quarta-feira, dezembro 27, 2006

Ramadão X (por Neil Gaiman)

Haroun Al Raschid acordou confuso, como se ainda estivesse dentro de um sonho, ao som de uma voz preocupada:

‘Grande Califa? ’

Era um dos guardas do palácio, um gigantesco núbio de pele escura como as rochas do deserto. O rei estava deitado sobre um tapete de sarja castanha, velho, sujo de terra, ao lado da fonte decadente da praça do mercado, e permitiu que o guarda o ajudasse a colocar-se de pé.

‘Grande Rei, vós saístes do palácio. Temos estado à vossa procura. O que aconteceu? Porque viestes aqui, ao mercado? ’

O rei levou uma mão à cabeça, como se tentasse reter alguma lembrança:

‘Eu… eu não sei, Masrur. Tive um sonho, creio, mas está a desvanecer-se. ’

‘Uma insolação, talvez, Senhor. Pode fazer estranhas coisas a um homem. ’

‘Talvez… ’

‘Vamos voltar para o palácio, Lorde. ’

‘Sim. ’

O tapete esfarrapado ficou abandonado no chão de terra batida, enquanto o califa se afastava, devagar, amparado pelo enorme negro. Saíram do mercado e entraram numa das vielas sujas da cidade, apertadas pelas casas feitas de barro vermelho e edifícios gastos e decadentes, muitos deles quase em ruínas, que se espalhavam em todas as direcções, num labirinto de pobreza e desolação. À medida que caminhava, o rei abandonou o amplexo protector do escravo, e assumiu uma postura altiva, pois que estava afinal na sua cidade, embora envelhecida e humilde, e entre o seu povo, ainda que miserável.

Ao passarem por uma banca de frutas do deserto, o rei reparou numa figura de aspecto pálido, encostada a uma das traves de madeira que suportavam o toldo da loja. A figura estava imersa em pensamentos, e trazia uma garrafa de vidro cristalino nos braços, do tamanho de um cântaro de água.

‘Ei! Estranho, o que é isso que carregas? ’ – perguntou o rei.

‘Uma cidade numa garrafa.’ – respondeu a figura misteriosa.

O rei debruçou-se sobre o objecto, e viu uma maravilhosa cidade dentro da garrafa, com torres brilhantes que alcançavam as nuvens, e fantásticas cúpulas douradas que refulgiam os raios de um minúsculo sol. Pequenas figuras em miniaturas de tapetes voadores atravessavam o céu da cidade, sobre uma praça com uma grandiosa fonte ao centro, onde um pequeno homem, de ricos trajes, discursava perante uma multidão que o cercava.

‘É um mecanismo deveras engenhoso, e de primorosa execução. ’ – disse o rei, espantado. – ‘Fostes vós que o construístes? Está à venda? ’

‘Não fui eu que o construí. Foi-me oferecido. E já não está à venda… ’

‘É muito bela. ’ – disse o rei, pensativo.

‘Sim. ’

O rei sorriu, como uma criança que acabou de reencontrar um brinquedo muito amado, e acariciou ao de leve a garrafa.

‘Senhor, temos que voltar para o palácio. ’ – lembrou o guarda.

‘Sim, Masrur. ’

O rei e o escravo afastaram-se devagar, com o Califa a olhar ocasionalmente para trás, e entraram num edifício de cúpula alta e ornamentada, já a denotar as marcas do tempo nas rachaduras da superfície. A figura pálida, com a garrafa nos braços, ficou parada a observá-los, e no momento em que o rei desapareceu por entre as portas do palácio, sorriu imperceptivelmente, sem que ninguém soubesse se era de tristeza, se de alegria, o sorriso.

E foi assim que dizem que aconteceu. Mas só Allah o saberá com certeza.”

………………….

O menino tinha a pele escura, e o cabelo desgrenhado, coberto de poeira. Vestia uma camisa rasgada e calções de cor esbatida, e apoiava-se numa muleta velha, de madeira. Trazia os pés cobertos por meias, e a perna do lado da muleta estava enfaixada em trapos sujos.

‘Mas o que aconteceu a Haroun Al Raschid? ’ – perguntou. – ‘Ou à velha cidade de Bagdad? Ou ao…’

O velho mendigo, sentado à sua frente com as pernas cruzadas, interrompeu-o, enquanto recolhia o prato com moedas:

‘Espera, pequeno. Tens mais alguma moeda? ‘

‘…não. ’

‘Mais alguns cigarros? ’

‘Não. ’

‘Então creio ter falado demasiado, por hoje. Se estiveres aqui amanhã, talvez te conte mais. Vai para casa, rapaz. Estes são maus tempos, e a tua mãe deve estar preocupada. ’

O velho levantou-se a custo, recolheu as moedas ganhas para um dos bolsos, e começou a caminhar para longe.

‘Mas como é que funcionou? ’ – chamou o rapaz. – ‘A barganha? Como poderia a cidade durar? ’

‘Vai para casa. ’ – respondeu o velho, sem olhar para trás.

Sem ter obtido resposta às suas perguntas, Hassan voltou para casa, escolhendo cuidadosamente o caminho por entre uma série de atalhos descobertos por crianças, através das áreas bombardeadas e dos escombros de Bagdad.

E, embora o seu estômago doa (pois jejuar é fácil, neste Ramadão, e a comida é difícil de obter) a sua cabeça está erguida, e os seus olhos ganharam um novo brilho. Pois, por detrás do seu olhar, estão torres e jóias e djinn, tapetes e anéis, reis e princesas, e cidades de bronze.

E ele reza, enquanto caminha (amaldiçoando a sua perna fraca, ao mesmo tempo). Reza a Allah (que criou todas as coisas) que algures, na escuridão dos sonhos, ainda exista a outra Bagdad (a que jamais poderá morrer), e o outro ovo da fénix.

Mas só Allah o saberá.

FIM

terça-feira, dezembro 05, 2006

Ramadão IX (por Neil Gaiman)

O rei dos sonhos mostrou-se surpreso:

Não tenho qualquer desejo de me tornar rei de uma terra de mortais.

‘Não. Não me compreendestes. ‘

Haroun Al Raschid ergueu os braços acima da cabeça, em direcção ao céu, como se desejasse abarcar no seu amplexo todas as torres e minaretes que refulgiam contra o firmamento.

‘Esta é a mais gloriosa cidade que Allah - louvado seja desde o nascer do sol na manhã até ao seu repouso no entardecer, e também durante a noite e nas horas que antecedem a madrugada – achou por bem criar com o propósito de abençoar o mundo. E esta época é a época perfeita. ‘

‘Durante quanto tempo poderá durar? Durante quanto tempo vão as pessoas recordar? ‘

O rei deixou cair os braços, e o seu olhar assumiu uma expressão vazia, de quem contempla para além do tempo e do espaço.

‘Eu vi o mundo, rei dos sonhos. ’

‘Eu cavalguei através dos desertos, e vi as pedras e velhas paredes e estátuas, desgastadas pelo vento do deserto, nas vastidões vazias de areia. E depois o vento e a areia sopram uma vez mais, os restos de cidades e palácios e deuses desvanecem-se para outra idade do homem. ‘

‘Esquecidos e jamais lembrados. ‘

Haroun Al Raschid pareceu de repente muito cansado e resignado.

‘Nunca poderá ser melhor do que isto, pois não? ‘

Talvez assim seja…

‘…mas só Allah sabe o que virá’ – completou o rei. – ‘É verdade. ‘

‘Eu sou Haroun Ibn Mohammed Ibn Ali Ben Abdullah Ibn Abbas, Califa de Bagdad’ – o rei parecia estar a falar para a cidade diante dos seus olhos. – ‘Eu proponho oferecer-vos a minha cidade. Eu proponho que a compreis de mim: que a leveis para os sonhos. ‘

E em troca? ‘ – perguntou o rei dos sonhos.

‘Em troca desejo que ela jamais morra. Que viva eternamente. Podeis conseguir isto? ‘

O rei dos sonhos não respondeu por momentos, absorto em reflexões, com a cabeça baixa. Depois ergueu os olhos para as torres e cúpulas cintilantes, e murmurou:

Sim. À minha maneira, posso fazê-lo.

‘E o que será necessário acontecer para que tal suceda? Haverá algum encantamento que necessitais de executar? Existirá alguma cruzada que terei de empreender, para algum país longínquo? Haverá alguma grandiosa acção? ‘

Não. Basta contar ao teu povo. Afinal, é a ti que ele segue. E é teu, o sonho.

‘Muito bem. ’

O rei caminhou com passos firmes e decididos para a praça, seguido de perto pela misteriosa figura, e parou junto à fonte no centro do recinto.

OUÇAM-ME, MEU POVO! EU, O VOSSO CALIFA HAROUN AL RASCHID, DA LINHAGEM DOS HASHIMI, PROCLAMO NESTE DIA, NESTE LUGAR, QUE EU OFERECI A IDADE DOURADA DE BAGDAD, DA ARÁBIA, A ESTE QUE ESTÁ AO MEU LADO. ‘

‘SERÁ SUA ETERNAMENTE, ENQUANTO A HUMANIDADE DURAR…


‘…e o nosso mundo não for esquecido.

O tapete que pairava graciosamente acima do mercado pareceu estremecer durante um segundo, e toda a força que o sustentava desapareceu, fazendo com que tombasse em espirais, devagar, no chão, levantando uma nuvem de poeira.


continua...

quarta-feira, novembro 29, 2006

34


O serviço normal será retomado dentro de breves instantes, assim que o distinto autor do blog recuperar das vaporosas efluências alcoolizantes induzidas pelos amigos, na euforia geral da respectiva data de celebração.

(pelo menos não me esqueci da promessa de mudar a cor do blog quando este dia chegasse)

:)

sábado, novembro 25, 2006

Ramadão VIII (por Neil Gaiman)


Haroun Al Raschid e o senhor dos sonhos começaram a passear devagar, pelo mercado.

