teclado (e é engraçado, porque não consigo escrever a olhar para o monitor, e os meus textos não revistos são um oceano de erros), acabo sempre por ficar com dores nas costas. Ando sempre a dizer que vou substituir esta cadeira, mas nunca o faço, prefiro ficar sentado durante horas a fio, a evitar ao máximo escrever, ou a discorrer sobre tudo e nada, enquanto a dor se instala insidiosamente..

Neste momento o Lou Reed está a dizer-me como foi o seu dia perfeito, e aumento o som das colunas, porque é uma música que me agrada, e também já tive um ou dois dias assim. A grande vantagem de morar aqui é o facto do vizinho de baixo ser surdo que nem uma porta (estranha expressão, porque também são mudas, posto que não respondem, ou então como não ouvem, nada têm para dizer), o que me deixa à vontade para varar noites a escrever e ouvir música em altos berros; sempre gostei de ouvir alto as músicas que gosto, deve ser para entrarem melhor na alma.

Há inclusive uma história, que não presenciei pois ainda não habitava no prédio: um dia a esposa do senhor faleceu, e o meu ex-colega de quarto, que sempre teve tendência para ouvir musicas étnicas de raízes sul-americanas com as colunas no máximo, foi à porta quando ouviu alguém bater. Era o filho, a pedir para colocar o som mais baixo, porque os convidados do pai estavam escandalizados com o desrespeito à memória da senhora. Mas o viúvo não se queixou, e ainda no outro dia disse que éramos bons rapazes, não incomodávamos ninguém.

A senhora que vive no primeiro andar, com o esposo, sofre de uma inesgotável compaixão pelos animais, e gosta de deixar pratinhos com resto de comida, no passeio, para as famílias de gatos vadios que vivem na rua, e coabitam pacificamente connosco; são bons vizinhos, já que nunca ouvi miados nocturnos, nem sequer na época do cio, e garanto-vos que as gatas da vizinhança parecem ter um bordel 24 horas a funcionar, porque estão sempre inevitavelmente prenhas, pachorrentamente abandonadas em cima do capô dos carros estacionados, a aproveitarem o calor do motor, com os ventres inchados. Curiosamente, é raro ver gatinhos, talvez a senhora que alimenta os pais se encarregue de atirar os filhos ao rio, e dessa forma equilibre a balança das boas e más acções na sua vida.

Para além dos gatos, também tem o péssimo hábito de espalhar milho pela calçada, o que resulta numa caótica invasão de pombas, de modo que os carros estacionados estão sempre cobertos de merda, e, ocasionalmente, lá aparece um cadáver na estrada: os gatos não dormem. Há quem reclame, mas as vozes que se insurgem nunca são demasiado bruscas, pois que a senhora é idosa e tem no rosto aquela bonomia característica de quem viveu muito, e guarda caixas de histórias por contar. Eu, após aturadas reflexões, concluí que a alimentação das pombas serve dois propósitos: permite que os gatos agucem os seus felinos instintos de caçador, adormecidos por dias e dias de pratos no passeio, e noites de sexo desenfreado, e por outro lado incita os moradores a lavarem os carros com frequência.

O café da esquina tem como proprietário um senhor que já foi emigrante, e que gosta tanto da actividade que não é raro vê-lo, às quatro, cinco da manhã, ainda no estabelecimento – com as portas fechadas, que a polícia, à semelhança dos gatos, também não dorme – a servir e conversar com os clientes. São um grupo estranho, maioritariamente composto por homens, com especial predominância para reformados que ainda bebem o seu café com o cheirinho (ou, nos dias maus, atacam a rotina com o líquido directamente vertido da garrafa para o copo), e jovens que jogam hóquei no clube aqui perto, a curarem as mazelas dos toques de stick com doses industriais de cerveja.

