quarta-feira, maio 31, 2006

Leituras II

"Ugolino e seus filhos" de Alvin Ylaya, baseado na escultura de Jean- Baptiste Carpeaux.


"They used to call the devil the Father of Lies. But for someone whose sin is meant to be pride, you'd think that lying would leave something of a sour taste. Too easy. Too sleazy. Too much of a coward's tool.

So my theory is that when the devil wants to get something out of you, he doesn't lie at all. He tells you the exact, literal truth.

And he let's you find your own way to hell."

Mr. Easterman

Mike Carey, Lucifer - Children and Monsters, Vertigo DC Comics, 2001, Páginas 135/136.

terça-feira, maio 30, 2006

Adendum


Não é meu hábito explicar o que escrevo; gosto de pensar que a escrita funciona a um nível interior, pelo que mais do que limitar-me a criar uma série de eventos e causalidades para as minhas personagens, também desenvolvo uma ideia subjectiva, aquilo que me atravessa o espírito no momento do transe.

Dessa forma, tenho sempre a esperança que os mesmos mecanismos que pus em marcha quando carreguei nas teclas e dei coerência aos pensamentos, funcionem igualmente para o leitor. É a mesma velha tentativa de tocar alguma corda interior, de despertar qualquer coisa, e convidar à absorção e reflexão. Assim, toda a imagética que imprimo aos meus textos servem apenas o propósito de permitir que, quem quer que esteja a ler, possa adaptar à sua vivência e peculiaridade na visão do mundo, ou – roubando as palavras ao Poeta –, sinta quem lê.

No entanto, penso que devo alongar-me um pouco mais, e fazer uma espécie de introdução ao texto abaixo, não só porque emprestou o nome ao blog, mas também porque é um texto que me desperta algum carinho. E será altura de inaugurar posts mais pequenos, para não maçar ninguém, mesmo porque se me vou limitar a colocar textos quilométricos, muitos ainda não escritos, outros em fase de preparação, existirão hiatos enormes de tempo entre cada actualização.

O “Passengers” foi escrito como resposta a um desafio, a pedido da Lusce, no Fórum Amor & Companhia, do Generalidades. Ela solicitara-me que descrevesse os meus sonhos, que falasse sobre sonhos, porque a maior parte das minhas intervenções versavm inevitavelmente o acto de sonhar (uma realidade ainda presente). Ou não tivesse eu escolhido este nick.

O texto foi bem recebido no Amor & Companhia, e convidado para integrar as fileiras do Bibliotecl@, também no Generalidades, onde a aceitação foi igualmente positiva. De tudo o que escrevi, penso que foi aqui que consegui exprimir com alguma clareza o que estava a sentir no momento, tanto a nível consciente, como subconsciente, e julgo ter conseguido tocar algumas pessoas, em termos puramente cognitivos.

Estou a escrever um argumento de BD baseado neste texto, que estará pronto lá para o ano de 2020, se considerarmos a velocidade a que está a sair. E estou triste neste exacto momento, o que de certa forma também se coaduna com o tom geral das palavras do “Passengers”.

E pronto. É tudo.

segunda-feira, maio 29, 2006

Passengers


Sweet dreams are made of this
Who am I to disagree?
I travel the world and the seven seas
Everybody is looking for something





Cada pessoa é uma história, e cada história um sonho. Sento-me por vezes na janela e observo os transeuntes que passam, lá embaixo. Hoje está um céu cinzento carregado, prenúncio de chuva, e sopra um vento frio. Chegou o Outono, a época da melancolia e das castanhas vendidas na rua, e as pessoas caminham apressadas, curvadas e encolhidas, sem olhar para os lados. Por um momento imagino que ninguém que vejo sabe para onde vai, e depois penso que provavelmente é verdade. Ninguém sabe para onde vai, a não ser o próprio destino imediato. Pensam que sabem, mas andam tão desorientados e ao sabor da direcção das correntes como barcos de papel lançados ao mar.

Há uma avenida em Viseu que parece ter sido feita exclusivamente para o Outono. É larga, de passeios espaçosos, rodeada por árvores altas que cobrem tudo ao seu redor com um tapete de folhas castanhas. Sabe bem passear nessa avenida, com o casaco fechado, mãos nos bolsos, a apreciar quem passa, e espreitar as prostitutas gordas que resolveram abrir os centros de negócio ali. Ir à rotunda e seguir em frente, até casa, e tudo o resto que me espera depois.

Em 1756, Ludwig Schaefer, com 45 anos, inventa a máquina da felicidade, na cidade de Praga. O engenho, primitivo, baseia-se num complicado sistema de fios, juntas, roldanas, tubos de vidro, metal, e contrapesos movidos a vapor, que fazem circular uma mistura química especial em estado gasoso por canos moldados em círculo ao redor da máquina. O utilizador senta-se numa cadeira a uma das extremidades, e, à medida que o “fluido vital” começa a espalhar-se, respira o gás – resultado da combustão de uma mistela de variadas ervas, entre elas cannabis –, cuja fórmula se perdeu. Condensa-se uma nuvem vaporosa, de aspecto fantasmagórico, o utilizador é embalado pelo som monótono e reconfortante da maquinaria, e adormece em transe, sonha com mundos estranhos e magníficos, fantásticos, povoados de belas e dóceis criaturas. Sonha com amor e bem-estar, com tudo o que o deixa feliz.

Os planos iniciais de Ludwig seriam a comercialização do engenho, mas rapidamente fica tão viciado na felicidade mecânica proporcionada pelo derramar sinuoso do vapor, que começa a passar os dias envolto em nuvens intoxicantes repletas de visões de tudo o que a sua vida não é, negligenciando a família, amigos, vida social, refeições, sono. É encontrado por uma criada histérica em 1757, rígido e sentado na sua própria criação, envolto no nevoeiro dos fumos da felicidade. Está tão magro, devido à subnutrição, que uma pessoa de estatura média pode erguer o caixão sem esforço, e a sua pele apresenta uma coloração cinzenta, doentia.

Naquela noite, a criada, de nome Wilhemina, sonha que tinha recebido uma herança generosa e encontrado o amor perdido da sua juventude, e este a leva, numa carruagem de ouro conduzida por cavalos negros como a noite, a uma mansão nas margens de um lago que reflecte montanhas de cumes verdes. Acorda a chorar, já esquecida da carruagem, do seu amor, da casa no sopé da montanha.