Grandes senhores!’ – exclamou sorridente um vendedor, quando se aproximaram da sua banca. – ‘Posso interessar-vos nestas finas doçarias? Nunca provareis semelhante, pois eu, Hassan o Doceiro, fi-las com especiarias e mel e requintados vinhos, de uma receita divulgada por um mercador que naufragou numa ilha habitada apenas por…’ – a voz do doceiro era abafada pela multidão, ouvindo-se a intervalos. – ‘… e ele pensou, primeiro…’ – o rei e a sua companhia passaram pela tenda, lançando apenas um olhar cortês aos doces que o homem estendia, convidativo. – ‘…o pequeno hominídeo cuja única alegria era a preparação de…

Lordes!’ – gritou outro mercador, em frente a um estrado onde se exibia uma mulher alva de aspecto lânguido como um felino, com orelhas de gato e cauda listada como a de um tigre. – ‘Tenho aqui uma escrava, para venda, da mais exótica espécie. Primeiro, examinem a sua pele. Não é da mais consumada brancura? Depois, chamo a vossa atenção para os seus olhos…

Nobres senhores, não lhe deis atenção! ‘ – disse um curioso, no meio da multidão. – ‘É um ladrão e um mentiroso, e um mágico. Há um mês vendeu-me um asno, que se sentava no meu estábulo e comia do mais fino grão e feno e frutos verdes, até que um dia este filho de uma cadela (que vos venderia a cidade de Bagdad e a mãe das vossas esposas, e as vossas mãos esquerdas, se lhe désseis oportunidade) veio à minha casa e disse-me que o asno que me vendera era, na verdade, uma bela donzela que fora enfeitiçada pela sua invejosa irmã, que era na verdade uma bruxa, e que desejava comprá-la de volta. Como, pode então este asno ser transformado em uma mulher novamente, perguntei-lhe eu…’ – o apregoar do homem perdeu-se na distância, à medida que as duas figuras se afastavam.

Haroun Al Raschid parou em frente a uma banca de frutas.

‘Dou-lhe um dirham por estas miseráveis uvas. ‘ – ofereceu ao vendedor, apontando para os cachos expostos.

Um dirham? ‘ – o vendedor levou as mãos ao peito, aparentando surpresa. – ‘Por estas uvas – cada uma delas um perfeito globo tão requintado que, fossem elas transformadas em vinho, este só seria apropriado para o nosso próprio Califa, Haroun Al Raschid, que Allah proteja e ilumine? Três dirhams e não menos.

‘Dois.’

Certamente, senhor, sois muito generoso. ‘ – replicou o vendedor, enquanto recebia as moedas e entregava um cacho luzidio. – ‘Aqui tem, leve também estas duas finas ameixas, com os meus cumprimentos. Há uma história, aliás, que acompanha estas ameixas…

‘Estou certo que sim, e agradeço-lhe a oferta. ‘ – disse o rei, afastando-se. – ‘Mas por agora tenho certos assuntos para tratar. ‘

Os dois caminharam para longe da multidão, e pararam debaixo de umas arcadas rodeadas por colunas intricadamente esculpidas, de onde se podia observar todo o mercado, e as torres douradas ao seu redor.

‘Uma uva, Senhor dos Sonhos? ‘ – ofereceu Haroun Al Raschid.

Durante o Ramadão? Entre a madrugada e o anoitecer?

‘Não importa. Olhe à sua volta, Rei dos Sonhos. O que vê? ‘

Vejo um lugar notável.

‘Decerto. É uma terra de milagres.’

O rei pausou longamente, os olhos distraídos a passearem em volta, até que perguntou, num suspiro:
‘Ireis comprá-la, de mim? ‘
continua...

quarta-feira, novembro 22, 2006

Ramadão VII (por Neil Gaiman)


O rei bateu novamente palmas, e ordenou aos servos que imediatamente acorreram de cabeças baixas e mãos erguidas:

‘Nos meus aposentos encontra-se uma arca que pertencia ao meu pai, e ao seu pai antes dele. Tragam-na até mim. ‘

Os serviçais desapareceram por instantes, e voltaram trazendo uma caixa de madeira de sândalo, gravada com estranhos desenhos em marfim e madrepérola, que colocaram aos pés do rei. Ele abriu a caixa com as suas próprias mãos, e retirou um pequeno tapete de aparência puída e pouco notável, que estendeu no chão. Depois, o rei subiu para o tapete cuidadosamente, quase com reverência, ainda que não fosse um tapete de oração, e indicou ao senhor dos sonhos que ocupasse o espaço vazio, ao seu lado.

Haroun Al Raschid disse uma palavra três vezes, e à terceira repetição o tapete ergueu-se no ar, devagar e em silêncio, a brilhar levemente. Começaram a descer suavemente, por entre as cúpulas douradas e minaretes cor de jade, o rei de Bagdad acocorado à frente, como vulgar pastor de cabras do deserto, e o seu pálido companheiro sentado nas bordas do tapete, atrás dele, os pés a balançarem no vazio.

‘Olhe para a minha cidade, Lorde dos Sonhos. ‘ – disse o rei, enquanto se deitava sobre o tecido gasto, de olhos postos no chão que se aproximava lentamente.

Estou a vê-la.’ – respondeu o passageiro.

‘É uma cidade de maravilhas, de espantos. Estes são os dias das maravilhas. Esta é a minha cidade. Sou responsável por ela. ‘ – abaixo deles surgiu uma enorme praça coberta de tendas e de multidão atarefada, com uma bela fonte ao centro, rodeada por um pequeno lago artificial. – ‘Ah! O soukh. Desce, ó tapete. Vamos tratar de negócios no mercado. ‘

O tapete depositou os viajantes no centro da praça, ao lado da enorme fonte. À sua volta redemoinhava um turbilhão de pessoas que circulavam devagar, parando ocasionalmente para observar os artigos expostos nas tendas coloridas. Viam-se vendedores de fruta que regateavam teimosamente com os seus clientes enquanto crianças de turbante aproveitavam a distracção dos adultos para roubarem umas peças de fruta, e ferreiros a afiarem espadas, por entre uma infinidade de lâminas penduradas em traves de bambu. A um canto uma dama de pele escura e rosto escondido por um véu segurava uma frágil corrente que prendia pelo pescoço um gorila de aspecto feroz, e noutra tenda grasnavam aves exóticas de penas multicolores. O rei apeou-se do tapete e ordenou, com as mãos na cintura e o rosto respeitosamente a fitar o chão:

‘Agora, espera alto acima do soukh, meu tapete. Chamar-te-ei se tiver necessidade de ti. ‘ – ao que o tapete prontamente obedeceu, levantando voo até se tornar uma pequena mancha, por entre o azul do céu.
continua...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Ramadão VI (por Neil Gaiman)



Haroun Al Raschid lançou o globo no vazio, e dentro deste surgiu uma nuvem escura, como se estivesse cheio de insectos, uma nuvem que se expandia cada vez mais, à medida que o globo descia em direcção ao chão, até revelar milhares de olhos malévolos e dentes afiados, a anteciparem a orgia de destruição. O globo aproximou-se vertiginosamente do chão, cada vez mais perto, e foi apanhado por duas mãos esguias que surgiram vindas do nada, pálidas como mármore, a milímetros de se desfazer em milhões de pedaços.

Chamaste-me, e eu vim. ‘ – disse o rei dos sonhos.

‘Sois vós, então, o Senhor do Sono, o Príncipe das Histórias, aquele ao qual Allah deu o domínio sobre o que é e o que não é, e o que não era e nunca será?’ – perguntou o rei.

Tu sabes quem chamaste, Haroun Al Raschid.’ – havia uma nota de desagrado velado na voz sombria.

‘Vinho! Vinho para o nosso visitante! ‘ – chamou o rei, olhando para trás e batendo palmas.

Este mês é o Ramadão, ó Rei, quando os fiéis jejuam desde o amanhecer até ao anoitecer, e não proibiu o profeta o vinho? ‘ – o rei dos sonhos pairava acima do abismo diante de Haroun Al Raschid, e segurava o enorme globo de cristal entre as mãos, como uma oferenda.

‘Sois vós, então, da verdadeira fé, meu pálido companheiro? ‘ – perguntou o rei.

Eu pertenço a todas as fés, à minha maneira, Haroun Al Raschid, e não tenho qualquer desejo de tomar vinho contigo. ‘ – a figura de pele alva e olhos onde brilhavam estrelas silenciou por um instante, para melhor vincar o sentido das suas palavras, e depois prosseguiu, numa voz grave e pausada: - ‘Agora, talvez seja a altura de me dizeres porque não deveria eu deixar este lugar imediatamente, levando comigo a tua bola de pequenos incómodos?

E também, posso acrescentar, levando comigo a lembrança de ter sido convocado, peremptoriamente, como quem convoca um mero serviçal.

Eu não sou um serviçal, ó Rei, e não me agradam convocações.

Haroun Al Raschid sentiu gotas de suor perlarem-lhe a testa, ao ouvir estas palavras, e observou o rei dos sonhos enquanto este abria o seu manto negro – raiado de flores e estrelas em movimento – e guardava o globo de cristal, que pareceu desaparecer nas pregas do tecido, como se nunca, na verdade, tivesse existido. E disse, pesando as palavras com cautela:

‘Há uma história que contam de um pescador que apanhou uma garrafa de jade nas suas redes, e que abriu a garrafa e libertou um génio... ‘

Na história ele convenceu o génio a voltar para dentro da garrafa. Mas o génio era um tolo fanfarrão, e solitário. Eu não sou nenhuma dessas coisas. Chamaste-me aqui, Haroun, e não é sensato convocar o que não podes desconvocar.

‘Estais a ameaçar-me? ‘

Eu não ameaço, apenas advirto cautela.

‘Sim. Percebo as vossas palavras. Porque vos chamei aqui? Chamei-vos aqui… creio, para fazer uma barganha. Se estiverdes dispostos a negociar comigo. ‘

Estamos a negociar? No palácio do Líder dos Fiéis? As barganhas fazem-se no soukh, o mercado.