É perene, o café, e sinto que todos aqueles rapazes, de cerveja nos beiços, voltarão mais tarde, depois de uma vida cheia de empurrões e encontros bruscos com sticks, golos e falhanços inacreditáveis, e desfiles triunfais perante multidões em delírio, para lerem o seu jornal, beberem o seu bagaço, e discutirem interminavelmente o assunto futebol-política, madrugada adentro.

Na esquina perpendicular ao café abriu há cerca de um ano uma pastelaria, onde antes existia uma mercearia tradicional. Um dos raros prazeres que tenho é abancar nas tardes de sábado, depois de ter sido expulso de casa pela senhora que faz a limpeza, e viver a vida dos dias calmos, a ler um livro e comer um lanche misto com um galão. Tornou-se ritual, e nem preciso de dizer o que quero, já posso pedir “o costume”, eles sabem. Se fosse tudo assim tão simples, não teríamos sobressaltos ou preocupações, mas também não teríamos evolução, porque é de atritos e indagações que fazemos o nosso crescimento.

Costumo pensar que seria agradável viver num bairro tradicional, daqueles com casas caiadas de branco, onde toda a gente tem as suas particularidades e excentricidades, e os dias vivem-se num quotidiano de comentários sobre o que cada um fez, faz, fará, mas acho que já não devem existir locais assim, fazem parte da memória, pertencem apenas ao imaginário colectivo. Esta rua é uma aproximação dessa ideia, encaixada entre estas vidas apressadas do século XXI, o stress do trânsito, os assaltos ocasionais, os bons dias que utilizamos para não ter que saber o nome dos vizinhos.

E não será verdade que nos afastamos daqueles que estão mais próximos, e buscamos a intimidade de desconhecidos? O meu ex-colega tinha sempre 3 janelas do MSN abertas, cada uma com mais de 100 contactos, e corria noites a conversar com os quatro cantos do mundo. Mas nunca soube o nome da senhora que morreu no andar de baixo, enquanto ele martelava o teclado com a urgência de partilhar, conhecer, eliminar a solidão.

Eu faço festas aos gatos que não fogem, e sou zeloso no sorriso que exibo para a vizinha do primeiro andar, mas nunca lhe perguntei porque motivo é que deita o milho sempre perto dos pratos com atum, se existirá alguma tendência de carnificina nas suas intenções.

O senhor do café foi operado recentemente, e esteve em baixo, durante uns tempos, pelo que o estabelecimento ficou a cargo da esposa, que nunca convidou as amigas para beberem bagaço ou cerveja até ao alto da noite. Quando o vi, depois da operação, pareceu-me mudado por dentro, como aquelas pessoas que clamam por conhecimento de algo transcendental após uma experiência de quase morte. Está sereno, agora, e gostava de saber se viu Deus, deitado naquela mesa de operações.

Gostava de ser convidado para jantar pelo casal que tem filhos, para saber a que sabe a comida que tanto tempo leva a ser preparada, e para contar aos miúdos histórias de desenhos animados carregados de ingenuidade, que ainda alimentam os meus sonhos de tempos despreocupados. E de dizer ao senhor do primeiro andar que a mulher/namorada/filha cumpre escrupulosamente todas as regras de boa vizinhança, quando se passeia em cuecas e soutien na varanda, nos dias quentes.

Vejo as pessoas no meu dia a dia, e invento histórias, intenções, passados e futuros, mas isso é a minha faceta de sonhador que me diz que nunca poderei saber ao certo quem são estas gentes que vivem ao meu redor, tendo que criar vidas alternativas, para fingir que os conheço melhor. Também não ouso aproximar-me, porque a mistificação acaba sempre destruída pela realidade, e desta forma vou registando o que sentem e existem, sem as inconveniências da desilusão.

As coisas nunca são o que parecem. Mas cada mundo que construímos dentro de nós, é tanto ou mais real do que o mundo que se espraia do lado de fora das nossas janelas. Ou como diria a/o personagem transsexual do “Tudo sobre a minha mãe”:

“Somos tanto ou mais reais aos nossos olhos, quanto mais nos parecemos com aquilo que sonhamos ser.”

Boa noite, e bons sonhos.