Dado que ninguém sabe qual o propósito de tão inusitada máquina, esta é vendida juntamente com o espólio do inventor, em leilão público, e adquirida pelo dono de uma confecção de roupa, que a adapta para que funcione como tear mecânico.

Uma das roupas criadas na nova máquina – não mais da felicidade, mas sim do entrelaçar de fios coloridos em padrões de rara beleza – é regateada por um jovem escriturário, para a sua filha de nove anos. Trata-se de um casaco azul-bebé com desenhos intrincados de pequenos querubins de faces rosadas a pairarem entre flores psicadélicas. A pequenita – chama-se Natália e tem cabelos castanhos, em caracóis – gosta tanto do presente que adormece com ele no corpo, e nessa noite sonha que possui pequenas asas nas costas frágeis, e voa entre campos coloridos de flores que cantam uma canção, e lhe contam histórias belas, dolorosamente belas, com uma voz doce e sussurrante. Quando desperta, sem se lembrar do que tinha sonhado, traz uma sensação de vazio no peito que jamais a abandona, durante os 96 anos que vive.

Também eu sonho com lagos plácidos, muitas vezes pálidos sob o luar. Desconheço o simbolismo que carregam, embora calcule que a serenidade seja um elemento presente. Ou o desejo dela. Todos desejamos serenidade, mas não é curioso que nesta busca de serenidade – no amor, na vida, em quem amamos – provoquemos infinitas ondas e convulsões no tecido da existência? E quando a serenidade chega, deixamos nós de serenar, porque não fomos feitos para uma vida sem ondulação. Fomos feitos para a procurar, não para a viver.

Dizem que devemos adormecer com caneta e um caderno perto da cama, para podermos apontar os nossos sonhos antes que se esfumem na luz do dia. Que nos dá pistas para melhor nos conhecermos. Não me parece sensato. Não sei se quero recordar todas as vidas que vivo quando adormeço. Nem todas são agradáveis, mas são sonhos, e quem pode dizer o quão reais os sonhos são?

Em 1994 um homem que lê “Werther” na sala de estar é atraído para a janela pelo som estridente de pneus a chiar no exterior. Afasta as cortinas de um rosa pálido e vê um cão velho a ser atropelado na estrada mesmo em frente. O animal leva uma pancada forte nos quadris e rodopia como um pião, sem soltar um ganido sequer, até se imobilizar na berma da estrada. Tem as patas traseiras inutilizadas, e as tripas expostas, espalhadas no alcatrão como cordas banhadas em sangue.

Com crescente angústia, o homem vê o animal, claramente sem esperança de salvação, erguer o focinho salpicado de vermelho e, em gemidos carregados de dor, começar a arrastar-se em direcção à extremidade oposta da estrada, como se quisesse, antes de soltar o suspiro final, cumprir o seu último propósito na vida. Sem perceber que a pancada mortal o atirara justamente para onde tinha decidido ir, sem perceber que agora estava a voltar para o caminho já percorrido. É seguido de perto pelos intestinos vermelhos.

A travessia é penosa e prolongada, repleta de dores para ambos os intervenientes. Para o cão, dores físicas por carregar o fardo dos seus intestinos expostos, deixando um rasto rubro atrás de si. Para o homem que observa, a dor de compreender que tudo neste mundo é uma mentira, que não há salvação para ninguém, e que a estrada da existência está marcada por uma futilidade cósmica à qual ninguém escapa. Todos caminham sobre os passos que os levarão ao desespero final, com as tripas expostas e entre ganidos de dor.

Ao alcançar a berma de terra batida junto ao alcatrão, o cão levanta o focinho ofegante, como se desejasse avançar um pouco mais, e lentamente morre, com os olhos vidrados e a língua pendente. O homem sai de casa com uma pá e enterra-o no próprio local onde o animal tombou, deixando, como único testemunho da sua existência, um pequeno monte de terra, anormal no terreno liso. Chora compulsivamente enquanto executa a tarefa, e depois de terminar, contempla por breves instantes aquele pequeno alto no terreno, volta para casa, acaba de ler “Werther”, e suicida-se com uma caçadeira apontada ao queixo. O seu cérebro fica espalhado pelas cortinas rosa pálido, e ninguém chora a sua morte.

Dois anos depois a junta de estradas decide alargar o percurso, e coloca mais uma faixa de rodagem, em cada sentido. O monte que assinala a morte do cão teimoso desaparece para sempre, e nunca ninguém saberá que ele viveu e morreu.

Ninguém.

As pessoas passam e desaparecem nas esquinas, ignorantes ou indiferentes ao meu olhar. Deixo de acreditar que não sabem para onde vão, e ponho-me a criar vidas, a oferecer-lhes existências. A mulher bonita que passa, por exemplo, vai ter com o amante, mas não sabe que ele está neste exacto momento com a cabeça entre as pernas de outra mulher. Quando abrir a porta do quarto e observar a cena, vai ficar especada uns segundos, o rosto sem expressão, e depois recuar, silenciosamente, e fechar a porta sem que eles se apercebam que ela lá esteve. Naquela noite abre uma garrafa de vinho tinto, senta-se no sofá a ouvir “Wonderfull World”, e enquanto bebe pensa porque raios não consegue soltar uma única lágrima, apesar do peso imenso que traz no peito. No dia seguinte encontra-se com o amante e está feliz e sorridente, age como se nada se tivesse passado, mas traz uma tesoura na bolsa.

Aquele pequeno homem, de sobretudo, caminha em direcção ao melhor negócio da sua vida, e enquanto trauteia uma melodia baixinho imagina a noite que vai passar no casino, cheio de moedas e esperança e empregadas de seios enormes. Não consegue ver a corda a enlaçar o seu pescoço daqui a três dias, num quarto sujo de uma pensão, só tem sentidos para o som tilintante de moedas a cair em pilhas à sua frente. Está hipnotizado, sorri tolamente, e assobia canções felizes enquanto caminha.

Aquele outro, de idade avançada, encostado à porta do café, observa as raparigas que passam e sente um calor familiar nas virilhas. Coça os testículos com displicência, e diz a si próprio que a sua esposa, quarenta anos antes, metia qualquer uma daquelas moças de carnes expostas a um canto. Mas é uma pena que já não seja assim, e é uma grande merda envelhecer e sentir o corpo cada vez mais conivente com a puta da gravidade.