Haroun Al Raschid acedeu, pensativo:
‘Sim, talvez se façam. Muito bem, desloquemo-nos então para o mercado.’
continua...

quarta-feira, novembro 15, 2006

Ramadão V (por Neil Gaiman)


‘Sou o Califa de Bagdad. De um rei para outro, eu chamo-vos, rei dos sonhos, lorde do sono. Estais aí? Eu exijo que vos apresenteis perante mim, aqui, numa forma que não seja nem ameaçadora ou desagradável para os meus olhos. Vinde, ó rei. ‘

Mas o rei não obteve resposta, excepto pelo restolhar de umas pombas que passaram acima da sua cabeça.

‘Sou Haroun Ibn Mohamed Ibn Abdullah Ibn Abbas, chamado de Al Raschid, o primeiro entre os fiéis, e minha é a glória e a cidade de Bagdad, a pérola das cidades. Eu conjuro-vos, ó rei dos sonhos, príncipe das histórias, senhor das marchas adormecidas. Vinde para mim. ‘

Mas não se ouviu qualquer som, a não ser o sussurro do vento e o último chamado de um pássaro nocturno do deserto.

Haroun Al Raschid estremeceu.

‘Muito bem. ‘

‘Nas minhas mãos seguro o globo de Sulaiman Bem Daoud, rei dos Hebreus. Foi neste globo, perto do fim da sua vida, que ele aprisionou novecentos mil e nove Ifrits, Djinn, e demónios.‘

‘Estes eram os mais sombrios espíritos, os maiores e os mais poderosos. E, um a um, ele confinou neste globo de cristal, que fechou com o seu selo. Isto aconteceu há quase dois mil anos. Durante os anos em que estes Ifrits – os seus corações mais negros do que a escuridão – estiveram aprisionados, cada um deles fez um juramento solene de desabar vingança nas crianças de Adão nosso pai, de destruir o nosso trabalho, as nossas mentes e os nossos sonhos. ‘

‘Este é um globo do mais excelente vidro, e quando se estilhaçar eles vão emergir como bestas ensandecidas de destruição. ‘

‘Se não vierdes até mim, eu estilhaçarei o globo. ‘

Ainda assim, o rei não obteve resposta, e os seus olhos semicerraram-se, quase com uma desprendida indiferença.
‘Muito bem. ‘

continua...

terça-feira, novembro 14, 2006

Ramadão IV (por Neil Gaiman)

Passados alguns instantes, o rei retirou uma chave dourada de um fio que trazia ao pescoço, e desceu para as profundezas do seu palácio. Passou pelo salão das mulheres (onde homem algum – excepto ele mesmo – pode entrar e manter a sua masculinidade), desceu até ao lugar da justiça e tortura, onde os prisioneiros que esperavam pela misericórdia real aguardavam pacientes, e prosseguiu ainda mais fundo, para além das masmorras, onde aqueles que a misericórdia real havia esquecido esperavam em vão, com faces pálidas, barbas brancas, olhos desesperados e loucos.

Depois de algum tempo o rei alcançou uma porta gigantesca de ferro negro, esculpida com muitos símbolos e pinturas e padrões. Ele abriu a porta com a chave de ouro, e desceu ainda mais.

Agora os degraus eram estreitos e húmidos, o ar escondia figuras difusas e rostos, e o rei julgou ouvir as vozes daqueles que havia amado e assassinado através dos anos: a rapariga pálida das terras do Norte, com cabelos como prata; o rapaz do deserto que lhe trouxera uma rosa esculpida de quartzo rosa-claro, e ficara no palácio por um ano e um dia; o capitão da guarda do palácio que, para além do rei, era o mais exímio arqueiro, espadachim, e lanceiro da cidade, mas que tinha, talvez, cobiçado o trono. Ele ouviu muitas vozes, mas não lhes prestou atenção.

Finalmente, Haroun Al Raschid chegou a uma porta de bronze, enfaixada com tiras de cobre verde e incrustada com madrepérola. Ele abriu a porta com a chave de ouro, e desceu ainda mais.

O rei entrou então no labirinto, que percorreu de olhos fechados, a contar os passos em frente, para a esquerda e direita, na sua mente. A porta seguinte era de madeira, sem ornamentos, e também essa ele abriu com a chave de ouro. Tochas brilharam e crepitaram assim que ele entrou, cobrindo a sala com uma radiância faiscante, mas ele não olhou para a esquerda ou para a direita. Diamantes e rubis, esmeraldas e safiras, ametistas e pérolas estavam amontoados em pilhas promíscuas, nunca contadas, talvez incontáveis.

Havia um quarto com apenas espadas encantadas suspensas no tecto, e outro cheio de lâmpadas, anéis e cálices de estranhas virtudes e poderes; outro não continha mais do que ovos, de todos os formatos e tamanhos, desde o ovo do Vermillion que é tão grande quanto a mais pequena unha de uma criança, até a um ovo mais largo do que um homem, o ovo do Rukh, um pássaro que faz o seu ninho nas montanhas e caça touros-elefantes para alimentar a sua prole.

E também havia, naquele quarto, o Outro Ovo da Fénix (pois a Fénix, quando chega o seu tempo de morrer, põe dois ovos, um preto, um branco. Do ovo branco nasce o próprio pássaro Fénix, quando chega o seu tempo, mas ninguém sabe o que nasce do ovo preto). Haroun Al Raschid passou por estes quartos e o seu olhar não pestanejou para nenhum dos lados. Parecia-lhe que havia caminhado no silêncio por muitos quilómetros, debaixo do palácio, quando alcançou a última porta, e esta era uma porta de chamas, que também abriu com a chave dourada.

O quarto estava vazio, excepto por uma bola de vidro pousada numa almofada de cetim. Dentro da bola nevoeiros coloridos contorciam em espirais, e na superfície existia um selo. Haroun Al Raschid retirou a bola da almofada e saiu do quarto. Ele carregava-a com cuidado, e a sua respiração era fraca e rápida. Existiam percursos através do palácio que ninguém senão ele conhecia, e isto era porque aqueles que haviam desenhado os planos, e aqueles que haviam construído os percursos, já tinham recebido há muito a sua recompensa final, pois não é saudável conhecer os segredos de um rei.

Ele prosseguiu, degrau a degrau, a subir cada vez mais, até alcançar uma parede de tijolos, sólida. Tocou levemente um tijolo, não diferente dos restantes, e a parede deslizou para o lado e ele saiu gentilmente para o terraço mais elevado do palácio, no exterior. Imagine um milhão de milhares de pirilampos de todas as formas e cores; era assim o céu de Bagdad naqueles tempos, à noite, e os barcos ainda navegavam o rio com lanternas nos seus mastros, e os sons da noite na cidade subiam para um céu pejado de estrelas e bolas de fogo. Muito, muito suavemente, o rei começou a falar:

continua...

sábado, novembro 11, 2006

Ramadão III (por Neil Gaiman)

Meu marido e meu rei? ‘ – perguntou.

‘Sim, minha senhora? ‘

Vejo que estás preocupado.

‘Vês correctamente. ‘

Vem comigo. Deixa-me untar a tua testa com óleo morno, e acariciar-te com as minhas mãos gentis. Posso fazer-te esquecer os problemas por entre os meus seios, e posso afagar para longe a escuridão na tua alma, por entre as minhas coxas.

‘Agradeço-te, minha senhora, minha rainha, mas devo recusar. ‘ – E ela deixou-o.

O Vizir – seu amigo, Jafar o Barmakid – veio à sua presença.

Vem, vamos disfarçar-nos e caminhar pela cidade. ‘ – disse. – ‘Sem dúvida que encontraremos algum nobre sob um qualquer encantamento. Ou três mulheres, esguias como gazelas, aprisionadas numa casa de jade branco. Ou um louco vagabundo com uma história de espíritos malignos do deserto para contar, e…

‘Não. ‘ – interrompeu o rei.

Permite-me então que mande trazer vinho e comida, e chame contadores de hstórias, para que possamos proclamar que aquele que contar a mais estranha e verdadeira história…

‘É Ramadão, Jafar, quando jejuamos desde o nascer até ao por do sol. E o Profeta proibiu o vinho. ‘

Mas…

‘Não, velho amigo. ‘ – e o rei apontou para a cidade resplandecente abaixo deles. – ‘Olha para a nossa cidade. Não é maravilhosa? Existirá alguma outra como ela? ‘

Se Allah o desejar…

‘Ah. Mas não está destinado a homem algum conhecer a vontade de Allah.’ – e a face do rei ensombrou-se com estranhos e tristes pensamentos. – ‘Deixa-me. ‘

Ele permaneceu no varandim até que a noite caiu, e a primeira estrela brilhou acima das espirais da cidade. E nessa altura veio à sua presença Ishak, o maior poeta daquele tempo, aquele que podia tecer palavras como fios de seda enredados em linhas de ouro.

Grande rei. ’ – disse o poeta.

‘Saudações, fiandeiro de palavras. ‘

Meu rei, estás preocupado. Posso tocar para ti, ou cantar?

‘Não. Há um peso no meu peito e no meu semblante, mas a arte e palavras bonitas não o levantarão. Ai de mim. Existiu alguma vez uma cidade como a minha, ou um povo como o meu? ‘

Não, grande rei. ‘ - respondeu o poeta.

‘Embaixadores vêem aqui dos confins da terra, para testemunharem este milagre. Voltam para os seus reis dizendo que viram a cidade perfeita, e que nunca poderá existir outra igual. E os seus reis ficam insatisfeitos com os seus pequenos feudos e domínios, pois sabem que nunca se poderão comparar a Bagdad, a jóia das cidades. ‘

O rei baixou a cabeça e acrescentou, num murmúrio:

‘É assim. Mas todas as coisas passam. Deixa-me. Não necessito de poetas. ‘ – e permaneceu no varandim, a observar a mais gloriosa cidade sobre a terra.
continua...

quinta-feira, novembro 09, 2006

Ramadão II (por Neil Gaiman)


‘Pois aqueles eram os dias das maravilhas, e Haroun Al Raschid era um rei sapiente. Quando se sentava em julgamento, até os sábios ficavam atónitos com a sagacidade dos seus veredictos, e sob o seu reinado a cidade prosperou, e toda a Arábia floresceu e tornou-se forte.

Mas Haroun Al Raschid tinha inquietações na sua alma.