Em 2001 um pequeno sapo castanho, de nome Frederico, nasce nas margens de um lago que reflecte em miríades de fragmentos luminosos o sol intenso. Nasce num dia agradável e morno que precede a primavera, e a primeira coisa que o seu olhar encontra é a imensidão do lago azul-escuro, de águas frias e peixes mordazes. Pousa o olhar naquela imensidão de água parada, sem ondulações, e inconscientemente marca o seu destino, porque nasceu com a canção das ondas nos ouvidos, sem saber que era a melodia do mar que escutava.

Torna-se um estranho na micro-sociedade junto ao lago. Passa os dias à beira das águas calmas, sem dizer uma palavra para os seus irmãos irrequietos – tão irrequietos como sapos podem ser! – a escutar a canção das ondas, hipnotizado pelo suave marulhar, brum brum, incapaz de compreender a sua linguagem, surdo às histórias que ouve. Imóvel. Atento.

É alvo de chacota por parte dos irmãos – por parte de todos os habitantes da margem – mas não se importa, só quer escutar aquele som do qual desconhece a origem. Num assomo de amizade fraternal, é atirado ao lago, desprevenido, e salvo do afogamento pelos peixes arrogantes de língua afiada. O cuco louco que habita o carvalho velho rebenta em gargalhadas estridentes, semelhantes a ginchos - pensa Frederico com amargura e ensopado -, e de tanto rir cai dos ramos com a cabeça bem espalmada na erva, passando as duas semanas seguintes a resmonear imprecações profanas e obscenas.

Quando a sua família é devorada pela cobra que habita a colina sobranceira ao lago, Frederico foge num tronco podre, a flutuar pelo lago, e vive incontáveis e inenarráveis aventuras repletas de personagens estranhos e sedutores, até alcançar o mar, e morrer em êxtase, finalmente capaz de compreender a sua linguagem. Morre, e é tragado pelo mar que o chamava desde o seu nascimento.

Tanta gente que viveu antes de nós, e tantos que vão viver por incontáveis anos, muito tempo depois de qualquer memória de nós ter desaparecido. Imagina que há um lugar de onde os sonhos provém, e para onde vão quando os esquecemos. Um imenso depósito de sonhos, como uma biblioteca. Estão lá todos, até o sonho de infância daquela senhora roliça e carregada de compras, aquele em que vestia roupas da mãe e dançava no quarto, a imaginar que estava num palco e era aplaudida por milhões de pessoas histéricas. Quando as luzes se acendiam, via que estava nua, e corava de vergonha, embora secretamente excitada.

Imagina que este lugar está em perpétua mudança, que tem mil faces, e que tem um senhor, que cria e guarda os sonhos. É maior que deuses, porque já cá estava muito antes do ser humano os sonhar. Tem o semblante pálido e pouco propício a risos, porque sabe que os sonhos são coisas assustadoras que mexem no escuro e nos tocam com tentáculos viscosos, mesmo quando nos enganam e acordamos relaxados e felizes. Se morrermos num sonho, será que estaremos mortos todas as noites, quando voltarmos a sonhar?

Em 1956, um jovem estudante suíço – Pierre Cannopille – repara numa mulher de vestido arroxeado sentada num autocarro em direcção à periferia de Berna. Está de pé a um metro da passadeira, livros aconchegados ao braço esquerdo, a ajeitar a gola do casaco para se proteger do frio cortante, e por instantes alheia-se completamente da multidão e do trânsito. A visão é fugaz, marcada pela intensidade de olhares trocados, mas vai ficar para sempre gravada na memória. Apaixona-se irremediavelmente pela estranha.

Nessa noite vai a uma taberna de má fama, embebeda-se com cerveja ácida, e percorre as ruas da cidade durante horas, à procura da mulher púrpura, murmurando incoerentes poemas de improviso, ébrio de amor, louco de paixão. Acorda numa valeta, deitado em cima de dejectos de cavalo, com a boca pastosa e as calças ensopadas em urina, e recolhe a casa, cambaleante, para escrever a mais bela história de amor jamais escrita.

Enquanto escreve, nas semanas que se seguem, percorre as ruas da cidade, com a chuva a bater forte no rosto, à procura desse objecto de amor que apenas viu de relance, a imaginar uma vida em comum, a sonhar visões de amor eterno e recíproco, de uma mulher perfeita com lábios carmins, as formas generosas rodeadas por um vestido púrpura como nenhum pintor ousou criar. À medida que o livro que escreve toma forma, nota que não escreveu apenas uma elegia ao amor no seu estado puro – o amor do qual não se sabe se é correspondido – mas sim um hino a todos os sentimentos da humanidade, uma história capaz de comover e tocar o mais empedernido dos seres. Um conto que eternamente figuraria entre as mais belas criações do ser humano. Mas não se vangloria da sua obra, porque sabe bem que não foi ele que a escreveu: foi o seu amor, foi a mulher que viu de passagem. Lamenta-se enquanto escreve, mas não deixa de se embriagar todas as noites, e perscrutar todos os becos sombrios, à sua procura.

Terminada a obra sublime, que deliciaria a humanidade para todo o sempre, resta apenas o vazio, a sensação de espaço não ocupado por um sentimento que cada vez mais exige um vislumbre do ser amado, uma adição, mesmo que breve, da voz, um sentir de toque. Pierre acaba a sua história ao mesmo tempo que acaba uma garrafa de absinto, perigosa bebida porque nos confronta com demónios ocultos, e cansado, exaurido de tão fútil jornada, decide atirar-se da ponte mais alta da cidade, para as gélidas águas que nascem na montanha e atravessam a urbe. Os demónios do absinto acenam em concordância, e riem, escarninhos.

Pela última vez calcorreia as pedras que tantas vezes percorreu com um sentimento de expectativa no peito e palavras bêbadas nos lábios. A noite está silenciosa, o volume de folhas manuscritas ocupa um espaço reconfortante no seu peito, e nenhum transeunte interrompe o seu caminho. Quando galga o parapeito da ponte, nem um olhar de tristeza lança às águas negras, atira-se agarrado ao volume de folhas, sem mágoa, e afunda como uma pedra. O frio invade o seu corpo como agulhas.

É salvo por um barqueiro, que resolveu madrugar naquela noite, e levado para o hospital inconsciente, azul como as pedras da rua sob o luar. Quando acorda, a primeira pessoa que vê é a enfermeira, que também é a mulher púrpura de olhar intenso, desta vez vestida com uma bata virginal. Tem um sorriso quente, e olhar carinhoso que pede sossego e recuperação. Casam dois anos depois, e Pierre Cannopille vive o maior romance da sua vida (até entregar a alma ao rio, quarenta anos depois), mas o maior romance que a humanidade poderia presenciar… perdeu-se nas águas geladas do Aar, e só o mar o conhece, agora. As folhas de papel barato dissolvem como líquido no negrume, e a tinta torna o azul da água mais azul.