E nessas alturas, quando a escuridão descia sobre a sua fronte, ele saía por uma noite para a cidade de Bagdad, levando consigo apenas o seu amigo Vizir Jafar, e Masrur, o seu executor. Vestidos como mercadores de uma terra distante, eles percorriam a cidade, a experimentarem os seus prazeres e saborearem as suas bebidas, a enobrecerem os virtuosos e os artistas, e a repudiarem os malévolos e os preguiçosos.

Desta forma encontraram histórias mais estranhas do que as que alguém pudesse contar até aquela altura, mesmo no mercado de Bagdad. Foi nessa altura que Haroun Al Raschid elevou um miserável pedinte ao Califado, por um dia de sonho, e também quando o Grande Rei testemunhou a morte de um corcunda e admirou-se dos sete estranhos que confessaram o seu assassínio, ainda que o pobre tolo se tivesse engasgado com uma espinha de peixe. E aconteceu em Bagdad, cidade das cidades, cidade acima das cidades, que o Rei e o seu Vizir testemunharam o único voo do cavalo alado, todo feito de vidro excepto pelos olhos, que eram de osso.

Mas ainda assim o Rei permanecia inquieto.

Um dia, conforme Allah decidiu que haveria de ser, o Defensor da Fé estava num balcão muito acima da cidade, ao meio do dia, e foi-lhe permitido ver toda a cidade espalhada abaixo de si, como uma tapeçaria. Ele viu tapetes a vibrarem pelos céus, mercados a abarrotar de doçarias e especiarias raras, e pássaros habilmente feitos de jóias que cantavam mais docemente que qualquer ave nascida de um ovo.

Ele viu caravanas a atravessar o deserto, rumo à cidade, camelos carregados com sedas, perfumes caros, diamantes e rubis grandes como o punho de um homem, e jovens dançarinas de olhos pintados, a suas faces veladas e os pés tatuados com hena. Viu embarcações a entrarem no porto, cheias de cereais e romãs, e os banhos públicos e as espirais das mesquitas, e ouviu os Muezzin a chamarem os fiéis às orações. E viu os artesãos e marinheiros e mercadores; os guerreiros e os guardas da cidade, e estranhos de todas as nações, que haviam vindo para Bagdad, a jóia das cidades. Incomparável.

Tudo isto ele viu, mas o seu coração estava inquieto. Era o Ramadão, o mais sagrado dos meses, pois foi no Ramadão que o anjo Gabriel primeiro deu a palavra de Allah, o Único, o único Deus, ao Profeta.

A sua esposa, Zubaidah, veio à sua presença.’
continua...

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ramadão I (por Neil Gaiman)

‘Em nome de Allah, o Compassivo, o Todo-Misericordioso, eu conto a minha história. Pois não há outro Deus senão Allah, e Maomé é o seu Profeta.

Saiba então que esta é uma história de Bagdad, a Cidade Celestial, a jóia da Arábia, e que isto aconteceu no tempo de Haroun Al Raschid, Rei dos Reis, Príncipe dos Fiéis. Não existia outra corte como a de Haroun Al Raschid. Ele havia juntado à sua volta todos os tipos de grandes homens de todos os cantos do mundo: sábios e alquimistas, geógrafos e geomantes, matemáticos e astrónomos, tradutores e arquivistas, juristas, linguistas, magistrados e escribas.

Na sua corte encontravam-se os melhores professores dos Hebreus (que foram os primeiros dos três povos do Livro), e os mais distintos monges dos pálidos Cristãos (uma gentinha suja que não toma banho e venera o poio seco do seu líder, a quem chamam Papa). E, naturalmente, os maiores estudiosos do Corão, a palavra de Allah como foi revelada ao seu Profeta Maomé, cento e oitenta anos antes.

E assim, era o seu palácio o palácio da Sabedoria.

Existiam mulheres no seu harém: concubinas de todas as terras, infiéis e fiéis, com peles brancas como a areia do deserto, castanhas como as montanhas vistas ao anoitecer, amarelas como fumo e pretas como obsidiana, todas elas adeptas da arte do prazer. E também muitos belos rapazes de queixos ainda imberbes, e olhos negros devassos e luxuriantes, saborosos como damasco arrancado durante o orvalho.

E assim, era o seu palácio o palácio do Prazer.

Havia também mágicos no palácio: astrólogos que podiam interpretar a vontade de Allah a partir das danças celestiais das estrelas distantes, encantadores da China e das terras mongóis, com altos chapéus de pelo e longas mangas cheias de segredos, feiticeiros beduínos ascéticos que conheciam os segredos dos anjos e dos djinn e dos homens, poetas e músicos, e homens de apurada percepção e gosto perfeito.

E encontravam-se estranhos assombros na corte: homens com cabeças de animais, animais que falavam como homens, e maravilhosos prodígios mecânicos que fingiam ter vida, cantavam ou moviam-se quanto lhes dirigiam a palavra.

E assim, era o seu palácio o palácio das Maravilhas.’
continua...

terça-feira, novembro 07, 2006

O porquê das coisas: Tacto


O Ramadão, também chamado de quarto pilar do Islão, foi estabelecido em 638 d.C. como sendo o nono mês do ano. Inicia-se, dependendo do local, entre os dias 23 e 25 de Setembro, durando até 22 ou 23 de Outubro. É considerado o mais venerado, abençoado, e espiritualmente benéfico mês do calendário islâmico.

Durante todo o mês, e de acordo com as palavras de Deus, todo o adepto do Islão adulto e capaz deverá observar um rigoroso jejum durante o dia, a iniciar com o avistamento da lua nova (para atingir um estado de consciência mais próximo do Divino), mas também são igualmente importantes a caridade, as orações, e a meditação. Desde a alvorada até ao anoitecer, são proibidas a bebida, comida, tabaco, e relações sexuais, mas também é incentivada a obediência aos preceitos da fé islâmica, através da contenção da ira, inveja, ganância, luxúria, respostas sarcásticas, traição e boatos. Deve ser evitado tudo o que possa representar obscenidade ou heresia, mantendo a pureza dos pensamentos e acções.

A história “Ramadan” de Neil Gaiman foi publicada pela primeira vez em Junho de 1993, e imediatamente alcançou um tremendo sucesso entre crítica e leitores, tendo vendido mais de 250.000 cópias, um feito inédito para a série “Sandman” até à data. Ainda hoje é considerada como a favorita por muitos fãs. A história, soberbamente ilustrada pela pena elegante de P. Craig Russell, é contada numa perfeita tradição árabe, e gira à volta do dilema de um califa de Bagdad que acredita-se realmente ter existido: Haroun Al-Raschid.

Desde que comecei os posts “O porquê das coisas” que tive intenção de colocar uma adaptação escrita de uma história do Sandman, mas foi difícil seleccionar aquela que melhor se encaixaria na transposição de um media que mistura texto e arte na narração de uma história, para outro que apenas envolve texto e a imaginação do leitor. A história “Ramadan” é uma das minhas favoritas (embora o “Dream of a Thousand Cats” seja aquela que mais acarinho), e tem a particularidade de ter nascido como um conto.

Para melhor alcançar o estilo arábico de contar histórias, na tradição da “Mil e Uma Noites”, Neil Gaiman optou, em “Ramadan”, por começar o argumento em texto corrido na forma de um conto, planeando posteriormente dividi-lo em painéis, páginas, e balões de diálogo. Felizmente, num daqueles acasos do destino, algum tempo mais tarde telefonou ao artista que iria ilustrar a história para lhe dar os contornos gerais do trabalho. P. Craig Russell pediu para ver o que ele tinha escrito até à data, ao que Neil Gaiman acedeu (dizem que é uma pessoa extraordinariamente gentil), e imediatamente após ler o texto implorou-lhe que não alterasse nada, deixando-o ilustrar a história à sua vontade.

O resultado é uma poderosa combinação de texto visualmente poético, com uma sublime interpretação artística a nível dos desenhos e cores, e a maneira como a história foi construída facilita bastante a adaptação para o formato de conto. Aliás, trata-se mais de uma tradução literal do que propriamente uma adaptação, uma vez que só deixei que a minha fraca veia literária interviesse quando era necessário descrever alguns painéis que na BD falam por si, sem necessidade de palavras. Pelo que a história que publicarei a partir de amanhã é uma tradução levemente adaptada de uma história da autoria de Neil Gaiman, e quando o texto vos parecer mais fraquinho será decerto nas partes onde a minha pena deixou a sua marca.

A tradução foi mais demorada do que previa, e ao mesmo tempo a minha vida entrou numa espiral de stress, pelo que o blog esteve uns tempos semi-abandonado, mas tudo isto terminou, e podem contar com textos meus em breve. Uma vez que o texto completo de “Ramadan” tem mais de 18 páginas, optei por dividi-lo em partes, que publicarei ao longo desta semana. Desta forma não canso os meus pacientes leitores e leitoras. Se porventura houver alguém mais curioso e que prefira ler tudo de uma vez, vou colocar online um ficheiro PDF com o texto completo e algumas ilustrações de P. Craig Russell, para que possam apreciar a beleza do traço deste senhor.

Para terminar, volto a referir que a história que se segue não é da minha autoria, mas sim de Neil Gaiman, reservando-se todos os direitos de autor. Se a empresa detentora dos direitos de publicação do “Sandman” (em Portugal julgo ser a Devir) não pretender ver este texto publicado, basta entrar em contacto comigo através do mail do Blog, e imediatamente retirarei os posts. Se quiserem ler o original, basta efectuarem a compra aqui.

E agora, sem mais delongas, apresento-vos “Ramadan”. Espero que gostem.
Boa noite, e bons sonhos.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Vox Populi


“Para que o mal triunfe, basta que as pessoas de bem não façam nada”
Edmund Burke

Ponderei durante algum tempo a colocação deste post. Não por receio de represálias, ou comentários inflamados, mas por achar que o mesmo seria estranho ao conteúdo do blog. Afinal, que lugar tem um post a publicitar uma acção de cariz humanitário num blog essencialmente literário?

Muito. Porque somos seres humanos conscientes e compassivos acima de tudo, sendo essas características (entre outras) o que nos define como tal, e porque lutar contra as injustiças do mundo não mais é do que sonhar. Ainda que sejam lutas contra moinhos de vento, mesmo que nada advenha das nossas acções, é necessário erguer a voz humana que trazemos dentro de nós e clamar por todos os sonhos que nos embalam o pensamento, e dão asas à alma.

Foi publicada uma
petição online contra a participação da “estilista” Fátima Lopes em eventos futuros do Portugal Fashion, a mesma Fátima Lopes que utiliza peles de animais verdadeiros nas suas colecções de luxo, e que defende publicamente as suas opiniões. A petição já tem cerca de 900 assinaturas, mas são necessárias muitas mais para que possamos chamar a atenção da organização que a promove (ANJE) e o seu presidente. Mais vozes para que o grito silencioso dos milhares de animais que estão neste momento a passar por sofrimentos atrozes seja ouvido pelos poderes instituídos, pela comunicação social, pela sociedade.

A petição tem recebido um apoio incondicional por parte de muitas pessoas, e já operou algumas revoluções na mente de outras que desconheciam esta situação. São estas pequenas vitórias contra os gigantescos moinhos de vento que despertam a crença no sonho de um futuro melhor, e só por isso, já valeu a pena.

Não lhe peço que assine, apenas que leia o texto. Se concordar, apoie e divulgue a mensagem. A petição não tem qualquer valor legal, e será certamente contestada pelos destinatários da mesma, mas é uma luta que tem de ser travada. Há que mostrar a voz da indignação, para que se saiba que estes actos não passam impunes, ficam registados, não são esquecidos. Há que alimentar o sonho, até que deixe de o ser.

http://www.PetitionOnline.com/ftmlopes/petition.html
Boa noite, e bons sonhos. (Amanhã: Ramadão)

quarta-feira, outubro 04, 2006

Leituras IX


"Nebara Jozen não o escondera. Morrera com dificuldade, chorando de medo, implorando misericórdia durante a morte lenta e cruel a que fora submetido. Tinham-lhe permitido que fugisse, depois sofrera golpes de baioneta, desferidos por entre risos, depois fora obrigado a correr novamente até que lhe cortaram os tendões das pernas. Depois deixaram-no rastejar, estripando-o lentamente, enquanto ele gritava, o sangue a misturar-se com os excrementos, sendo depois abandonado para que morresse.
Depois Naga focara a sua atenção nos restantes samurais. De imediato, três dos homens de Jozen se ajoelharam, descobrindo os ventres e colocando facas afiadas diante deles para cometerem seppuku com ritual. Naga permitiu que três dos companheiros destes se colocassem por detrás deles, de espadas alçadas e seguras com ambas as mãos. Quando os samurais ajoelhados se inclinaram para pegar nas facas, estenderam os pescoços e as três espadas fenderam os ares, decapitando-os de um só golpe. Os dentes entrechocaram-se nas cabeças caídas, e depois ficaram imóveis. As moscas acorreram.
Em seguida ajoelharam-se dois samurais, ficando o último homem por detrás deles. O primeiro a ajoelhar-se foi decapitado da mesma forma que os seus camaradas, quando se inclinava para apanhar a faca. O segundo disse:
- Não. Eu, Hirasaki Kenko, sei como devo morrer... como um samurai deve morrer.
Kenko era um homem novo, suave, sempre muito perfumado, quase bonito, de pele clara, que usava o cabelo muito bem oleado e limpo. Pegou reverentemente na faca, rodeando o cabo desta com a sua faixa, a fim de melhor a segurar.
- Apresento o meu protesto pela morte de Jozen-san e de todos os seus homens - disse, firmemente, inclinando-se diante de Naga. Olhou o céu pela última vez e dirigiu ao seu ajudante um último e tranquilizante sorriso. - Sayonara, Tadeo. - Depois enterrou a faca profundamente no lado esquerdo do ventre. Rasgou-o de lado a lado com o auxílio de ambas as mãos e retirando-a, voltou a afundá-la violentamente, desta vez um pouco acima de uma das virilhas, puxando-a para cima, em silêncio. As entranhas dilaceradas penderam-lhe para o regaço, e só quando o rosto hediondamente contorcido e agonizante se inclinou para cima é que o seu ajudante deixou a espada cair, desferindo um único golpe.
Naga pegou, ele mesmo, na cabeça, segurando-a pelos cabelos que estavam presos no cocoruto, limpou-lhe a sujidade e fechou-lhe os olhos. Depois disse aos seus homens que a mandassem lavar e embrulhar, enviando-a depois a Ishido, com todas as honras e o relatório completo da bravura demonstrada por Hirasaki Kenko.
O último samurai ajoelhou-se. Não havia mais ninguém para o executar. Também este era jovem. As mãos tremiam-lhe e estava terrivelmente assustado. Por duas vezes cumprira o seu dever para com os camaradas, por duas vezes os executara de forma perfeita, honoravelmente, salvando-os da dor e da vergonha do medo. E aguardara, igualmente, que o seu maior amigo morresse como um samurai devia morrer, auto-imolado num silêncio repleto de orgulho, executando-o depois com a mesma perícia impecável. Nunca antes matara.
Os seus olhos pousaram na faca. Descobriu o estômago e rezou para que tivesse a mesma coragem que o amigo tivera. As lágrimas ameaçavam subir-lhe aos olhos, mas impôs ao rosto uma máscara sorridente e impassível. Desenrolou a faixa e envolveu o punho da faca. Nessa altura, como o jovem estava a cumprir honrosamente o seu dever, Naga fez sinal a um dos seus tenentes.
Este aproximou-se e, inclinando-se, apresentou-se formalmente.
- Osaragi Nampo, capitão da Nova Legião do Senhor Toranaga. Terei muita honra em actuar como seu ajudante.
- Ikomo Tadeo, primeiro-oficial, vassalo do Senhor Ishido - replicou o jovem. - Obrigado. Sinto-me honrado em aceitá-lo como meu ajudante.
A sua morte foi rápida, indolor e honrosa.
As cabeças foram recolhidas. Um pouco mais tarde, Jozen recuperou a consciência. Com as mãos, tentou frenética e escusadamente manter os intestinos no interior do ventre.
Deixaram-no entregue aos cães que, entretanto, tinham vindo da aldeia."
Coloquei este sangrento e visualmente descritivo post apenas para dizer que não, não me esqueci que tenho um blog. Estou a adaptar uma história do Sandman, de Neil Gaiman, e a tradução está a demorar um pouco mais do que o previsto, para além de que estes últimos dias tem sido um pouco cansativos e muito muito muito ocupados. Mas estou quase a terminar, ao belo ritmo de uma página por dia, pelo que em breve retomarei o serviço normal, com a mesma irregularidade de sempre. :)

terça-feira, setembro 12, 2006

Cinefilias III (Superman Returns)


Terá sido por volta do ano de 1984, 1985, numa era em que só existiam dois canais de televisão, a emissão real começava às seis da tarde (antes disso era a seca da tele-escola), a televisão por cabo era uma miragem, e só passava uma novela, brasileira, por dia. Estava sentado na cozinha, que também era a sala da casa da minha avó (para onde tínhamos ido morar recentemente), e começou o filme do Super-homem, numa estreia inédita na televisão. Lembro-me primeiro do espanto de um filme tão fantasticamente maravilhoso estar a passar na RTP 1, algo fora do normal para o que se exibia na época, e depois da sensação de surpresa, do inesperado. Como quando recebemos um presente com o qual não estamos a contar.

(Também senti o mesmo quando estava a sair do ciclo e vi o início do King Kong (aquele que inspirou Peter Jackson) pela janela de uma casa. Mas isso é outra história.)

Infelizmente, a televisão lá de casa era uma arcaica Phillips a preto e branco (a chamada televisão de guerra, feita para durar), e não podia ser, não, um filme deste calibre tinha que ser desfrutado a cores em ecrã gigante. Julgo que demorei cerca de 10 segundos a chegar ao café principal da vila, o Coelho (tinha outro nome mas, como tantos estabelecimentos de vila do interior, era conhecido pelo apelido do dono), um lugar semi-decrépito, com uma decoração característica dos anos 70, frequentado pela nata de bebedolas do local. E com televisão a cores, claro.

O Coelho estava dividido em duas salas grandes (restaurante e bar) separadas por uma parede, e com um balcão ao fundo, de madeira velha e a cheirar a bagaço, com bancos redondos esfolados que giravam. Naquela noite a área do bar estava deserta, com cadeiras espalhadas ao abandono como testamento às multidões que por ali tinham abancado durante o dia. Ao fundo, no balcão, ainda resistiam umas poucas pessoas, em conversa ruidosa. Tinha um cheiro característico, uma mistura de tabaco queimado e Macieira, e o chão de azulejos já tinha visto melhores dias. No tecto rodavam umas ventoinhas, preguiçosas e perigosamente oscilantes, que me provocavam calafrios quando lhes sentia o abanar próximo do cachaço. Puxei uma cadeira para longe das pás giratórias, apoiei os cotovelos numa das mesas, estiquei o queixo para cima pois a televisão estava apoiada numa prateleira mesmo ao cimo da parede, e perdi-me. Já não estava no Coelho, os bêbados reduziram-se a um murmúrio longínquo, entrei em Metrópolis a voar por entre os prédios.

Curiosamente, o Super-homem nunca foi o meu herói favorito. Antes mesmo de aprender a ler já as minhas irmãs me compravam as revistas do Homem Aranha, numa papelaria da Rua Direita em Viseu (que ainda existe, mas é livraria, agora), e quando chegou a altura de vestir um pijama colorido e sair para o largo de oliveiras à beira da nossa casa, era o aracnídeo que encarnava. Ai, as doces recordações da infância… o riso histérico das vizinhas nas janelas quando viram as minhas piruetas no empedrado, o baloiçar precário nos ramos…

Mas há qualquer coisa naquele super-herói que apela ao divino que há em nós. Não é a invulnerabilidade, não é a super força, ou a visão de calor e de raios x, nem mesmo a nobreza da personagem. É a capacidade de voar por entre as nuvens, mais rápido que uma bala. Foi o que me cativou desde cedo, e aquilo que me prendeu durante as duas horas (?) do filme, mesmo levando em conta os fracos efeitos especiais. Voar. Já deixei de sonhar que voava há alguns anos, mas a cada encosto na almofada sinto uma prece silenciosa cá dentro, a pedir “mais uma vez, só uma vez, por favor”. É a expressão de liberdade absoluta. Voar.