Todos temos os nossos sonhos. Coloquei aqui os mais prosaicos, aqueles que me motivam a registar as palavras no papel. Mas não são todos os sonhos que tenho, são só ideias que me perseguem durante dias, chatas. Sonho sobretudo com amor, e com lagos calmos ao luar. Até quando adormeço sonho com amor, e com pessoas que não conheço. E com que sonhas tu?

Com que sonham todos vós, quando ninguém está a ver? O que vos motiva para a vida, o que vos faz acordar do sonho para outros sonhos? Sonham com amor, sonham com uma vida melhor, sonham com dinheiro, com objectos materiais? Sonham que amam, ou são amados sem sonhar? Todos os sonhos são válidos, porque não interessa com o que se sonha. Interessa é sonhar.

Com que sonham?

Numa noite escura, de um tempo indeterminado, um comboio atravessa as planícies vazias. No seu interior transporta uma multidão de mulheres pálidas, vestidas com farrapos sujos, amordaçadas e cegas. Os trilhos que percorre são feitos de tempo, e pela noite prossegue o seu caminho, inexorável, em marcha acelerada e ruidosa, em direcção a uma noite mais sombria, em direcção a estrelas apagadas que brilharam em tempos.

Uma das mulheres estende o braço e coloca a mão através das grades de ferro que guardam as janelas. Não diz uma palavra, apenas sente os dedos trémulos, enquanto o comboio avança nos trilhos do tempo, sempre, sempre em frente. Ela sabe que é uma viagem sem regresso, mas também não sabe de onde partiu, nem onde está. O comboio resfolega, com esforço, e continua a sua marcha num tom ritmado e monocórdico.

Apenas quer adormecer, mas não consegue. Não sabe o que é a escuridão, porque foi sempre nela que viveu, e não conhece outra coisa.

sábado, maio 27, 2006

Leituras



"Livros bombardearam-lhe os ombros, os braços, o rosto virado para cima. Um livro pegou fogo, quase obedientemente, como um pombo branco, nas suas mãos, com as asas a bater. Na luz fraca e trémula, uma página ficou aberta e era como uma pena branca de neve, as palavras delicadamente pintadas. Com a pressa e o ardor, Montag teve apenas um instante para ler uma linha, mas ela ardeu no seu espírito no momento seguinte como se lá batesse com aço ígneo. «O tempo adormeceu ao sol da tarde.» Deixou cair o livro. Imediatamente, outro caiu-lhe nos braços."

Ray Bradbury, Fahrenheit 451, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2002, página 46.

sexta-feira, maio 26, 2006

Ridículas I

Começou com um silenciar dos ruídos naturais, uma quietude desassossegada, que pousou imperceptivelmente nas copas das árvores, em cada ramo, sobre as pedras e os tapetes de folhas que cobriam o chão. Encheu-se o ar de silêncio e calou-se cada pássaro, cada pequeno animal, e por todo o lado parecia ter o tempo abrandado, até o vento quente e abafado desacelerou a sua marcha e tornou-se brisa suave e morna.

Encheu-se o céu de nuvens carregadas de cinzento, erigidas em castelo inexpugnável pela atmosfera, e de repente o ar ficou eléctrico, vibrante de energia expectante, com um leve odor a azoto que prenuncia sempre uma tempestade de verão. Os agricultores nos campos pararam por um momento o seu trabalho, voltaram os rostos para os montes distantes, e apressaram-se a recolher às suas casas, já a pensar na lareira que em breve aqueceria os seus corpos, e espalharia sombras bruxuleantes pelas paredes.
 
A luminosidade principiou, quase com timidez, a diminuir gradualmente, e o dia tingiu-se de cores esbatidas, o mundo encheu-se de um tom de sépia acinzentado, como uma fotografia de tempos antigos. A norte relampejou uma faísca de luz, a atravessar os céus qual rachadura num vidro, e ressoou um trovão, ainda longínquo, murmurado, que aos trambolhões percorreu montes e vales, e se apagou devagar, em jeito de musica que toca cada vez mais baixo, até imperar por fim o silêncio.
 
Naquele segundo que antecipou a tempestade quase se poderia encaixar a breve história do tempo. Teve a duração da batida do coração, e era como se o mundo aguardasse com ansiedade o próximo evento. Começou então a cair uma chuva grossa, que respaldava no chão seco e criava pequenas nuvens de poeira, e foi como se as comportas cerradas do céu se tivessem aberto de rompante. A água caiu em catadupas e da terra ergueu-se um odor acre e agradável, as poças tornaram-se pequenos lagos, os arbustos rasteiros fremiram sob o peso do liquido que escorria das suas folhas, e a relva achatou-se com violência.
 
Eu estava à porta da cozinha, a sentir os salpicos frescos da chuva no rosto, a escutar o tamborilar forte e ritmado nas telhas, e, por incrível que te possa parecer, estava a pensar em ti.
 
Há muitas coisas na minha infância e no tempo que antecedeu a idade adulta que se esbateram da memória, e que lamento ter perdido, porque foram recordações boas, e já não sei onde as guardei. Mais do que eventos concretos, recordo certos acontecimentos não tanto pelo que aconteceu em si, mas pelo brotar de sensações que me despertaram. Lembro-me de virar o sofá da sala contra a parede, uma fraca improvisação de trincheira, e de ver um filme de guerra na velha phillips a preto e branco que o meu pai havia comprado anos antes, com uma espingarda de madeira que eu próprio construí, e de cada vez que apareciam soldados nazistas no ecrã, eu disparava projécteis imaginários e ajudava o herói a salvar-se dos perigos que corria.
 
Lembro-me de olhar com inveja, nas tardes quentes de verão, os meus amigos que iam em grupos para o rio tomar banho, e eu preso na loja de fotografia onde trabalhava, a lamentar a minha má sorte. Fechávamos às sete e alçava a mochila vermelha aos ombros (que a minha mãe encontrou no lixo com as alças desprendidas, e laboriosamente coseu), e saía disparado como um foguete, sem parar por dois ou três quilómetros, até ver a velha ponte romana. Àquela hora a multidão já tinha partido, estava sozinho, despia-me rapidamente e mergulhava nas águas negras, enquanto o sol se escondia atrás das árvores. Sentia-me como se fosse a única pessoa viva no mundo.
 
Sempre tive uma certa propensão para o recolhimento interior; não raras vezes entrei pelos pinhais que circundam o bairro onde morava, imerso em pensamentos, e caminhava alheado, sem destino. Outras vezes sentava-me no sofá que serviu de trincheira e imaginava a minha vida com muito dinheiro, sonhava que a minha paixoneta do liceu não podia passar sem mim, que podia voar e não existiam paredes nem barreiras, e podia ir a todos os locais que conhecia dos livros que devorava.
 
Recordo particularmente aquela tarde em que me encostei à soleira da porta da cozinha e observei a tempestade a formar-se sobre a vila, até desaguar em fúria, porque estava sozinho em casa, tinha acabado de lanchar, e estava a pensar em ti, meu amor. Claro que não sabia quem eras, e não te conhecia na verdadeira acepção da palavra, mas era para ti que dirigia os meus pensamentos porque pensava em amor, e na mulher que haveria de amar um dia. Ainda não tinhas um rosto formado, e haveriam de passar muitos anos até ver o teu olhar esverdeado, até ouvir a tua voz de tons doces, mas já na altura sabia que ias ser linda, que te ia amar com todas as fibras do meu corpo e espírito, e quando te encontrasse tudo ficaria por fim bem, porque seria como se algo que me faltava finalmente encaixasse, e de repente o mundo começasse a fazer sentido.
 
Era um gaiato romântico na altura, sempre consciente e necessitado de amor (mesmo amor que ainda iria sentir), e com o passar dos anos acelerei as minhas pegadas, porque era a ti que procurava em cada recanto, em cada uma das noites e dias vazios. Aos poucos fui-me apossando de uma urgência ansiosa, porque sentia amor mas não sabia a quem o destinar, existia cada vez mais uma sensação de estar incompleto, de desejar que o acaso te trouxesse até mim.Vivemos as vidas como sonâmbulos quando não temos a quem amar.
 
Olhando agora para trás, parece-me que tudo o que fiz foi procurar-te, e no entanto… houve momentos em que não pensei em ti, houve alturas em que tudo o que queria era a insatisfação da satisfação imediata, em que passava os dias e noites frenético, sorvendo cada instante daquilo que a vida me dava com sofreguidão, porque queria mais do que tinha, mas não tinha aquilo que verdadeiramente queria. É triste viver assim, e às vezes vejo pessoas na rua com o semblante tão carregado, e parecem-me fantasmas sós, que vagueiam por um mundo de sombras porque não têm lábios macios à sua espera, ao fim do caminho não são esperados por um corpo quente e um abraço de carinho. Enfim… talvez toda a gente tenha alguém algures à sua espera, e caminhem sem saber para onde vão porque no intimo sabem que são esperados. Ou esperam apenas que o destino lhes traga aquilo que já perderam a esperança de ter.
 
Houve alturas em que tudo me pareceu um jogo demasiado estúpido para ser jogado, porque era a ti que amava e era a ti que esperava que surgisses na minha vida, mas não te conhecia, nem conhecia os insondáveis acasos que me levariam por fim para aquela cadeira ao teu lado. Tenho arrepios de medo, por vezes, quando penso na fragilidade de tudo isto: uma decisão mal tomada aqui, uma falta de atenção ali, um pensamento menos ousado acolá, e estaríamos irremediavelmente afastados do caminho que nos traria um para o outro. Quem sabe se não passaríamos um pelo outro um dia, numa rua movimentada, talvez por breves instantes os nossos olhares se cruzassem, e uma dor ínfima nos enchesse o peito sem sabermos porquê, até seguirmos em frente, separados. E eu acabaria por esquecer aquela mulher linda de rosto ameninado que tinha admirado na rua. Continuaria a vagar pela vida como mais um fantasma solitário.
 
Fui para a nossa faculdade porque era a que tinha as mensalidades mais baratas; escolhi marketing e publicidade porque não existiam cursos de jornalismos nocturnos; entrei para a faculdade porque não entreguei os papéis a tempo de ser colocado com a primeira vaga de estudantes inscritos no ensino superior, logo nenhum dos cursos públicos a que concorri me agradavam; fui para a universidade porque finalmente me decidi, após 2 anos de tentativas frustradas, a dar tudo por tudo nas específicas; fui fazer as específicas porque estava no Porto, após dois anos de espera por uma colocação, em Estremoz; fui transferido para o Porto porque um dos sargentos tinha uma cunha de um general; pedi transferência porque não queria estar no Alentejo, e fui para Estremoz porque não existiam vagas em mais nenhum lugar; fui para a tropa porque não queria passar a minha vida como mecânico em Viseu, e fui para Viseu porque a minha mãe queria que eu viesse viver para Portugal, já que pela minha vontade teria ficado de bom grado no Brasil.
 
Estás a perceber a delicada construção daquilo que foi a minha vida, e que me levou até ti? Um frágil jogo de acasos e consequências, que me poderiam ter levado para milhares de locais diferentes, para milhares de pessoas diferentes, e foi para os teus braços que vim parar. Até na tua vida podes encontrar este jogo subtil, porque também vieste até mim conduzida por uma série de causas e efeitos que também te poderiam ter irremediavelmente afastado de nós os dois.
 
Podemos pensar que existem coincidências, e tanto poderíamos ter acabado um com o outro, como poderíamos ter encontrado outras pessoas, e vivenciado emoções semelhantes, mas algo em mim me diz que não, que correu tudo da maneira como deveria ter corrido. É essa coisa a que chamamos destino: foi o destino que nos trouxe a nós dois, àquilo que somos, e tudo podia ter acontecido de maneira diferente, mas não. Tinha que te encontrar porque de outra forma nada disto faz qualquer sentido, e só contigo é que consigo abarcar aquilo que realmente vivi, e quanto de tudo foi um sonho delirante, e quanto foi realidade.
 