Quando fui ver este novo Super-homem, levava muitas expectativas na bagagem, mas também uma boa dose de reserva. Sabia que tecnicamente o filme seria fantástico, e pela primeira vez podemos ver o homem de aço realmente a voar, mas também sabia que nada poderia quebrar o primeiro encanto. O filme tem sequências repletas de espectacularidade (a cena do avião em queda é fantástica), mas uma história fraca, com actores e actrizes mal escolhidos, deixa muito a desejar.

Brandon Routh está bem escolhido pelas semelhanças físicas com Christopher Reeve, mas nunca consegue impor-se perante tamanho legado. O que não é de espantar, uma vez que se trata do seu primeiro papel, e nota-se bem o desconforto do actor em certas cenas que exigem um pouco mais de expressão dramática. Não percebi muito bem se estava a tentar colar-se aos trejeitos de Reeve, ou a prestar-lhe uma singela homenagem pelas mãos do realizador, mas o resultado final nem sempre é o melhor. E sofre de um dos problemas que afectam outro actor importante para a trama, que é o de ser demasiado jovem para o papel. Senão vejamos: neste filme, que supostamente é a continuação de Superman II (o III e o IV são ignorados, o que é uma bênção, pois foram o claro declínio da série), o Super-homem volta à terra depois de cinco anos passados no espaço, em busca do seu planeta natal, ou o que restou dele. Não se compreende que, passados cinco anos, o Super-homem apresente o aspecto de um homem a entrar na idade adulta. O engraçado é que, na minha opinião, Christopher Reeve tinha um ar demasiado adulto para quem saiu da quinta dos pais e procurou o primeiro emprego na cidade. São incongruências que facilmente perdoamos, e acredito que nos filmes seguintes Brandon Routh esteja mais amadurecido, fisicamente e como actor, e aí sim, tenhamos um Super-homem adequado.

A personagem de Lois Lane, Kate Bosworth, também é escandalosamente jovem para um papel de uma mulher que, para além de ser mãe de um miúdo com cinco anos, ainda teve tempo de ganhar um Pullitzer. Não compreendo a escolha, aquele papel precisava de alguém mais velho, com um ar mais profissional com aspecto de jornalista. A menina parece que saiu directamente de uma série para adolescentes, e quando tenta mostrar a sua personalidade forte e teimosa perante o editor do jornal (Frank Langella num Perry White apagado e burocrático), mais parece uma rapariguinha birrenta e mimada. Por outro lado, Kevin Spacey apresenta-se razoavelmente competente, e ofusca até certo ponto o Lex Luthor original (Gene Hackman), mas também não resiste a um certo histerismo de vilão maquiavélico.

A história não está mal de todo, mas tem muitos buracos, sendo que o maior deles reside justamente no plágio descarado que fizeram ao argumento do primeiro filme. Valha-me São Eustácio e todos os deuses do Vale do Nilo, com tantas histórias boas por aí, publicadas em milhares de revistas, não conseguiram fazer nada melhor do que ir buscar exactamente as mesmas ideias fulcrais e conceito do filme original de 1977? Mais uma vez temos um Lex Luthor obcecado com a criação de propriedade imobiliária (e destruição da propriedade já existente como consequência), mais uma vez temos um herói subjugado pela kriptonite, mais uma vez uma comparsa do vilão que lhe estraga os planos. Aliás, todo o plano maquiavélico de Luthor é risível, o que nos leva a outro assunto, igualmente pertinente.

Os super heróis representam os nossos ideais, as nossas aspirações enquanto seres humanos fracos, falíveis, e pouco nobres. Tanto quanto os deuses da antiguidade representavam o ideal de perfeição em forma de entidades superiores que governavam por vezes caprichosamente o destino dos pobres e indefesos mortais. O Super-homem, por aquilo que é e pelo que representa aos nossos sonhos, é o deus dos tempos modernos que paira acima de nós e ouve os nossos apelos e súplicas (preces?), pronto a intervir quando necessário. Esta imagem está bem patente na cena em que ele paira na atmosfera terrestre, de braços abertos em cruz (um pouco óbvio, sr. Singer, duh!), a ouvir todas as vozes da humanidade, a descer à terra para nos salvar. É um conceito bonito, e reveste o personagem de uma monumentalidade e dignidade que os filmes anteriores não tinham. O Super-homem merece essa monumentalidade, porque realmente é um deus, é o resultado da nossa vontade de alcançar uma certa noção de divino, de ultrapassar as misérias e fraquezas humanas.

Sucede que, na altura da sua criação e em anos subsequentes, o mundo era um local bastante mais simples. Na linear divisão de poder entre duas potências congregava-se uma igual divisão, a preto e branco, entre o bem e o mal (nós éramos o bem – a civilização ocidental –, e eles os maus, os comunistas devoradores de crianças que não permitiam ao seu povo viver em liberdade). Um personagem tão nobre, tão empenhado na defesa dos ideais do bem e da justiça, encaixava na perfeição nesta visão maniqueísta do mundo, mas entretanto o mundo mudou, e nada é a preto e branco. Todos os conceitos e ideologias se equilibram numa camada infinita de cinzentos, e os ódios e violências atingiram proporções inimagináveis. Existe lugar para um Super-homem num mundo destes? Ou melhor, será que ele pode fazer alguma coisa, terão as suas simples acções algum significado perante o desfile de horrores que nos servem diariamente pela televisão?

Este conceito está a ser, ainda de uma forma algo inepta, abordado pelas revistas de super heróis da actualidade, e era algo que gostava de ver trazido para o ecrã dos cinemas. Gostava de ver um herói esmagado pela maldade do mundo, a salvar uma pessoa de um incêndio com a plena noção que não estava a conseguir impedir o massacre de inocentes em qualquer outro ponto do outro lado do globo.

E aqui, penso que o filme perde a aura de fascínio, porque os maus estão bem definidos, e têm algum plano estúpido que vai provocar a morte de milhões, mas são tão ineptos nas suas acções, tão ridículos nas suas aspirações, que empalidecem frente a qualquer bombista suicida anónimo que se desfaz em bocados e leva dezenas com ele. O mundo do filme não é o mundo em que vivemos, e naturalmente que nunca poderia ser (com homens voadores e essas coisas e tal), mas podia ser um reflexo mais próximo do nosso mundo. Podia ter dilemas morais, consequências, culpa, morte e dor. E só tem fogo de artificio extremamente bem feito e umas poucas ideias coloridas daquilo que gostávamos que o mundo fosse. Embora nunca possa ser.

Para terminar, mais uns buracos que revelam alguma cegueira do realizador: o fato do Super-homem resiste a munições de calibre anti-tanque, mas não consegue manter a integridade perante uma pedra afiada de kriptonite. O caracol na testa do Super-homem dá-lhe um aspecto de cantor pimba (eu sei, eu sei, o Reeve também tinha, tal e qual como nas revistas, mas actualizem-se, pelamordedeus). O herói consegue erguer um continente do oceano e enviá-lo para o espaço profundo, aparentemente desconhecedor da capacidade de resistência e tensão dos materiais (tentem levantar o carro pelo pára choques e vão perceber: parte-se o plástico, o carro não se mexe).

São opções destas, que demonstram algum desrespeito pela personagem (que merecia uma história melhor, e com mais lógica) e pelo público (que pelos vistos não tem discernimento suficiente para notar estas coisas), que me deixam com um sentimento agridoce; o filme é bom nos momentos bons (como quando vemos Clark Kent a observar Lois Lane, através da visão de raios x, a subir pelo elevador, ou mesmo nos flashbacks da adolescência do herói), e péssimo nos maus (Lois Lane é tão burra que, perante a iminência de um desastre aéreo, faz o mais óbvio, que é soltar o cinto de segurança e andar aos tombos pelo avião). Bryan Singer abandonou o franchise dos X-Men para este projecto, mas deixou-se levar demasiado pela aura de génio que acredita ter, e preferiu desenvolver ideias gastas com um toque novo aqui e ali, e um clima de romance meloso inadequado. Não gosto de ver um Super-homem atormentado pelo romance da sua amada com outro homem, tal e qual um adolescente imberbe. Preferia ver um homem com poderes extraordinários a tentar o impossível: salvar a humanidade de si mesma.

Ainda assim, o filme vale a pena ser visto. Não consegue ultrapassar o original, com o saudoso Christopher Reeve apoiado nos arames a fingir que voava a alta velocidade, mesmo que a capa apenas sacudisse ligeiramente, e se notasse a discrepância de iluminação entre o fundo e o herói. Esse senhor, pelo papel que imortalizou, e por tudo o que conseguiu ultrapassar na sua vida, vai ser sempre o verdadeiro Super-homem. Até o miúdo embasbacado no Coelho sabia isso, quando o filme terminou e voltou para casa, a sonhar acordado que voava por entre as nuvens.
Precisa de uma segunda opinião?

sexta-feira, setembro 01, 2006

Problemas de Expressão (Ridículas II)




It’s like I just woke up one morning
Looked out the way that we live
For things could be so much better
They must be better than this





A noite caiu em silêncio, e assobia no ar um sopro frio que convida ao recolhimento. Estive durante algum tempo na varanda a observar as pessoas apressadas, em direcção às suas casas, vindas de qualquer lugar, e agora estou aqui sentado. Mais uma vez em frente a uma folha branca feita de zeros e uns virtuais, a tentar traduzir o inconsciente, o que não se pode relatar em palavras. A ordenar pensamentos e a procurar que alguma ideia coerente escorra da mente confusa para a ponta dos dedos que febrilmente bailam sobre o teclado.