Há poucas certezas nesta vida: sabemos que nascemos, vivemos e morremos, mas quase tudo o que acontece in between é na maior parte dos casos uma incógnita. Não sabemos onde estaremos daqui a um ano, nem daqui a uma semana, porque a vida tem maneiras próprias de se contorcer sobre si mesma, e seguir por um caminho nunca antes pensado. Existem, contudo, algumas certezas, e não são certezas racionais, tais como sabermos que 2+2=4, ou que o sol nasce na China e põe-se na Europa, mas sim certezas emocionais. São as certezas do coração, aquelas das quais duvidamos na fímbria superior do consciente, mas acreditamos com todas as profundezas do inconsciente. Assim como eu sabia, enquanto via a chuva desabar sobre a terra, naquela tarde tão longínqua, que algures tu existias, mesmo que jamais na vida te encontrasse, também sei que te amo da mesma forma como sempre te amei durante a minha vida, em cada alto e cada baixo, e te amarei enquanto existir em mim a capacidade de amar.
 
Podes dizer que ninguém sabe como serão os dias que virão, e até certo ponto, tens toda a razão. Mas isso é introduzir um elemento de racionalidade consciente num sentimento que não é governado pela razão: amo-te porque sempre te amei, porque é a ti que estava destinado o amor. Se amar-te durante três anos, desejar-te com o espírito em brasa, enquanto fazia todos os possíveis para te esquecer, não apagou esta chama que sinto a queimar, como poderia deixar de te amar, tendo-te nos meus braços? Mesmo que acabasse o teu amor, mesmo que seguíssemos trilhos separados, acredita que continuaria a ser teu, porque sempre fui sem o saber, e agora, que sei que sou teu, mais teu sou, pois não és sonho ou desejo, mas sim real e tangível.
 
Onde poderia encontrar alguém como tu, amor? Não sabes, não entendes… compreendes que te amo, e até certa medida compreendes porque te amo, mas não entendes o quão especial és aos meus olhos, o quão única te tornaste desde que te conheci, como reservo para ti olhares que mais ninguém me conhece, e me transformei - e transformo - para poder ser agradável também aos teus olhos. Acima de tudo, adoro a maneira como me amas por aquilo que sou, sei que posso apresentar-me diante de ti sem artifícios, despojado de qualquer máscara, e ser com sinceridade. É assim que me amas, é assim que me desejas. Ou pelo menos assim espero, e igualmente não o desejaria de outra forma.
 
Aquele beijo que te tentei dar no Triplex foi o acto mais estúpido e insensato que tentei fazer, numa lista demasiado longa, porque tinha a certeza que ias recusar e já antevia uma noite carregado de mágoa. Também é aquilo que menos me arrependo de ter feito. Quero estar contigo para sempre, que estejas ao meu lado, para me dares a mão, e quando envelhecermos juntos e formos dois velhinhos de braço dado na rua, quero ainda poder dar-te um beijo nos lábios, à vista de toda a gente, e dizer-te baixinho ao ouvido que te amo, que nunca parei de te amar em todos os anos que passaram, e não vou parar de te amar em todos os anos que ainda virão.
 
Dizem as antigas filosofias orientais que o equilíbrio cósmico é feito de uma moeda de duas faces, em que para cada verso existe um reverso, e as coisas boas são compensadas com coisas menos boas, por cada sorriso de alegria espreita sempre uma lágrima de tristeza. Este ano que passou foi recheado de acontecimentos maus, que me marcaram profundamente, e momentos houve em que pensei que não existia nenhuma saída, que estava preso e sufocado numa espiral de obstáculos e contrariedades, sem lugar para onde ir.
 
Mas foi também neste ano que aconteceu a melhor coisa que poderia ter acontecido: estar contigo, e crescer contigo, dar forma a um amor que prenunciava, mas já tinha desistido de viver. E só por isto, sei o quão estávamos destinados a viver este amor. Apesar de todos os problemas, tu estiveste ao meu lado, foste a minha força e apoio, o farol que iluminou o meu caminho. Foi o nosso amor que me permitiu encarar tudo de frente, cerrar os dentes com teimosia e nunca desistir, porque amo-te como nunca amei ninguém, e temos uma vida para viver juntos.
 
Quando leres isto, estarei, quem sabe, a atravessar montanhas e vales por entre a escuridão, cada vez mais perto de Viseu, a afastar-me de ti. Posso estar longe, mas é a ti que trago no meu coração, é em ti que penso, e é para ti que voltarei, carregado de saudades. Foi sempre para ti que caminhei, sem saber, foi sempre na esperança que um dia surgisses na minha vida, e acredita que, para onde quer que vá, será sempre para voltar para os teus braços.
 
Foi a vida que te guiou até mim, que me guiou até ti, e sem isto, não passo de um fantasma só, que caminha e não sabe porque motivo segue em frente. Se te amava antes mesmo de te conhecer, quem sabe o que poderá este amor fazer por nós, agora que estamos juntos?
 
Eu sei: poderá dar um sentido à vida. Tu és o meu sentido, em cada noite escura e cada dia ofuscante.
 
Nem poderia ser de outra maneira.
 
Natal de 2004

quinta-feira, maio 25, 2006

Puro Veneno



Ready or not
Here I come
You can’t hide
Gonna find you
And take it slowly


Aborrecem-me pessoas que me olham com complacência fingida, que reviram os olhos e de sorriso amarelo em sorriso amarelo, perturbam com toques de caterpillar toda a saudável fundação que procurei estabelecer das minhas convicções, todos os argumentos lógicos e ilógicos com que justifico a chama interior que supostamente deveria orientar os meus passos.

Irritam-me jovens obcecados com a teoria da beleza, que malham incessantemente em ginásios anti-sépticos com iluminação fluorescente e musica de elevador no ar, 10 quilos em cada bíceps, 30 extensões em 3 minutos, martelar, remar, elevar, fundir, moldar, suar, esculpir com grunhidos roufenhos um corpo pleno de altos e baixos, como se um torso à lá David ou Vénus conseguisse de alguma estranha e abstrusa maneira compensar um espírito vazio e falho de ideias, conversas ocas a ecoarem no ruído da multidão, argumentos inconsistentes e pastosos, banalidades que se tornam dogmas quando repetidas até à exausta exaustão.

Enoja-me o desfile semanal de roupas compradas a preço de saldos perante um nariz perscrutador de um qualquer segurança composto com a máscara da dignidade e autoridade, dançarinas seminuas em colunas, com sorrisos quentes e olhares de desprezo para a feira de vaidades que observam, para a curiosa multidão de ovelhas espalmadas no conforto da partilha dos mesmos ideais vazios, dos mesmos sentimentos pobres e imediatos, sequiosas da mesma satisfação momentânea proporcionada por shots ácidos e melodias industriais que amortecem os tímpanos e pregam um evangelho mecânico de movimentos descoordenados e fúteis.

Enervam-me mulheres com mais banhas que roupa em exibições públicas, rapazes altivos com poses de macho a tentarem imitar os heróis dos filmes, e jovens raparigas que desconhecem os prazeres da carne, com ganas de entrarem no clube dos objectos de desejo, a afivelarem tiques sensuais em corpos púberes. Constrange-me o marchar desesperado de condutores que sabem para onde vão mas não para onde deviam ir, que aceleram nas passadeiras, passam no vermelho, não param no stop, buzinam nos semáforos, mudam de faixa como uma puta muda de clientes, lavam carros ao fim de semana, entopem os parques dos shoppings, as marginais à beira mar, os passeios durante a semana. Desprezo os exércitos de drogados que educadamente pedem moedas a dez metros de idosos em cadeiras de rodas, que não dizem uma palavra, abomino opinion-makers enfatuados, absorvidos num ritual semanal de arrogância lírica, revoltam-me homens bêbados que mijam nos passeios e roubam antenas de carros, irritam-me publicitários que partilham e incitam a mentira de corporações sem rosto, sem coração e sem princípios, odeio jornalistas histéricos que apregoam os podres do mundo e espalham como uma doença infecta e pútrida toda a sucessão de desgraças, males, catástrofes, merda embrulhada em merda, que avidamente consumimos todos os dias, antes, durante e depois de comer a sopa de dejectos que nos é impingida.

Não me venhas dizer que me amas, nem disfarces com lágrimas o facto de não saberes o que queres. Eu não te amo.

Não me venhas dizer que a convivência ocasional que tivemos, ou que as gotas de suor que trocámos em lugares escuros, constituem argumentos para um sentimento que possa ter crescido em mim, tímido mas incontrolável, tão impossível de parar como uma enchente do rio Douro. Não aceito esses argumentos, não me dizem nada, atenho-me aos factos, sou um bloco de lógica com fundações de concreto. Não me digas que fiquei afectado com as mensagens que recebeste e escreveste para outro que não eu, que as flores que te dei, os livros que te comprei, as massagens que te fiz, são partes de um todo, capítulos de uma história que se escreve por si própria.

Não te amo. Nunca te amei. Não é por tua causa que passo agora os dias sozinho, sem querer falar, sem querer privar da companhia de amigos e colegas, a debitar maços de cigarros com uma velocidade que me deixa os pulmões corroídos e a mente pesada, a ouvir musicas tristes e agressivas, agarrado a livros que já li demasiadas vezes, escolhidos ao acaso em livrarias onde me refugio diariamente.

As noites que passo às voltas na cama, ou a olhar para o tecto, não têm nada a ver contigo. Dei para ter insónias ultimamente, mas também nunca dormi em condições, logo não quer dizer nada de nada. Se estou sem apetite às refeições é porque me empanturrei quando era adolescente, porque a comida anda cheia de químicos hoje em dia, porque não quero engordar, porque o verão está à porta e quero estar confortável nas roupas, nem tenho dinheiro para comprar outras, aliás.

Se era carinhoso contigo antes de saber que nas minhas costas dedicavas a tua atenção a outro, foi porque o carinho para com as mulheres já faz parte de mim, foi-me inculcado com os beijos que recebi em criança, e não porque sabia que gostavas que te afagasse a pele, que apreciavas o toque dos meus dedos em passeio pelo teu corpo, pelos teus cabelos, o roçar dos meus lábios em ti. Nem sequer porque eu próprio gostava do contacto, das curvas de que és feita, das reentrâncias onde me perdia sem mapa e sem noção do mundo.

Não te iludas com olhares doridos, nem com palavras em tom magoado. Ando aborrecido ultimamente, não por tua causa, mas porque o mundo vai mal, o mar está carregado de merda, o ar irrespirável, a guerra vai começar, e existem muitos filhos da puta com controlos remotos nas mãos. Não tens nada a ver com isso, não me afectas da maneira que pensas, e não me peças para te perdoar, para não remoer coisas que nunca aconteceram, para reconsiderar e voltar. Não perdoo, não penso, não reconsidero e não volto.

Porque não te amo.
(Este texto já tem 3 anos, pelo que aproveito para o incluir aqui. Irei em breve criar uma secção específica com textos da minha autoria, que actualizarei irregularmente.)

quarta-feira, maio 24, 2006

Ler, e depois ver


VERTICALIDADES

Andei muito tempo perdido, antes de me sentir só
Mercador, falido, vendi-me nos sonhos de Bagdad
Ouvi pregões de vendilhões, recitei poemas que não li
Rocei fugaz as nuvens, escapei, como um pássaro

É difícil voar, quando perdemos o pé

Tantas vezes finjo amar, com o coração em déficit
Um dia esgoto-me, enviesado, esqueço tudo, e vou
Desmantelar poemas, qual dandy em roupagem tweed
Organizar palavras, verticais, opostas, em contradição

O significado é quase sempre oculto

Quantos reflexos vês?¿sêv soxelfer sotnauq
Um pouco de ti existe em tudo o que sou
E um sentimento paradoxal do que se sente

Transporta-me para regiões, pesadelos surrealistas
E por detrás das palavras, camuflo tudo o que vivi
Namoro criptografias, esconjuro as dores with pain
Hei-de continuar a iludir, pois amar é um triste ballet

Os que dançam no palco, sós, têm o espírito vendado


Não escrevo poemas com muita frequência. Simplesmente não me voam para aí as palavras, e claro que uma saudável dose de poesia adolescente - lamecha, amargurada, e fatalista, como se pede - também desenvolveu os seus anticorpos.

Acontece que estou a escrever um texto sobre o amor e amores (para breve, para breve, maldita musa!), pelo que achei ser a modos que apropriado terminá-lo com um poema. Mas não qualquer poema.

Leia, e depois veja.

terça-feira, maio 23, 2006

Porquê escrever?





Porque detesto escrever. A sério. Detesto mesmo. Acho odioso aquele vazio que se instala depois da última letra da última palavra da última frase do último parágrafo, o esgotamento de expressões, conjugações, verbos, adjectivos, metáforas, substantivos, gramáticas, ortografias, erros, palavras que fazem surf em ondas vermelhas ou verdes, cliques com o botão direito do rato, adicionar ao dicionário, ignorar palavra, escolher alternativas, descobrir de repente que por mais livros que leiamos, acabamos sempre traídos por dedos preguiçosos, intermináveis revisões ao texto, corrigir o que nos parece indigno do nosso génio literário, apagar tudo com um enorme sentimento de frustração – porque nunca seremos tão bons como aqueles que admiramos –, cerrar os dentes, acender mais um cigarro, e recomeçar.