O momento mais difícil é sempre este: começar. Cada vez que revolvo os cantos dos sentimentos, para encontrar qualquer coisa que valha a pena dizer-te, deparo-me com uma barreira quase intransponível, que é a tradução daquilo que trago no peito de uma forma que possas compreender. Sei que houve alturas em que me entendeste bem demais, em que leste todos os textos e poemas que trago guardados mas não revelo a ninguém, mas também momentos existiram em que senti que não conseguias alcançar para além da superfície, que alguma noção ou ideia te toldava os pensamentos e desviava o entendimento para zonas mortas, onde existia um reflexo daquilo que eu demonstrava, mas que não era aquilo que eu era.

No leitor de cd’s os Clã debitam langorosamente os seus problemas de expressão, e acendo um cigarro, de sabor fumarento. Por instantes perco-me a observar o revolutear sinuoso do fumo cinzento, esguio e ágil como um ser vivo, sensual como uma bailarina do ventre, pleno de contorções e reviravoltas, que, como tudo no mundo, também podem servir de metáfora para a vida, e, em ultima análise, para o amor. As palavras custam a sair, e por vezes digo o contrário do que estou a sentir, mas também não é todos os dias que se vive um grande amor, e certamente não é todos os dias que se perde um grande amor, pelo que alguma reserva uma pessoa deve ter antes de condenar e procurar os inevitáveis porquês do fim, que ultimamente parecem andar sempre rodeados de culpas e mágoas.

Não tenho bem a certeza do que vai sair de mim, com esta carta. Aliás, nunca soube que pedaços entregava, a cada texto que te escrevia, e esta não vai ser excepção, pelo que te peço alguma paciência. Algures vais encontrar uma noção basilar, e é à volta dessa ideia central que gravitam todas as palavras que te escrevo, sozinho no quarto com musicas tristes e uma cerveja meio bebida, sem mágoa nem pudor. Quero que saibas, no entanto, que se desconheço o que esta carta vai ser, tenho ao menos uma ideia clara do que não vai ser: não é um pedido de desculpas, não é um pedido de retorno, não é para te “iludir” para mais um encontro, não é para te deixar triste, não é para dizer que te amo ou odeio, nem sequer para descarregar lamentos ou frustrações. Se tiveres paciência e alguma curiosidade para leres o que te quero dizer, permite-me que pegue a tua mão, e te leve para os próximos parágrafos; se não queres mais olhar para dentro de mim, então tens toda a liberdade de saltar até ao último parágrafo, onde certamente te darei um beijo imaginativo e original de boas noites, com votos sinceros de felicidade.

Não é fácil, sei bem, e percebo que exista muita mágoa, e palavras que ficaram por dizer – talvez até sentimentos que ficaram por revelar – na nossa história. Acredito que o amor é, por si mesmo, uma expressão de algo mais grandioso que nos ultrapassa, uma força natural que atrai e repudia, e tanto nos leva aos píncaros como nos rebaixa aos insondáveis abismos. É preciso esforço, muito esforço, para que o encaixe que parece tão natural ao princípio se prolongue para aquele acomodamento gentil e doce, que afinal não mais é do que um amor intenso vivido de forma gradual e calma.

Há muitas concessões e exigências nisto de amar alguém, e sei que alturas existiram em que dei a entender que não estava disposto a abdicar de nada, que não mais eras na minha vida do que uma nota de rodapé, uma anotação à margem das páginas. Sei que tenho a vida demasiado preenchida, e momentos houve em que abdiquei de estar contigo para poder responder a mais algum compromisso, e não posso pedir desculpa por isso, porque… bem vês, é assim mesmo que a vida é, não há nada que possamos fazer. Tu sempre foste a melodia central da minha vida, aquele pulsar ao fundo que marca o ritmo de tudo, mas no meio da canção sempre existiram notas que se introduziram à traição, e que distorciam um pouco o tempus da composição. Ao fundo, era sempre a tua canção que estava a tocar, era sempre a tua música que eu ouvia.

Porque sempre foste o meu porto de abrigo, aquele farol imutável que permanece sólido e afronta todas as tempestades, constantemente a alumiar o meu caminho. Por mais voltas e reviravoltas que a minha vida desse, por mais locais onde fosse e pessoas conhecesse, tu estavas sempre ao fundo da viagem, e mesmo indo na direcção contrária, era para ti que eu ia. Para ti, mais ninguém.

Não quero com isto dizer que te considerava “sempre ali”, eternamente disponível, viesse eu de onde viesse. Não. Quero dizer que podia sempre contar contigo, e não importa quão louca e movimentada fosse a minha vida, não interessava em que turbilhões da cidade e do pensamento me perdesse. Sabia que estavas lá, e sempre ia encontrar a paz no teu regaço, o descanso nos teus braços, a doçura nos teus seios.

O que é o amor, afinal?, o que significa na verdade amar alguém, senão encontrar nessa pessoa aquele refúgio onde podemos ser nós próprios, sem máscaras e sem mágoas, onde podemos sentir que amar é tão simples, tão fácil, tão verdadeiro, que nunca poderia ser de outra forma? Nunca precisei de me esforçar para te amar, e mesmo quando discutíamos, ou te zangavas comigo, eu sabia que eras tu, só podias ser tu. Contigo era simples, não havia lugar para lógicas complicadas, para equações de paixão, raízes quadradas de desejo, ou algoritmos de sentimentos. Estava implícito, e só isso é mais do que podemos esperar de uma vida regida por cálculos que contornam os sentimentos.

Nunca procurei em outros braços aquilo que os teus braços me davam porque não precisava, tu eras a fonte que matava todas as minhas sedes, mesmo que esta frase seja um terrível lugar comum e deva ser evitada a todo o custo. E se te pareci distante, alheio até, é porque não sentia necessidade de deconstruir o que me passava pelo peito, pois sabia que estavas ali para me receber, que aquilo que sentias era tão incondicional como o que sentia. Nem me apercebi que te afastava, que algures no teu íntimo uma outra compreensão se instalava. Parecia-te desinteressado? Dei-te a sensação que não tinhas a importância que devias ter? Fiz-te sentir menos especial do que aquilo que és, e mereces sentir? Não era a minha intenção, e só não te peço desculpa agora porque silenciosamente, ao longo destes tempos, já a pedi muitas vezes.

Sei que a vida tomou um rumo que talvez te leve para longe de mim. Sei que outros pensamentos te ocupam o espírito, e talvez não me dediques, no coração, mais que um fugaz aceno de lembrança, e está tudo bem, acredita. Um amor incondicional exige entrega e abnegação, e eu quero que sejas feliz, mesmo que a tua felicidade passe fora do meu, do nosso caminho. Da mesma forma que sei que mereces ser feliz, também sei que fomos felizes, mesmo no meio da amargura e das discussões. Porque a vida e o amor têm que ter atrito para conjurar calor. Todos temos que ter momentos menos bons para que os momentos felizes sejam realmente felizes. É assim que eu vejo a nossa história, e sei que foi uma história bonita, de amor profundo, altos e baixos, risos e lágrimas, beijos e olhares duros, mas não seria profundo se não tivesse existido nada disso. E talvez já não te amasse, se nada disto tivesse acontecido.

Não te vou esquecer, porque não se esquece alguém como tu, e se tens que ser feliz seguindo o teu próprio caminho, sozinha ou sem mim, então estou mais que disposto a recolher-me silenciosamente para o lado e deixar-te passar, lançar-te um olhar prolongado e deixar que este amor me leve para outro local, para onde tenho de ir. Talvez as coisas pudessem ter corrido de outra forma, e talvez estivesse nas minhas mãos o rumo para que tal sucedesse, e eu não soubesse para onde deveria ter ido, ou para onde te deveria ter levado, mas não é altura para recriminações, ou lamentações sobre o que poderia ter sido, mas não foi.

Irão as nossas linhas da vida cruzar-se novamente, como já se entrelaçaram antes? Não sei. Dizem que o amor nunca afasta verdadeiramente ninguém, e mesmo que caminhemos em direcções opostas, nesta terra que querem que acreditemos ser redonda, acabaremos por nos encontrar algures pelo caminho. Talvez nos encontremos livres de tudo o que nos afastou da primeira vez, e possamos olhar um para o outro, redescobrir o que nos trouxe e traz sempre de volta, começar outra vez. Mais maduros, mais seguros, mais vividos, com mais bagagem de alegrias e tristezas, mais prontos para nos aceitarmos.

Não te quero esquecer, não te vou esquecer, e sempre trarei a tua imagem guardada ciosamente e com carinho no coração. Porque há momentos para fugir de nós próprios e de quem amamos, e momentos para acreditarmos que estas certezas só surgem uma vez na vida, não as conseguimos ocultar, afogar em desilusões, asfixiar em ressentimentos. Há amores que sabemos instintivamente que foram únicos, e por terem sido únicos sempre viverão dentro de nós. Esta certeza é algo que vou carregar comigo, enquanto existir, mesmo que te veja ao longe com outra pessoa, mesmo que te olhe nos olhos e desvies o olhar, mesmo que passes por mim, e não digas uma palavra. Sei bem qual é o som da tua voz, e sempre vou conseguir ver o verde dos teus olhos.

Antes que a cortina final encerre este ultimo acto de nós dois, há ainda uma coisa que te quero dizer, e não é nada elaborado ou romântico de uma forma pretensiosa. É apenas uma constatação:

Foste tu. Foste sempre tu, a única certeza da minha vida, aquela que trago desde que te vi pela primeira vez, e que vai permanecer comigo muito tempo depois de teres desaparecido no horizonte.

E é tudo. Desejo-te boa noite, com um beijo prolongado, do tamanho das estrelas que brilham no teu olhar, suave como o toque sedoso da tua pele, e sentido, como todo o amor que nos uniu, que nunca nos vai separar.

24 de Janeiro de 2006 (escrito a pedido)

quinta-feira, agosto 24, 2006

A fuga abstracta


Não expliques. Não é preciso. São palavras a mais, no muro de silêncio que ambos erguemos à nossa volta, e aposto que não eras capaz de dizer o exacto momento em que começamos a fugir um do outro, provavelmente não entenderias se te explicasse que não existe lógica no longo recuar que andamos a empreender tão morosamente, tão convictamente, a partir do instante em que os teus braços me rodearam. Inexoravelmente. Andamos a fugir há tanto tempo que já perdemos a noção se é de nós, ou se de cada um, que escapamos.