Não gosto de escrever, e esta é a única concessão que faço à minha vaidade de me considerar escritor. Só neste aspecto posso considerar-me autor de direito. Nas palavras de Stephen King – raios parta, nunca vou ser tão bom -, que por sua vez citava alguém que dizia que alguém tinha uma vez afirmado que nenhum escritor gosta de escrever; “gosta é de ter escrito”. E é mesmo isso, acreditem: detesto o trabalho de alinhar palavras em frases, abomino o esforço de imaginar personagens, dar-lhes vida e colocá-los em situações invulgares, tudo isto para poder depois discorrer interminavelmente sobre algum ponto de vista, que por sua vez pretende ser uma célula, ou cadeia, de uma ideia, um sentimento, imagem, expressão, algo que na maior parte das vezes é intangível, apenas um suave dedilhar em cordas que nem todos os que lêem trazem dentro de si. Sou como o pintor que nos deixa descobrir nas suas pinceladas os reflexos de nós mesmos, mas não pinto, apenas exprimo.

Os melhores textos nasceram de ideias desesperantemente chatas, que me atormentaram durante dias, semanas, horas a fio, a exigirem a transposição para o papel. Tento ignorá-las, desviar a minha atenção com programas de televisão fúteis que supostamente deveriam alienar-me de toda e qualquer realidade, fujo-lhes com observações da vida que corre na rua – da janela da minha marquise –, mas estou sempre absorto, a ouvir argumentos ditatoriais da imaginação, e desenvolvo tramas sem querer, sem pensar. Crio fios inteiros de histórias que me parecem tão sedutoras, e fico tão hipnotizado por este transe interno, que acabo sempre a rabiscar qualquer coisa no primeiro pedaço de papel que encontro, e que irá ficar descuidadamente arquivado no topo da pilha de cd’s ao lado do monitor. Às vezes acontece-me fazer uma viagem de quilómetros no carro, e quando chego ao destino, tento recapitular a lembrança dos caminhos por onde passei, o que estava a pensar quando dei o pisca naquela curva, quanto tempo fiquei parado no semáforo, a velocidade a que vinha, quais os carros que estavam à minha frente, e nada. Absolutamente nenhuma recordação da viagem. Estava atento à condução a um nível automático, mas não estava no carro, tinha viajado para qualquer lugar que só visito quando escrevo, ou imagino escrever. Não consigo resistir à escrita, mas esforço-me.

O que gosto mesmo é de ler aquilo que já escrevi. Vezes e vezes sem conta. Sou um obsessivo narcísico dos raros lampejos literários que me assaltam ocasionalmente, aqueles poucos que sobrevivem à fingida indiferença, à pilha de papéis ao lado do monitor, à compreensão grafológica dos rabiscos urgentes, à preguiça de me sentar e dedilhar o teclado. Sou um escritor que se masturba internamente com o que escreveu, e deleito-me com as ideias inteligentes que consegui debitar, derreto-me com a habilidade com que consegui transpor determinada imagem ou opinião para o texto, imagino alguém a ficar tocado de uma forma única por aquelas palavras, e leio, leio, leio interminavelmente o que escrevi, comovido até ao nó na garganta, quase não consigo acreditar que fui eu – sim, eu! – que alinhou aquilo tudo de uma forma tão maravilhosamente poética, tão ordenadamente construída, em crescendo suspenso até à explosão de um final que perdura na memória, e convida à reflexão.

Se vos pareço demasiado convencido, sosseguem. É só com o que já escrevi; de resto, sou extremamente crítico e inseguro, quando o verbo não é escrevi, mas sim escrever. E aprendi uma técnica, que aqui deixo, para aqueles que também detestam tudo o que estiver a sair dos seus dedos: deixem os textos amadurecerem durante algum tempo, antes de fazerem quaisquer correcções. Vão achar que está tudo muito melhor do que pensaram, ou porque acertaram mesmo à primeira, ou porque entretanto o vosso talento diminuiu, bem como as expectativas e respectiva capacidade de avaliação.

Porquê escrever? Não escrevo para ninguém, mas também isto é uma mentira pegada que gosto de atirar ao ar quando pressinto alguma crítica negativa aos meus supostos talentos literários. É como se dissesse: “Está bem, achas que não tenho jeito nenhum para isto, mas que me importa, não é para ti que escrevo, não é para ninguém. Escrevo apenas para mim.” Na verdade escrevo para mim, para quem me lê, para uma pessoa em especial que não gosta de ler, para todos aqueles que não me lêem, nem nunca vão ler, mas estão próximos. Escrevo porque quero reconhecimento, mais reconhecimento do que aquele que me voto depois de ter escrito. Quero realmente tocar alguém do outro lado das palavras, dedilhar sentimentos, despertar paixões, aplacar alegrias e tristezas. Quero criar mundos, reais ou não, dentro de mim e de quem me lê. Mesmo que não consiga, esforço-me.

Porquê escrever? Porque sou preguiçoso, e quero impor uma disciplina a esta urgência de escrever. Até agora, as únicas regras que segui eram escrever quando é-me absolutamente impossível não o fazer, ou em resposta a um desafio, pergunta, opinião, reflexão, de outrem. Se me querem encontrar, procurem-me nos fóruns do SAPO (Generalidades e Namorados), e descobrindo os fóruns, talvez descubram um pouco mais de vocês próprios. Já tem acontecido. Vou tentar manter alguma regular irregularidade, mas não garanto quantidade, nem mesmo qualidade.

Porquê escrever? Isto não é um diário, não é uma amostra de ensaios, não é o embrião de um futuro livro, não é uma colecção de pensamentos soltos, não é um acumular de críticas e opiniões canibalizadas de notícias na comunicação social; isto sou eu, e eu sou eu, tremendamente narcísico com o que escrevi, e inconcebivelmente preguiçoso com o que quero escrever. As regras que utilizo para a vida são as mesmas que vou aplicar a este espaço, e se quiser faço, se não quiser não faço, se não quiser mas tiver que fazer, faço, e se não tiver tempo, adio. Durante o máximo de tempo que conseguir.

Porquê escrever? Se estiver aí alguém, depois de tudo isto, acho que já compreendeu, mas mesmo assim respondo:

Porque não consigo não escrever.