Haverá sentido em renegar aquilo que nos ultrapassa? Será que te amo assim tanto que não consigo viver contigo? Não adianta colocar-me estas perguntas, o teu lado da cama não me sabe responder, nem o candeeiro do teu lado que não consigo desligar (porque os meus braços não alcançam tão longe). Passo as noites numa claridade lateral que me traz sonhos vívidos do pôr do sol, e todas as manhãs o quarto se assemelha a um local onde nunca estive, com as sombras trocadas, como se a luz da lâmpada expulsasse o sol que entra pela janela mas ainda assim não fosse suficientemente forte para iluminar o meu lado dos lençóis.

Fomos um Inverno que vê nascer a primeira flor, chegar a primeira andorinha. Como uma estação passageira, o nosso tempo gastou-se. Gastaram-se os beijos, olhares, toques despropositados, os doces entrelaçares dos dedos que não tinham fim e arrogavam-se ar de eternos. E é tão fácil acreditar na eternidade quando somos novos, meu Deus, é uma resposta tão simples a uma pergunta que nem se coloca. Sem margem de manobra para o futuro, descomprometemo-nos dos infortúnios que virão, e ignoramos os dias em que o calar não mais é comparsa dos nossos pecados. Somos actores que fingem desconhecer o esquecimento das falas do segundo acto.

Não comentes, isto é uma fuga abstracta. Se não sabes explicar o amor que nos une - uniu? - tão pouco saberás argumentar perante a inexplicável capitulação, e para quê saberes os motivos porque me afasto, se nunca adivinhaste porque estava próximo? Dizem que devemos aceitar o amor incondicional, mas as pessoas por vezes falam demais, e ainda mais frequentemente tentam encaixar-nos em teorias que criaram para si próprias. Porque reconhecem nelas o mesmo ímpeto de derrubar as mentiras que tão laboriosamente martelaram no peito, talvez para que fiquem pesadas demais e não possam recuar. É o medo, acredita. É o pavor de acordarem ao lado de um desconhecido que conheceram a vida inteira, o nojo de tocar uma carne que deixou cair as cortinas. É o temor de perceberem que foram eles que afastaram o véu.

Se passarmos tempo suficiente a olhar o rosto de alguém acabamos por dar de caras com um estranho, como igualmente perdemos o senso às palavras, se as repetirmos incessantemente. E eu disse-te tantas vezes que te amo, mas já nem sei o que é na verdade o amor: se uma manifestação da minha vontade de me enterrar na ilusão de não estar só, se uma regra hipnótica cravada à exaustão para nos convencer que o amor realmente existe. Essa coisa abstracta, existe? Pode ser definido? Ou são frases que antecipadamente esquecemos e não nos impedem de continuar a fingir que ainda lá estão, algures na memória?

O nosso futuro desbaratou-se em vácuos de palavras que queríamos cúmplices. Resta-nos a fuga abstracta. Para outras mentiras que desejam contrariar a auto perdição, o isolamento enjaulado de cada um. E se não te explico as razões de fugir - aqui, agora -, é porque já começámos a fazê-lo há tanto tempo, logo depois do abraço mais apertado - do beijo mais húmido -, que até esqueci o que me trouxe a ti na primeira vez. Esqueci o que me leva para longe, sempre abstractamente.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Números redondos


Nem de propósito, a Etta James está neste momento a cantar o "At last". A Etta está estapafurdiamente estupefacta, e eu também. 1.000 visitas, número redondo, que bem que fica no contador.

Não me digam que é uma vaidade fútil, que eu sei que é. Nem vale a pena dizer que a maior parte das visitas provenieram de pesquisas no Google sobre a Merche Romero e o Cristiano Ronaldo (para que é que eu fui escrever o post do 24 horas?) ou sobre o Keanu e a Sandra (e eu que bati tanto no filme), ou outras tantas pesquisas diversas que trouxeram os intrépidos a este espaço, onde ficaram exactamente 0 segundos, assim mesmo, em números redondos. E se pensar bem, já que falamos em zeros, a maior parte das visitas foi esse mesmo o tempo que ficaram; as outras ficaram mais, e agradeço-vos a paciência com que vão acompanhando os meus sonhos, mesmo quando falo de assuntos tão díspares como jogos antigos de computador ou títulos possíveis de jornais.

(A titulo de curiosidade, algumas pesquisas absurdas que encaminharam cibernautas para aqui: amor matemática, engenho brum brum – não perguntem -, frases para pai falecido, gémeas esteves cardoso nuas, keanu reeves nu (suspiro), jogo de passengers, - e a jóia da coroa - estrias da merche romero).

De permeio, temos 41 posts com carradas astronómicas de texto (que bem repartido dava para pelo menos o dobro de actualizações), um computador decrépito e periclitante como a versão informática de um citröen dois cavalos de 1972 que acabou de dar a volta ao mundo, e as pessoas. As pessoas são o mais importante. Não trazia grandes expectativas quando comecei este blog, foi a minha segunda musa profissional que me sugeriu pela primeira vez a ideia (se bem que já a trazia em lume brando há algum tempo), mas sabia pela anterior experiência nos fóruns que há muitas pessoas interessantes por aí. Ufffff.

A Lusce disse-me, há cerca de dois meses, que devia refrear a quantidade de texto escrito, para não esgotar a pachorra de quem me lê. Reconheço-lhe o bom senso – que não tenho – porque é mesmo difícil ler um texto comprido no monitor, e tentei de certa forma não alongar-me demasiado em trivialidades. Mas é difícil. Um amigo disse que reconhece padrões quando lê o blog, que as conversas comigo são parecidas, tento encaixar muita coisa, demasiada parra, absurdo esmiuçar de assuntos, dispersão miserável, falar falar falar. E eu que até sou tímido ao primeiro contacto…

A Marycarmen (obrigado pelo livro) a quem ofereci recentemente um dos meus volumes do Sandman, reclamou do fundo deprimente do blog, pois dava uma ideia triste deste humilde escriba, e aconselhou-me a colocar um saudável texto branco com letras pretas. Compreendo que facilite a leitura, mas depois como poderia ter escrito o “I see your face before me”? Só se a cegueira descrita fosse como a do Saramago, um oceano de leite sobre a vista. Prometo que inverto as cores quando fizer anos, em Novembro, mas só por um dia. Este blog é nocturno, em consonância com o tema, ainda que sonhemos em qualquer ocasião, e agrada-me esta estética de escuridão.

Lá estou eu a desviar-me do fundamental, outra vez. Pessoas. Conheci virtualmente algumas pessoas através deste espaço, e alarguei os horizontes da mente e do coração, com este conhecimento. Foi pelo “Passengers” que embarquei na descoberta de outros blogs, que visito com frequência, e nunca me canso de ler. Ler pessoas. Como poderia saber que existiam, de outra forma? Teria uma vida mais pobre, indubitavelmente, se não me tivesse atrevido a criar este “monstro” negro que me atazana constantemente com a lembrança de novos posts para escrever. E se comecei o blog por mim, devo dizer que agora, é por mim e por todos os passageiros que por aqui viajam que continuo.

Ando a arrastar há meses a escrita de uns contos, que incluirei aqui em tempo devido. Aliás, vou terminar agora o post para poder voltar à cidade onde as obras de arte enlouqueceram (ver “Teaser” para um vislumbre inicial da história). Mas faltam ainda umas últimas palavras:

O visitante 1.000 do meu blog foi alguém da minha família, se a localização do computador que o contador informa está correcta. Terá sido a minha irmã, ou as minhas sobrinhas? Mil beijos para todas elas, com todo o meu amor.

E boa noite e bons sonhos, para todos vós.

sábado, agosto 19, 2006

Leituras VIII



"Ela senta-se no canto, tentando extrair um pouco de ar numa divisão onde há poucos minutos parecia haver muito, mas agora parece não haver nenhum. Do que lhe parece uma distância enorme consegue ouvir um débil uup-uup e sabe que é o ar a descer-lhe pela garganta, saindo depois outra vez numa série de pequenos arquejos febris, mas isso não altera a sensação de que se está a afogar, ali, no canto da sala de estar, olhando para os destroços rasgados do romance de bolso que estava a ler quando o marido chegou a casa.
Não que isso lhe interesse muito. A dor é demasiado grande para que se preocupe com tais questões insignificantes como a respiração ou o facto de parecer não existir ar nenhum no ar que respira. A dor engoliu-a como, alegadamente, a baleia terá engolido Jonas, aquele que na Bíblia quis fugir ao recrutamento. Pulsa como um sol venenoso cintilando nas profundezas do seu ventre, onde até esta noite havia apenas a tranquila sensação de algo novo a crescer.
Nunca sentira uma dor como esta, pelo menos que se lembrasse - nem mesmo quando, com treze anos, ao dar uma guinada na bicicleta para se desviar de um buraco foi projectada, indo bater com a cabeça no asfalto, ficando com um golpe que levou onze pontos. O que recordava desse incidente era uma espécie de dor perfurante seguida por uma escuridão surpreendentemente estrelada que fora, na verdade, um breve desmaio... mas essa dor em nada se comparava com esta agonia. Esta horrível agonia. A mão que tem pousada na barriga sente uma carne que já não se parece de todo com carne; é como se tivesse sido aberta, como um fecho de correr, e o seu bébé com vida substituído por uma pedra escaldante.
Oh, meu Deus, por favor, pensa. Faz com que o bébé esteja bem.
Mas agora, quando finalmente a respiração começa a normalizar um pouco, dá-se conta de que o bébé não está bem, que ele também disso se encarregara. Quando se está grávida de quatro meses, o bébé ainda faz mais parte de nós do que de si mesmo, e quando se está sentada num canto com o cabelo colado em farripas às faces cobertas de suor e a sensação de que se engoliu uma pedra quente...
Algo lhe está a deixar pequenos beijos sinistros, viscosos, na parte de dentro das coxas."